Num artigo do New York Times sobre as tensões internas da UE, nomeadamente entre países de leste e ocidentais, era citada a história do telegrama judeu, anedota divertida, que se resume a isto: “Começa a preocupar-te, pormenores seguem mais tarde”.
Não reencontrei o artigo (pouco importa, não era interessante), mas julgo que a ideia da frase se aplica de forma perfeita à actualidade. Sentimos que se prepara alguma coisa má, mas não sabemos exactamente o quê. Os mercados andam nervosos e os economistas explicam esse nervosismo como algo um pouco no ar, que tem a ver com preços de petróleo, instabilidade dos bancos, lucros em queda, abrandamento na China, dívidas monstruosas, pequenos pânicos bolsistas.
Começa a preocupar-te, os detalhes seguem depois, aplica-se muito bem à situação geral, sobretudo nos países avançados, onde alastra um descontentamento difuso. Os eleitores estão furiosos com os efeitos de uma crise interminável, mas sobretudo com a impotência das elites e a arrogância dos intelectuais, a língua de pau dos burocratas e a indiferença dos poderosos. As classes altas instalaram-se numa torre de marfim e o homem da rua perdeu a sensação de mobilidade social. Aprofundam-se as desigualdades, mas o poder nunca defendeu tanto a igualdade a todo o custo.
Esta ansiedade junta-se à opinião, cada vez mais espalhada, de que os pequenos não contam (proprietários, lojistas, empresas, países) e que só a dimensão garante influência. Os mais líricos dizem que não há partidos à sua imagem, como se houvesse um partido para cada um de nós ou alguém impedisse a formação de novos partidos. Estas tiradas demagógicas apenas abrem o caminho ao corolário de não valer a pena participar, que cada voto não conta, que o homem simples não risca nada. É isso que anuncia o telegrama judeu: a história mal contada conduz a medos imprecisos e, mais tarde, ao receio cínico de fazer alguma coisa contra os pormenores que não tardam.

só uma perguntinha – quem são os mercados?
Não se preocupe com isso dos mercados. Não existem, são uma fantasia, isto está tudo correr bem…
Calculo que seja este o artigo mencionado: n/will-germany-give-up-on-integration.ht ml?_r=0
http://www.nytimes.com/2016/02/09/opinio
Mas o autor do post não percebeu a piada que é citada.
O autor deste post é um gajo muito burro e não percebeu a subtileza. A propósito, o que é que o autor não percebeu? Julgo ter escrito que isto não era um comentário ao artigo, com o qual não concordo minimamente.
A piada insere-se no contexto de um povo em que a preocupação é recorrente. A piada (interna: de judeu para judeus) sublinha, pelo exagero, essa característica, visando desconstruí-la: se calhar, nós, judeus, preocupamo-nos em demasia; se calhar, não nos devíamos preocupar tanto.
O autor do post utiliza a piada como um omen, um presságio. Desvirtua-a.
Fico parvo com alguns comentários que surgem no Delito. Não há aqui nenhuma crítica ao texto em causa, ao que escrevo ou ao que eventualmente tenha pensado mal. Não. Este comentário serve apenas para afirmar que sou um idiota e que não percebo um dito jocoso. Em relação ao que foi escrito, não existe nada. Limitei-me a usar a historieta como metáfora de uma situação que me parece actual: recebemos a primeira parte do telegrama, prepara-te para as más notícias, que certamente serão enviadas em telegrama posterior. Transformar isto num debate sobre as intenções originais da anedota judaica é um pouco estranho e para mim, autor do post, muito frustrante, pois demonstra que há leitores que não estão minimamente interessados em ler o que foi escrito, mas mais interessados em fazer como o destinatário do telegrama, que é usar a imaginação para ler o que não foi escrito.
Pois, é exatamente isso. Aquela indefinível sensação pré tremor de terra.
Não sei em quem tem votado mas …
por mim falo, já votei de um lado e de outro, não olhei a rótulos mas, no possível, a nomes e a ideias.
O que ganhei ?!
Bem, para ser sincero, desilusões !
O que me leva a crer que o que esta, aquela, malta quer é, o aconchego de uma conta numa ilha qualquer, sim, porque estamos numa era de globalização, tanto faz que seja aqui ou do outro lado !
por isso vai-me perdoar mas… volto a perguntar !
PARA QUÊ ?
Obrigado.
PS: o espaço temporal englobado neste comentário é de 20 ( vinte ) anos!
( pelo menos )
A maior ironia que o autor parece que não deu conta é que quando fala na queda das bolsas e do caminho dos preços do petróleo(pensava que era coisa boa) não há coisa que faça maior pela “igualdade” no mundo do que isso.
Isto para quem valoriza essa coisa marxista chamada “igualdade de resultados”.
Eu não.
Vamos a ver se há actualização das contas da oxfam… também suspeito que não.
Dito isto.
O título é bom e a história que não conhecia está bem colocada aos tempos de correm.
Mas os argumentos não colhem. E mais uma vez a imigração foi silenciada…adiante parece que para o autor questões de identidade não se colocam.
Nunca o Ocidente foi tão Socialista como agora.
O único país que talvez se possa dizer que ficou um pouco menos Socialista é a Inglaterra e mesmo assim tem de se qualificar em quê.
E os resultados estão à vista: estagnação, malaise.
Uma espécie de França dos anos 30. Sabemos como acabou.
Por vários motivos mas o primeiro é que as populações foram drogadas com promessas pelo populismo e loucura romântica dos centristas.
Mas não há estagnação política alguma o extremismo revolucionário dos Centristas continua.
Um só exemplo disso: 9395
http://www.bbc.com/news/uk-politics-1851
EU should ‘undermine national homogeneity’ says UN migration chief
By Brian Wheeler
Political reporter, BBC News
21 June 2012
Excelente post, Luís. Sou menos pessimista, mas é um facto que algo de pouco edificante paira no ar.