Reflexão do dia


Pedro Correia,

«Não existe uma nova ortografia. Existe, sim, um acordo que destrói a noção mais básica de ortografia, a que vem descrita, com clareza e secura, no relatório académico que antecedeu o acordo de 1945: “não se consentem grafias duplas ou facultativas. Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única. Não se consideram grafias de uma mesma palavra” (por exemplo: ouro, oiro; louça, loiça; touro, toiro, etc.). Pois a tal “nova ortografia” não só consente como multiplica à exaustão grafias duplas e facultativas. Antes dela, o Brasil tinha uma ortografia. Portugal também. Agora, têm um supermercado de palavras, muitas delas caricatamente deformadas, para usar ao gosto do freguês – o “escrevente”.

Ora Marcelo respeitou a ortografia (em vigor, já que nenhuma lei explicitamente a revogou) aprovada em 1945 com bases científicas. O que por aí anda é outra coisa. Chamem-lhe poligrafia, multigrafia, plurigrafia, arbitriografia, o que quiserem. Ortografia é que não. Por isso, se o senhor Presidente quiser poligrafar, poligrafe. Se não quiser, ponha algum tento nisto.»

 

Nuno Pacheco, no Público

0 comentários em “Reflexão do dia”

  1. já se escrevia em bom português antes de se estabelecerem regras fixas em 1911

    há jornais do séc xix com 3 grafias diferentes no mesmo nº

    1. O Decreto 35.228, de 8 de Dezembro de 1945 define como escrever Português. Foi alterado pelo Decreto-Lei n.º 32/73
      Como uma decisão da AR não se pode sobrepor a Decretos nem a Decretos-Lei, tal decisão é nula.

  2. Um texto excelente, este. E que alguém chame à razão o Sr. Malaca. Pode ele defender até ao fim esta iniquidade que co-inventou. Mas não pode – porque MENTE (se é que isso por estes dias vale alguma coisa) – afirmar que é a lei. Não é, legalmente não vigora, como qualquer aluno de primeiro ano de Direito tem obrigação de saber.

    Aliás seria interessante, ainda que meramente ocioso, é certo, conhecer a razão pela qual aqueles que nos querem impor isto não se deram ao trabalho de o fazer através do devido processo, dando-lhe ao menos uma máscara de legalidade formal: mera negligência (e a ser assim, cega e surda); desprezo pela legalidade (o que até explicaria essa cegueira e surdez)?

    Medo não creio. Líderes políticos e assembleia da república (as minúsculas são deliberadas ), o mais que fazem é dizer, quando dizem, que a título pessoal não adoptam o AO90 e fugir afanosamente a uma posição séria sobre o assunto. O povo, largamente pouco mais do que analfabeto funcional e muito satisfeito com essa condição, faz na matéria o que lhe disserem para fazer, é-lhe na melhor hipótese indiferente a questão da ortografia, e achará sempre muito bem o que lhe apresentem como moderno ou lhe pareça influenciado pelo Brasil (que o Brasil se afaste do AO90 , mesmo que com o inenarrável fundamento de que se deverá ir ainda mais longe, é coisa demasiado complexa para os interesses populares).

    Tudo vai correndo no sentido “sabiamente” determinado: o momento chegará em que se dirá (e já se diz) que afastar o AO9O seria causar uma confusão inaceitável nos “conhecimentos” entretanto adquiridos por uma geração de alunos e que por isso a coisa é irreversível. Tem que ser, independentemente mesmo do seu real (inexistente) mérito.

    E a mediocridade vencerá pelo cansaço. É uma sua prática comum. E entre nós em regra muito bem sucedida.

    Costa (Rui)

  3. O relatório académico que antecedeu o acordo de 1945 bem podia dizer que “Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única”, mas o facto era que, segundo Vital Moreira, hoje mesmo no seu blogue, “antes do AO já existiam numerosas duplas grafias das mesmas palavras, não apenas quando havia duas pronúncias (loura / loira, louça / loiça, bêbedo /bêbado, organograma /organigrama, síndroma /síndrome, fêvera /febra, etc), mas também mesmo quando não havia (como, por exemplo, ruptura / rotura, carrossel /carrocel, urtiga /ortiga, etc.)”.
    Repare-se aliás como a frase do relatório académico traduz uma visão ditatorial e centralista da língua, coisa que boa parte dos opositores ao AO diz rejeitar.

    1. E as duplas grafias que aponta conviviam sem repugnância com a norma, tranquilamente. Fosse, pela sua valia como regionalismo, fosse pela sua relevância como tradição, fosse pela sua sedimentação ainda que arcaísmo e assim credor de respeito, fosse pela sua distinção cultural (como o Rio Doiro de Torga).

      Conviviam pacificamente com essa referência, para si ditatorial, para o autor do texto (e muito bem) “aprovada em 1945 com bases científicas” (se bem que se possa mesmo discutir que vantagens – para lá de uma simplificação: e isso não pode fundamentar tudo – verdadeiramente resultaram da larga amputação das marcas greco-latinas da nossa grafia). Uma norma que não hostilizava nem reduzia ao ridículo as grafias anteriores. Antes estabilizava uma referência, gradual e cientificamente fundamentada.

      Referência que tinha – tem (porque é aquela que legalmente vigora) – por bases fundamentos científicos, enquanto o AO90 tem-nos confessadamente políticos e, neles se escorando, manda a ciência – e a simples e elementar lógica e coerência) às urtigas. Ou pior. E como se vê, desde logo pelas posições de M. Casteleiro, nem na mera legalidade formal se escora. Dir-se-ia mesmo que a legalidade lhe é irrelevante, desprezando ainda, arrogantemente e como anacronismos sem a menor valia, donde varrendo-os, tudo aquilo que o antecedeu.

      A visão “ditatorial e centralista” que o Lavoura invoca resulta da evolução natural, gradual, ao longo de gerações e contida por balizas científicas, do português europeu, convivendo em pé de igualdade com o português sul-americano e com o que viesse eventualmente a decorrer da evolução ortográfica das variantes africanas (e não só) do português.

      Aquilo que o Lavoura fervorosamente adora, sabe-se o que é: uma coisa cientificamente sem nexo e que potencia o que afirma pretender evitar, uma genuflexão submissa e humilhante perante o absurdo critério da demografia (seria interessante saber se ingleses, espanhóis ou franceses aceitariam tal coisa; mas presumo que sejam povos grosseiramente incultos, culturalmente irrelevantes) e que, afinal, aqueles que por esse mesmo critério imperam pura e simplesmente desprezam.

      Genuflexão submissa, humilhante e além disso estúpida e inoperante face aos objectivos invocados – exibam os seus mentores as credenciais académicas que quiserem -, pois se uma ortografia única até pode no limite ser imposta, literalmente à força se necessário (e vê-se como duas meras “resoluções” puseram quase toda a imprensa e muitos autores e editoras de joelhos; o que estará por trás disso…), não vejo como o mesmo se possa fazer quanto à sintaxe e ao vocabulário.

      Talvez de facto com uma ditadura, Lavoura, com Comissários da Verdadeira Língua em cada esquina, cada café, cada escritório, cada sala e quarto, cada local onde estejam duas pessoas ou mais, com acesso aos escritos mais pessoais, mais íntimos de cada um. De certa forma a hipótese já foi teorizada: chamou-se-lhe “newspeak” (novilíngua, por cá).

      O Lavoura leu?

      Costa (Rui)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *