Nasci numa casa das que já não existem. Das que são elas próprias uma história de amor.
Era a casa da avó Júlia e do avô Eduardo, pais de nove filhos, que a arrendaram em 1949 quando a minha mãe tinha quinze anos. Foi nesta casa que todas as tias se casaram e onde sempre éramos fotografados com um ar muito composto, defronte de uma colcha de Castelo Branco e de dois jarrões da Índia que se vieram a partir na sequência das corridas de patins no corredor.
Quando os meus pais se casaram, ficaram a viver no segundo andar, no sótão, e por lá fomos nascendo os cinco, no meio de avós e tias.
O meu pai, que vinha de uma família reduzida, adoptou aquela multidão como sua e sempre o ouvi chamar mãe à minha avó materna (embora fosse comum à época) e manas às minhas tias.
Com grande pena minha, o avô Eduardo morreu pouco tempo antes de eu nascer, pelo que nunca o cheguei a conhecer.
A avó Júlia era uma pessoa bondosa, muito ciente das suas obrigações católicas.
Lembro-me sempre dela a atravessar a rua para assistir à missa diária na capela dos Jesuítas, que ficava ali defronte. No inverno levava na cabeça um chapéu de pêlo, à russa, por causa dos resfriados e das constipações.
Lá em casa havia um Santo António grande, talvez de um metro de altura, e um dia o meu irmão Zé resolveu cobrir a cabeça do Santo António com um garruço. A avó ia tendo uma apoplexia. Achou que o acto herege podia valer ao neto o eterno fogo do inferno. O meu irmão, que sempre teve jeito para derreter corações de senhoras, ofereceu-se para ser seu aio por tempo indefinido e a avó acabou por esquecer a barbaridade.
Ao domingo íamos à missa à Basílica da Estrela. Eu era levada pela mão de alguma irmã ou de uma tia e às vezes deixavam-me levar uma boneca para assistir à cerimónia. Depois ficava muito aflita porque quando chegava a altura de comungar, por ser muito pequena, era obrigada a acompanhar as tias e ficava cheia de medo de não voltar a encontrar a boneca no banco da igreja.
A tia Beu fumava cigarros Ritz e levava-me a lanchar a uma pastelaria popular, logo ali ao lado. Eu escolhia iogurtes Ucal de chocolate porque eram os meus preferidos. Às vezes também me deixava comprar cigarros de chocolate iguais aos dela, que eu fingia fumar com os dedos esticados.
As compras faziam-se no supermercado Expresso e, na altura do pós 25 de Abril, cada pessoa só podia comprar dois litros de leite. De maneira que acontecia fazer viagens repetidas ao supermercado com tias diferentes para podermos trazer mais leite para casa.
Quando alguém ficava doente, íamos à Farmácia Mota Capitão, na rua de São Félix. Mas eu tinha muito medo porque achava que, se caísse, só parava em Santos já toda estrampalhada.
A casa tinha um leão de latão, em lugar de uma campainha. Quando alguém se queria fazer anunciar, puxava uma argola na língua do leão que fazia soar um sino.
No primeiro andar havia a salinha do piano. A tia Tó foi fazer o conservatório e tinha de ensaiar muito. Convocava os meus irmãos para lhe passarem as páginas da partituta. Quando estava bem disposta, e sabia que a avó não estava em casa, prometia-lhes tocar “A Desfolhada”, mesmo com a parte do “quem faz um filho, fá-lo por gosto”.
Do segundo andar só se descia de corrimão. Apanhava-se balanço na descida e depois reduzia-se ligeiramente a velocidade para fazer a curva de cada patamar sem danos de maior.
As escadas só serviam para fazer concursos. Para descobrir, entre os primos, quem era capaz de saltar do degrau mais alto.
Os meus irmãos são os quatro em escadinha e um bom bocado mais velhos do que eu. Pintavam a manta.
Em dias de chuva, divertiam-se a fazer a vida negra aos taxistas da praça que ficava do lado de lá da rua. Na altura, não havia centrais e as praças tinham uma coluna com um telefone para onde se ligava a pedir o serviço.
Os meus irmãos, de luz apagada e escondidos por detrás dos cortinados, ligavam para a praça. O taxista saía do carro debaixo de chuva torrencial, corria para o telefone e, no preciso momento em que se percebia que ele ia pegar no auscultador, desligavam.
Esperavam então que o senhor retomasse o assento no automóvel e repetiam calmamente a operação. Tantas vezes quantas as necessárias para ver um taxista em estado apoplético.
Outro clássico, era a “operação Ortigão Ramos”. A prole Ortigão Ramos vivia na casa do lado e, vá-se lá saber porquê, era alvo da embirração dos meus irmãos.
De maneira que, quando estavam enfadados, resolviam ligar para uma pastelaria lá do bairro a dizer que era da casa dos Ortigão Ramos e que era para encomendar uma dúzia de duchesses com entrega ao domicílio. Esperavam um quarto hora e lá viam um moço a passar com uma grande caixa atada num cordel.
Sabe-se que nunca os duchesses foram devolvidos. Mas ainda hoje nos perguntamos se algum Ortigão Ramos chegou a levar uma sova por acharem que era ele a fazer a encomenda.
Os momentos áureos eram os dias de festivais da canção. Fazia-se um bolo e tudo, para ser fatiado durante o intervalo, entre as actuações e as votações. O divertimento supremo era identificar uma fífia, um tropeção ou uma toillete medonha para, sem qualquer tipo de cerimónia, se desatar a atirar impiedosos pedregulhos verbais capazes de aniquilar logo pela raiz qualquer remota pretensão de carreira no mundo artístico.
Depois, cantavam-se meses a fio os temas mais populares e faziam-se actuações caseiras a imitar os artistas.
Isto foi tudo há muito tempo. Foi tudo noutra vida. Mas deixa cá umas saudades.

Agora que já não há primos, nem sobrinhos nem tios nem netos, nem avós,apenas gatinhos, cachorrinhos, cachorrões e gatonas…adoptemos, nem que seja refugiados.
O mundo não pode parar!