
Desde o colapso do Império Soviético em 1991 que deixámos de ter um mundo bipolar, passando os Estados Unidos a ser a única superpotência dominante. O isolacionismo que tem caracterizado a presidência de Obama tem, porém, permitido que o espaço deixado vazio pelos Estados Unidos esteja a ser progressivamente ocupado pela Rússia. Essa situação pode ser extremamente perigosa para a Europa, até porque esta tem demonstrado uma fragilidade brutal, especialmente desde o disparatado apoio ao derrube do governo pró-russo da Ucrânia.
Na Ucrânia Putin ganhou em toda a linha. Conseguiu obter a anexação da Crimeia sem disparar um tiro e fomentou a rebelião em Donetsk e Lugansk, que hoje vivem separadamente da Ucrânia. Ninguém ontem reparou que o jogo entre o Braga e o Shaktar Donetsk foi jogado em Lviv, uma cidade do Oeste da Ucrânia, quase na fronteira com a Polónia, que fica a mais de 1.000 km de Donetsk. Mesmo o próprio clube da cidade já a abandonou. Mas a verdade é que também a União Europeia faltou completamente com o apoio que prometeu à Ucrânia, e o recente referendo em que os holandeses disseram não ao tratado com a Ucrânia foi um claro indicador de que a Europa não tem quaisquer condições de subtrair a Ucrânia à influência russa.
Na Síria, só a intervenção da Rússia permitiu infligir derrotas ao Estado Islâmico, e a Europa já se conformou com a manutenção do regime de Assad, vendo que a alternativa seria muito pior. Mas a Rússia avança ainda mais pelo Médio Oriente, fazendo agora uma aliança com o Irão, o que vai reforçar claramente a influência xiita na região. Tal será visto como uma ameaça, quer pelo que resta do Iraque, quer pela Arábia Saudita, mas a verdade é que os Estados Unidos não estão dispostos a intervir em apoio destes Estados. Até no Báltico, na zona de influência da NATO, os aviões russos chegam ao ponto de provocar navios norte-americanos.
Curiosamente, o país que neste momento parece fazer mais frente à Rússia é a Turquia. Esta já abateu mesmo um avião russo e parece pouco disposta a tolerar a cada vez maior influência russa no Médio Oriente. Não deixa, aliás, de ser significativo o reacendimento recente do velho conflito de Nagorno-Karabach, que coloca um Estado pró-russo, a Arménia, contra um Estado pró-turco, o Azerbaijão. Mas nem a Turquia será capaz de conseguir paralisar este avanço da influência russa, especialmente a partir do momento em que Moscovo já conta com os apoios de Damasco e Teerão.
Neste momento, a novidade do actual xadrez internacional é o regresso da Rússia à categoria de superpotência. Mas desta vez, a guerra corre o risco de não ser fria mas antes muito quente. Habituem-se.

Em aditamento a esta sua reflexão convém notar o seguinte: a questão das relações turcas com a Rússia é somente um assunto adiado. E a Turquia já se arrependeu do acto insensato que cometeu.
A influência russa vai para além dos apoios recebidos por Damasco e Teerão, pois a Arábia Saudita, como tive oportunidade de notar aqui no DO, firmou um acordo com a Rússia para a limitação na produção de petróleo, excluindo desta limitação o Irão.
Quando aqui fiz notar essa questão pretendi dizer que a Arábia Saudita implodiria por si mesma caso se mantivesse, ainda que com um acordo tácito com Israel, na vanguarda do derrube do regime de Damasco e também na desestabilização do Iraque.
Não é por acaso que o preço de petróleo subiu após o referido anúncio e as previsões apontam para que até ao final do ano subam ainda mais. Resya agora a ratificação de outros membros da OPEP.
Mas devo dizer-lhe que as limitações dos EUA foram definidas pelas insensatas intervenções no Iraque, na Líbia e na Síria. hwarzkopf,_Jr.). Ele sabia que a destruição total das forças do regime iraquiano só conduziriam ao aumento da influência sunita na região.
Bush pai tinha compreendido a delicadeza do problema iraquiano quando mandou parar o General Schwarzkopf (https://en.wikipedia.org/wiki/Norman_Sc
Claro está que as guerras também se ganham com o tempo. E o general tempo foi o estratega mais competente da Rússia. Pois permitiu que o caos se instalasse nessas áreas e também que a Rússia reestruturasse os seus arsenais, desenvolvesse novas armas e estratégias e consolidasse suas posições quer no Mediterrâneo quer em toda a área do golfo.
Tudo concorreu para que eles pudessem emergir com a pujança hoje constatada. Mas mais importante que esta pujança é a questão moral que subjaz em suas intervenções, pois aniquila qualquer argumento do Ocidente.
Quem compreende muito bem isto é a Polónia que sempre se viu numa situação fragilizada quer com o seus vizinhos alemães quer com o gigante a leste.
As manobras dos aviões russos no Báltico não são meras provocações, pois têm como objectivo refrear os apoios vindos da Suécia e outros estados do Báltico. E é sabido também que os EUA e a Europa não possuem capacidade para enfrentar a problemática que se vive no mar do Sul da China, na Coreia do Norte e ao mesmo tempo intervir na região do golfo e do Báltico.
Significa isto que a Europa só pode contar com o apoio americano de forma formal, mas não efectivo. Sabendo disto, a Polónia desdobra-se em esforços para convencer a fixação de um contingente de forças em seu território. Mas tais esforços serão infrutíferos.
Concluindo, Luís, o que veremos no futuro é uma divisão de influências negociada tacitamente entre Rússia, EUA e China. Se assim não ocorrer sem dúvida que o fogareiro vai esquentar. A Europa que se cuide e seja capaz de colocar nas mais diversas áreas de interesses pessoas crescidas e que saibam o que fazem.
Já agora, a Turquia que se cuide também.
Luís, fiquei com a ideia que terei feito referência, por lapso, à influência sunita quando pretendia dizer xiitas do Irão.
Por favor, adicione esta correcção ao meu anterior comentário.
Grato