Legislativas (10)


Pedro Correia,

 

 

EXÍMIA A DERROTAR AS DISTRITAIS

 

Fiel ao seu estilo, entrou muda e saiu calada do Conselho Nacional do partido: nem uma palavrinha aos jornalistas. Os seus acólitos haviam prometido nos jornais uma profunda renovação nas listas eleitorais. Lá dentro, ela agiu como se fosse dona do partido, confrontando as estruturas distritais. Varreu da lista de Vila Real um companheiro que se atreveu a concorrer contra ela no congresso. Impôs para número quatro em Lisboa uma democrata-cristã que apoia na corrida à câmara da capital um socialista contra o candidato do partido – por acaso outro que se atreveu a concorrer contra ela no congresso. Designou imperialmente para Castelo Branco o candidato derrotado às eleições regionais dos Açores que nas anteriores legislativas foi cabeça de lista (também derrotado) por Portalegre. Impôs para Faro um constitucionalista que nada tem a ver com o Algarve. Afastou de Santarém um ex-secretário-geral do partido que cometeu o pecado de apoiar no congresso um dos companheiros que ousou enfrentá-la. Destacou para Setúbal o antigo candidato derrotado à Câmara de Lisboa, responsável pelo pior resultado de sempre do partido na capital. Mandou avançar para Braga um dos eurodeputados cessantes que menos trabalharam na última legislatura do Parlamento Europeu. E escolheu para o Porto um dos cinco deputados que mais faltaram na anterior legislatura da Assembleia da República.

Contrariando o que um anterior presidente do partido sabiamente recomendou, a proposta do líder distrital e o que o mais elementar bom senso aconselharia, fez incluir na lista de Lisboa dois candidatos que são arguidos em processos-crime. Num dos casos por fraude e falsificação, noutro por abuso de poder.

Mostrou-se exímia a enfrentar os companheiros ao impor listas eleitorais que mostram um partido mais tenso, mais fechado, mais crispado, mais distante da sociedade civil. Levou a melhor nesta sua emocionante refrega contra as distritais: conseguiu ver as listas aprovadas por 59 votos a favor, apenas 37 contra e cinco abstenções.

É uma política brilhante – deve estar a pensar neste momento o seu principal adversário.

36 comentários em “Legislativas (10)”

  1. Muito bom este post. Ferreira Leite foi contra tudo aquilo que prometeu: renovação das listas, seriedade e verdade. Preferiu alinhar na política de afastamento das vozes incómodas. Assim, torna o PSD na sua coutada privada. Brilhante!

    politicamente-falando.blogspot.com

    1. A lista de Lisboa então é um primor. António Preto e MJNP lado a lado. No dia seguinte às legislativas, MJNP na campanha por Costa nas autárquicas, também em Lisboa. E ainda há quem se admire por haver tanta abstenção. Por mim, só acho surpreendente a abstenção não ser ainda mais elevada.

  2. Carlos:

    Por isso lhe aconselhei calma mas como não entendeu o alcance das minhas palavras hoje ficou mais surpreso.
    Apesar de tudo concordando e discordando de alguns nomes julgo ser possivel derrotar mais uma vez sócrates.
    Estou em alguns pontos de acordo com o Pedro noutros discordo frontalmente mas isso é a democracia e não dependermos da politica para viver ou seja somos genuinos nas nossas apreciações.

  3. Uma coisa a Drª Manuela Ferreira Leite conseguiu com as suas listas, o que é bastante positivo,acabou-se a pseudo-neutralidade! agora ja tem um bom argumento para serem apoiantes de Socrates ou anti-Manuela Ferreira Leite, que em concreto é a mesma coisa!!!

    1. Ai sim? Veja lá como você é tão esperto. Lá em casa ainda continua a ter televisão a preto e branco, não é?

      1. vai-me dizer que ser apoiante de Socrates ou anti-Manuela Ferreira Leite não é a mesma coisa!!?? se ambos tem o mesmo objectivo, derrotar MFL , logo em concreto é a mesma coisa! até sem televisão, isto é uma evidencia!!

        1. Se o diz quem sou eu para discordar? Não lhe passa pela sua cabecinha que foi Ferreira Leite quem se derrotou a si própria?

          1. ora essa! se os passistas consideram que MFL ja esta derrotada, então que se calem e não atrapalhem a derrota…

  4. Alem do espírito vingativo, espanta-me sempre ver candidatos que nada têm a ver com o distrito a que se prestam ser eleitos. E pelo menos Passos Coelho morou em Vila Real (é o actual presidente da Assembleia municipal), se bem que montalvão Machado tenha lá origens.

    1. Candidatos paraquedistas também contribuem para o aumento da abstenção. Nisto o PSD parece ter aprendido quase nada com a legislatura anterior em que tinha um grupo parlamentar que parecia ter sido escolhido numa «noite de nevoeiro» (Marques Mendes ‘dixit’).

  5. Não há solução, portanto. A reformulação profunda era, afinal, o corta-e-cola de quem sabe que pode, quer e manda. E se antes não me apetecia mesmo nada dar-lhe o meu voto (apesar do restante não ser melhor), então agora…

  6. Um post que é uma grande malha, Pedro. Não seria tão veemente nalgumas críticas, e não me pronuncio sobre alguns nomes em concreto porque não conheço (mesmo que sejam ou não paraquedistas), mas concordo no essencial que as listas são decepcionantes. Deixei acima a minha leitura do caso, com um “não obstante” na parte final. Um abraço, meu caro!

  7. Ninguém dá aquilo que não tem. Não me espantam estas coisas tão bem assinaladas pelo Pedro. A senhora não dá mais. (Digo eu…)

  8. Creio que há um erro de perspectiva da sua parte: o que está em causa nas próximas legilsativas é se este país vai ou não continuar a aturar um governo predador, que disfarça mediocridade com arrogância e disparates com fugas para a frente, um governo que está a comprometer seriamente a solvabilidade do país no futuro.
    Perante os perigos desse bando predador, o facto de este ou aquele “cromo” ser incluído nas listas do PSD é quase irrelevante – perdoa-se-lhe o mal que sabe pelo bem que faz…

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