O meu tio-avô, homem de múltiplos talentos, deu-me os livros. Disse-me que podia viajar e conhecer o mundo sem sair de casa, a única ferramenta necessária não seria um bilhete de avião, mas um livro. Desde então ando com livros atrás, creio mesmo que há momentos na minha vida em que existem mais livros dentro do meu carro do que em muitas livrarias. Podia aborrecer-me e querer navegar nas redes sociais, prefiro um livro. Posso ir à Rússia, ao espaço, à terra do nunca e não tenho de sair do sítio, não preciso de fazer as malas. Acresce que ler é das poucas situações que, socialmente, nos protege. As pessoas tendem a não incomodar quem está a ler, têm um certo pudor. Fica-lhes bem e eu agradeço. Há alturas em que se decide seguir a máxima do filho, da árvore, do livro e quando se tenta escrever todos os outros livros se alinham na nossa cabeça, como um exército, e dizem: estamos aqui, estás a escrever, mas estamos aqui. Há uma esquizofrenia pura na escrita, digo-vos. Nada de gavetas padronizadas, o rótulo “normal” desfaz-se. Seja como for, ninguém é escritor sem ser leitor, portanto deixo o exército à porta e vou para dentro.
um bilhete de avião chamado livro
Patrícia Reis,


Porque sou excessivamente grande para caber em mim, viajo; e porque sou demasiado pequeno para caber nos outros, leio.
Quando a natureza moldar a medida certa, escreverei.
Muito bem, Patrícia. Magnífico texto.