Do Tribunal Constitucional, postado em sossego, nada mais soubemos desde o dia 18 de Janeiro, quando entendeu interferir na campanha presidencial para anunciar um relevante acórdão sobre subvenções vitalícias atribuíveis aos titulares de postos parlamentares anteriores a 2005 que perfizessem 12 anos no hemiciclo de São Bento. Estava o tema em apreciação no Palácio Ratton desde 2014 quando logo por fatal coincidência – e uma urgência difícil de vislumbrar – o acórdão sobressaltou o País, determinando tendências de voto naquela recta final da campanha. Muito à portuguesa, do sobressalto passou-se num ápice ao esquecimento: o tema regressou à poeira das gavetas já com a página eleitoral virada. Nós, portugueses, somos assim – do taxista ao magistrado: especialistas em transformar calmaria em vendaval e logo reverter o vendaval em calmaria.
Pós-eleitorais (9)
Pedro Correia,

Foi uma mera coincidência inocente, como aquela fuga de informação dos subscritores da verificação constitucional… tudo muito inocente!
Nem mais, Carlos. Em política, como sabemos, nunca há coincidências. Na justiça, como também sabemos, elas ocorrem a toda a hora.
Mas que objectivos se pretendia alcançar com a “fuga”? Continuo a não ver claro. Pelo que não ponho de parte a hipótese mais tradicional: pura estupidez.
A bem dizer, o único que capitalizou (que o soube fazer) com o dito anúncio foi o BE. E conseguiu-o à custa de denegrir a imagem daquela troupe de magistrados. Tiro na água? Tiro no pé?…
Sede de protagonismo. Político e mediático.
Mas esperavam ser elogiados? Aplaudidos? Aclamados?
Ou foi mais naquela linha do “Não me interessa se falam bem ou mal de mim, desde que falem”?
É mais isso, Sampy. Provocado por uma espécie de síndroma de abstinência. Longos meses longe dos holofotes é uma provação quase impossível de suportar.
Quando a calmaria anuncia que permaneçam benesses os políticos entram em profunda reflexão.
Bem sei que que a importância de abortar sem pagar SETE euros absorve muito justamente os melhores espíritos.
“Benesses” dos políticos vão mudando ao sabor dos populismos momentâneos. Enquanto as dos juízes, dos magistrados do Ministério Público e dos diplomatas, por exemplo, permanecem intocáveis.
A sua entrada, caro Pedro Correia, é, com enorme probabilidade, a melhor visão do establishment do nosso país, depois de 24 de Janeiro.
Enquanto nos entreterem ou melhor, nos tornarem dormentes, quase anestesiados, com guerras intestinas entre clubes, corrilhos de novelas, milhares de apelos para ligar-mos (agora com moderação) para o 760 … …, de manhã à noite, todos os dias do ano, não nos focamos nas questões que são essenciais ao desenvolvimento de um país, como por exemplo a Cultura que continua o parente pobre (porque dá jeito a ignorância do nosso povo à classe política), pois que, 40 anos após o 25 de Abril, essa é a grande lacuna de todos os governos eleitos democraticamente depois de 1974.
Enquanto boa parte da oferta cultural estiver apenas acessível às elites e no seio dos grandes centros urbanos, aos demais Portugueses restas-lhe apenas tempo e espaço para acaloradas discussões – estéreis, tantas vezes-, sobre o futebol, à consolidação da cultura do fast-food novelístico, do onirismo de ganhar um carrito novo, topo de gama, um cartão de débito para aquela viagem de sonho ou para estar atento à vida na Quinta, pois aqueles corpos lascivos, são uma bomba-relógio de emoções, sem controlo, onde jovens com vinte e poucos anos se entregam ao ócio e revelam que a cultura, a civilidade e a urbanidade é algo que não lhes assiste!
Os senhores magistrados do eminente Palácio Ratton adoram dar prova de vida em períodos politicamente quentes, Fernando. O acórdão divulgado na última semana de campanha eleitoral foi uma excelente prova disso.
Alternadamente navegadores e navegados.
“A mão que embala o berço governa o mundo”, como dizia Lincoln. Os senhores juízes do TC gostam de embalar o berço.