A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES (1954)
Autores: Pierre Boileau e Pierre Ayraud
Realizador: Alfred Hitchcock (1958)
Pode uma medíocre novela policial dar origem a um dos mais extraordinários títulos da Sétima Arte, vagamente inspirado nela? Pode. Vertigo é a prova.

![vertigo[1].png vertigo[1].png](http://6.fotos.web.sapo.io/i/B63084798/19111155_ULVKk.png)

Nunca li o livro.
Vi o filme inúmeras vezes, sempre com o mesmo entusiasmo. Este é um dos meus filmes preferidos do Hitchcock.
🙂 Antonieta
Já foi considerado – justamente – o melhor filme de sempre.
Está sem dúvida nos 20 primeiros. É daqueles que nunca nos cansamos de rever.
Nunca li o livro.
Felizmente o filme já existia quando despertei para as maravilhas da sétima arte.
Não lamento a falta da leitura do “argumento original”. Um livro que produziu um dos melhores (senão o melhor) filme que já vi, só pode ser um livro de valor.
Ao filme retorno repetidas vezes, sempre que preciso de arejar da mediocridade.
O filme é uma obra-prima que valorizamos a cada visualização. Ponto culminante da cinematografia de Hitchcock e desse grande actor que foi o James Stewart. E com uma Kim Novak deslumbrante – tanto na versão loira como na versão morena.
Em São Francisco há um ‘roteiro Vertigo’, que conduz os turistas cinéfilos aos locais onde foi rodado o filme – desde a base da ponte Golden Gate, junto à fortaleza, até ao museu e ao velho convento espanhol de São João Baptista onde se desenrola a cena culminante da película, passando pela casa onde morava o detective Scottie (Stewart), na célebre Lombard Street.
Um título de filme com uma tradução infeliz, mas um dos melhores que já vi.
Não sabia que se baseava num livro,.
A dupla Boileau-Narcejac foi muito conhecida em França entre os anos 50 e 80, sobretudo na trama de novelas policiais. Um pouco à semelhança do Ellery Queen, que eram dois autores também – embora com uma assinatura comum.
Fizeram sucesso várias adaptações de livros deles ao cinema. Desde logo ‘Les Diaboliques’, que originou o filme homónimo de Clouzot, com Simone Signoret.
“Medíocre novela policial”? Injusto.
Achei medíocre. Admito que por tê-la lido quando já tinha visto o filme mais de uma vez. A comparação é inevitável. E desfavorece muito o livro.
Caro Mário Correia: desculpe o tom polémico, mas uma polémica não passa de uma troca de ideias adversas, e a sua pergunta retórica deixou-me algo perplexo. Embora não me considere detentor da ‘verdade’, e tenha as minhas dúvidas sobre a existência desta, a minha ‘vida paralela’ de cinéfilo permite-me afirmar, com razoável à vontade, que a História do Cinema é feita da conversão de livros péssimos em filmes óptimos. A velha ideia (com ‘força de lei’) de que o livro é sempre melhor que o filme caiu por si, e há muito tempo. Além de que estabelecer a comparação entre duas formas de expressão tão diversas não se afigura tarefa fácil -para dizer o mínimo. Mas claro que haverá sempre a noção do que é um bom livro e do é um bom filme.
É sabido que Hitchcock adormeceu a meio da leitura da novela de Daphne Du Maurier, na fase de recolha de matéria-prima para a confecção de outra obra maior: “Os Pássaros”. Considerou que já estava de posse de material suficiente, chegou-lhe aos ouvidos a notícia de alguns episódios de comportamentos anómalos de aves em praias da Caifórnia, e lá foi ele.
E não constitui uma das mais rocambolescas (e, se calhar triviais…) histórias do cinema que um filme tão notável como “Ter e Não Ter”, de Howard Hawks, tenha tido como ponto de partida o repto por este lançado a William Faulkner: “queres apostar em como faço o meu melhor filme a partir do teu pior livro?”…
Não li a novela que deu origem a “Vertigo”; logo, não tenho opinião. Mas sei que tudo começou quando Hitchcock assistiu à exibição de “Les Diaboliques”, de Henry-George Clouzot, filme de argumento extraordinário, dos mesmos autores. Tão impressionado o Mestre ficou que não perdeu tempo a entrar em contacto com os 2 escritores gauleses, aos quais encomendou o argumento para um dos seus próximos filmes. E foi isso que eles fizeram. Se o livro é uma fase intermédia ou se é posterior à estreia do filme (como, mais tarde, se tornaria prática comum), desconheço. Conta o enredo, o qual foi concebido para conversão em imagens. Se a adaptação de Hitchcock é fiel à ideia original ou se foi sujeita à sua leitura do potencial dramático do argumento (tudo indica que sim, que toda a acção seria o sonho de um homem, à espera da morte, pendurado em algerozes prestes a ceder, e sem ninguém por perto), também será difícil chegar a alguma conclusão (nem mesmo na célebre entrevista a Truffaut soa muito convinvente -para não falar da fabulosa partitura de Bernard Herrmann, em registo, delideradamente, oníirico).
Um abraço
Ricardo Saló
Viva, Ricardo.
Vou destacar o seu comentário, que agradeço. A polémica é sempre bem-vinda: os blogues, como sempre insisto em dizer, existem também (ou sobretudo) para isso. t/ja-li-o-livro-e-vi-o-filme-2-8030838
Bem a propósito, você cita o romance do Hemingway que Hawks passou a cinema com base nessa aposta (real ou lendária). Já a mencionei aqui, logo no início desta série:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.p
Hei-de trazer aqui também ‘Os Pássaros’. Hitchcock limitou-se a adaptar uma ideia do conto de Daphne du Maurier, alterando-o substancialmente e conferindo-lhe sobretudo uma ideia visual – nada lhe interessava tanto como isto, o que ajuda a explicar a imensa popularidade dos seus filmes, que subsistem geração após geração.
Também no caso da dupla Boileau-Ayraud a discrepância entre o texto e o filme é muito grande. Com vantagem mais que evidente para o filme.
A novela (‘D’entre les morts’) é de 1954, portanto anterior em quatro anos a ‘Vertigo’.
Achei muito curiosa esta sua frase: “A História do Cinema é feita da conversão de livros péssimos em filmes óptimos.” Curiosa porque você apreendeu muito bem o mote desta minha série, que pretende confrontar livros com filmes.
É aí mesmo que eu quero chegar. Um Coppola, por exemplo, usa ‘Heart of Darkness’, de Conrad, como ponto de partida mas não se limita a ilustrar o livro: dá-lhe configuração autónoma, recriando-o de tal forma que se desliga do ponto de partida. É algo verdadeiramente novo que nasce ali.
Embora neste duelo subliminar muitas vezes os filmes percam irremediavelmente face aos livros: é sinal que o cineasta – talvez até por temor reverencial perante a obra literária – não foi tão bom como as circunstâncias exigiam.
Um abraço,
Pedro Correia
Caro Pedro: no essencial, estou de pleno acordo com os seus pontos de vista. E, no entanto, julgo entrever uma contradição (quem não as tem, a começar por mim?), quando ‘mete’ “Heart Of Darkness/Apocalypse Now!” ‘ao barulho’. Embora estejamos no campo da subjectividade, não vejo razão para omitir que o romance de Conrad é um dos 5 melhores livros por mim lidos e que o filme de Coppola (só conheço a versão original) estaria, por certo, numa lista dos meus 25. Já não estou tão certo de que o cineasta tenha criado uma ‘entidade’, inteiramente, nova, em relação ao que Conrad deixou escrito. Claro que a realidade é outra e a matéria específica criada para o filme chega a rondar a escrita criativa mais delirante. Mas, no essencial, acho que livro e filme diferem pelo contexto e, até certo ponto, pelas condições da acção. Embora se trate de uma singularidade da minha esfera pessoal, não vejo como um acaso que a leitura (repetida) de inúmeras passagens do livro me traga o filme à memória e -embora no sentido contrário ocorra menos- vice-versa.
Por fim, e quanto à pretensa contradição, julgo que a ‘reverência’ a que alude se manifesta, sobretudo, nos ‘filmes-catástrofe’, que, de tão fiéis fazerem questão de ser face à obra adaptada, dão origem a ‘elefantes brancos’ inteiramente moldados pela ideia inflexível de ‘adaptação cinematográfica do Clássico X’ e dificilmente suportáveis até ao cair do pano. Coppola, por exemplo, será, até, daqueles a quem a ideia de ‘reverência’ pior assenta. E já nem estou a pensar em “O Coração das Trevas”, no qual respeitou (coisa bem diferente) o espírito do original. Estava mais a pensar num posterior ‘golpe comercial baixo’, o qual consistiu em apresentar uma versão trivial (embora, marcadamente, pessoal) de “Drácula” como “Bram Stocker’s Dracula”. Ora, atrever-me-ia a dizer (sem receio de errar) que o autor do extraordinário “The Conversation” (para variar um pouco…) nem sequer folheou o livro do escritor irlandês (e frequentador de fim de tarde do Cemitério de Highgate, onde recolheu a ideia-chave para o romance). Pela simples razão de que as célebres tiradas “I never drink …wine” e “Listen to the creatures of the night! What music they make!” não figuram no livro mas sim na versão cinematogáfica original (e julgo que nas subsequentes), de Tod Browning. Melhor e mais completo, em matéria de manipulação, só conheço “Dancer In The Dark” (livro + disco), de Lars von Trier/Bjork… Foi um gosto. Um abraço Ricardo Saló
“atrever-me-ia a dizer (sem receio de errar) que o autor (…) nem sequer folheou o livro”.
Bem, ele pôs a equipa de actores a ler o livro em voz alta, durante dois dias inteiros, antes de começar as filmagens.
O título do filme é algo enganador, sugerindo um nível de fidelidade ao original que não se vem a comprovar; contudo, é bem mais fiel à obra de Stoker que a grande maioria dos outros filmes draculeanos. Pode ter sido um “golpe comercial baixo”; mas parece que a razão principal terá tido que ver com o contornar de direitos comerciais detidos por outro estúdio sobre o título “Drácula”.
Mas creio que vale a pena dar atenção a esta referência ao filme de Coppola, porque é um excelente exemplo de como o diálogo literatura-cinema em alguns casos se expande e se entrecruza com o próprio diálogo no seio da cinematografia, num processo de manipulação/desenvolvimento da narrativa e do imaginário em causa.
Assim, podemos hoje ler Fred Saberhagen, que romantizou o filme de Coppola, baseado no guião de James Hart, por sua vez baseado no livro de Stoker; sendo que guionista e realizador introduziram em suas obras uma série de elementos de outros filmes, como é o caso do de Browning, que por sua vez se baseou na (também ela muito livre) adaptação teatral de Deane e Balderston, peça que se veio a tornar mais popular que o conto original.