De erro em erro


Pedro Correia,

Costa e PCP[1].JPG

 Foto: Manuel Almeida (Lusa)

 

A política vive muito de factores simbólicos. António Costa conduziu o PS à pesada derrota eleitoral do dia 4 também por ter fracassado em toda a linha neste domínio.

Começou pelo pecado original: empurrou António José Seguro borda fora proclamando aos quatro ventos que era capaz de fazer melhor do que o camarada de partido, vencedor das autárquicas e das europeias. Com gestos destes, a tão gasta palavra “camarada” deixa de fazer qualquer sentido. O sentido de lealdade exemplar que aquele termo implica perdeu-se pelo caminho.

Prosseguiu com a canhestra tentativa de se colar à vitória da esquerda radical na Grécia, em Janeiro, sublinhando que o triunfo de Tsipras rasgava novos caminhos à Europa. Que esse triunfo tivesse acontecido à custa da liquidação da sua própria família política era para ele um pormenor irrelevante. Quando o Syriza mandou às malvas a retórica anti-austeritária e se dobrou à vontade da Alemanha, já Costa estava a nadar em seco. A tentativa de corrigir o tiro chegou tarde e soou a falso: os danos reputacionais eram irreversíveis.

 

Com o PS lançado rumo às legislativas, sucedeu a lamentável história dos cartazes que o forçou a exonerar o director de campanha a escassas semanas do escrutínio, transmitindo aos portugueses uma imagem de improvisação e amadorismo. Sensações que viriam a reforçar-se quando demonstrou ignorar em pormenor algumas soluções governativas propostas pelo PS, como ficou patente no debate radiofónico com Passos Coelho.

Na recta final, produziu duas declarações que encostaram o PS às franjas mais radicais da esquerda, fazendo desmobilizar potenciais eleitores do centro: primeiro quando recusou qualquer compromisso pós-eleitoral sobre a segurança social (matéria que exige um acordo urgente de regime), depois quando assegurou que não viabilizaria um orçamento do Estado apresentado pela coligação PSD/CDS – mesmo desconhecendo o seu conteúdo, mesmo que a abstenção socialista fosse vital para não precipitar o País numa crise política com repercussões nas finanças públicas, mesmo correndo o risco de desembocar de imediato em eleições antecipadas.

 

Enfim, uma acumulação de erros de principiante, impensáveis em quem está há 40 anos na política. Mas o erro maior ocorreu na quarta-feira, quando Costa se deslocou à sede nacional do PCP, na Rua Soeiro Pereira Gomes, onde Jerónimo de Sousa funcionou como anfitrião. Todas as fotografias que registaram o evento remetem para a simbologia comunista – com as palavras de ordem e os motivos decorativos do partido da foice e do martelo. Jerónimo soube demonstrar de forma inequívoca que aquele era o seu território.

Desde 1974 que o PCP sonha partir o PS em duas metades: isso foi tentado logo no primeiro congresso socialista, ganho à tangente por Mário Soares e Manuel Alegre. De então para cá, nunca os comunistas deixaram de tratar o partido do punho e da rosa como um apêndice da “direita”, tornando-o em alvo principal das suas invectivas. Nem precisamos de recuar quase nada no tempo: basta lembrarmos o que foi a recente campanha legislativa do PCP, com o PS transformado por Jerónimo em saco de pancada verbal.

Que depois disto Costa – enquanto líder do partido mais votado à esquerda – tenha acedido em comparecer cordatamente no quartel-general dos comunistas – terceira forçada mais votada – diz muito da degeneração que o PS sofreu nestes últimos anos. Nunca, em circunstâncias análogas, Soares aceitaria rumar ao encontro de Álvaro Cunhal 72 horas após a contagem dos votos: o diálogo, a existir, implicaria sempre uma deslocação em sentido contrário.

 

Porque a política, além da sua dimensão factual, alimenta-se igualmente da dimensão simbólica – ao ponto de facto e símbolo serem realidades indivisíveis. Um político de primeiro plano jamais ignora esta evidência. A menos que ambicione apenas um poucochinho de espaço num rodapé da história.

0 comentários em “De erro em erro”

  1. Infelizmente parece-me que Costa não está interessado no País ou no PS, está interessado na sua sobrevivência política pessoal, tentando sair da embrulhada em que se meteu alcançando o poder e deste modo tornar submissos todos os que o criticam internamente, o problema é que pode mesmo tornar o PS naquilo que parecia não vir a acontecer: um PASOK português ou uma dimensão do antigo partido da democracia cristã italiano, extinto. Neste caso seria repartido pelo PSD, hipótese de se tornar menos liberal, e pelo BE a facção esquerda do atual partido.

  2. Apenas sobre o último parágrafo: nunca vi políticos tão achincalhados como o foram Cavaco ou Durão Barroso pelo «Independente» de Paulo Portas. E no entanto.

    1. Sobre Cavaco, não faltará oportunidade para falar dele não só durante a campanha presidencial mas sobretudo no momento em que se fizer o balanço destes 10 anos em Belém. Assim se fará por aqui, seguramente. Adianto, desde já, que o meu balanço é negativo – o que não é novidade pois nunca o apoiei.

  3. Estes comentários são mais do mesmo, todos são maus, a coligação é que é boa. Quando analisar seriamente, sem rodeios, sem partidarismos e sem acusar os outros de papões, terá de concluir que um governo tem de governar para o bem do seu povo e não para os grandes grupos económicos delapidando o país, deixando Portugal sem nada de seu, pobre e com uma dívida cada fez maior, iludindo os seus cidadãos, pouco politizados que a economia está a dar pulos e que o pior já passou. Como é que o pior passou se a dívida aumentou e é ao bolso dos portugueses que vão tirar, para pagar juros? Não é assim que se faz política, falar mal dos outros e fazer política, destruindo o país dizendo que se têm de cumprir as regras, nem que essas mesmas regras digam mate-se que passem fome. Quando temos um governo que cede a presidentes do Eurogrupo que diz que a austeridade tem de continuar, sem olhar a meios e tem o seu país natal como um dos maiores devedores da UE e que passa como sendo um exemplo, está tudo dito. Temos uma UE entregue a governantes, a gente sem escrúpulos e autênticos medíocres a trabalhar para os grandes grupos económicos e nada mais.

    1. Tenho de aprender consigo, anónimo. O seu comentário não tem partidarismo algum. Lamentavelmente, os “cidadãos pouco politizados” insistem em votar de maneira diferente da sua.
      Solidarizo-me consigo.

      1. O meu comentário assenta naqueles que governam ou querem governar, para o seu país. Se fossem bem politizados ou um poucochinho, já se tinham apercebido que não têm sido governados, têm sido desgovernados, por políticos que se vergam aos poderosos como se o mundo fosse dinheiro e as pessoas fossem marionetas que se manejam a seu belo prazer. Isto é tudo menos política.

          1. Terá que se deixar dessas histórias dos anónimos.
            Não chegam a lado algum.
            Ou impede a entrada dos anónimos nos comentários do blogue, ou se os aceita responda, ou não responda.
            Não é por colocar um «&ETC, que não deixo de ser um anónimo!

          2. Pelo contrário, agora já percebi que você é uma celebridade e não queria assinar talvez devido à timidez. Não há dia nenhum em que eu não ouça alguém falar em si, E Etc.

  4. De burro a mal intencionado ou o 2 em 1. Sr. Doutor Costa, na encenação que levou a palco não passa do eixo da treta. Quem teve mais votos é que tem que esperar que o seu partido apresente propostas que permitam aproximação. Ou o senhor como parte mais votada permite que os seus parceiros da esquerda arrebanhada lhe exijam que seja vexa . a chegar-se às pretensões dos seus oferecidos lacaios? Organize-se ou vai ter que continuar a entreter-se a dar banho ao cachorro.

  5. As pessoas já se esqueceram, mas eu não: a promessa mais forte de Costa para Lisboa na sua campanha (depois de chegar à câmara como nº2 de um nº1 em quem as pessoas votaram e que abandonou o cargo — coisa que Costa também fez — e até quando os lisboetas vão deixar esta história repetir-se não sabemos mas era bom que abrissem a merda dos olhos) era limpar e restaurar a cidade. No dia a seguir às eleições lá estaria ele a limpar os grafittis todos e a recuperar os prédios antigos e a trazer novos moradores para Lx, prometeu. No dia a seguir às eleições estava ele armado em gestor imobiliário e a capitalizar nos dinheiros do aeroporto e a lixar o trânsito no Marquês (que até nem foi ideia dele, foi a EU que o obrigou a mexer-se). Logo aí ficou bem patente que Lx era um poleiro para outros vôos apenas à espera de uma oportunidade — e não percebe um caraças de urbanismo. Outra tropelia foi entregar um edifício histórico (que pertence a Portugal e não apenas à cidade) a uma fundação privada com laivos de uso capião para a eternidade. Nada tenho contra a fundação nem os seus objectivos, mas entregar a Casa dos Bicos à Fundação Saramago é errado. É a expressão de como o PS e Costa e a sua entourage olha para o País: como uma coutada da sua ideologia, da sua Constituição, eles que são os donos da República. Por mim podem ficar com ela: há coisas bem melhores.

    1. Quero esclarecer: até poderia acontecer que a referida fundação ocupasse o referido imóvel/património depois de um processo normal — mas não é com um “toma lá” que se faz, num ridículo processo de intenções.

      Um processo normal descobriria certamente uma utilidade adequada à importância do edifício — mas acontece que continuadamente os edis da cidade sempre tiveram más ideias para a Casa dos Bicos, ou ideia nenhuma. Aliás, é mais isto: enquanto não copiarem nada de qualquer coisa que viram lá fora não tem ideia nenhuma para aquilo. Mas há quem tenha. Só têm que desamparar a loja.

  6. “Nunca, em circunstâncias análogas, Soares aceitaria rumar ao encontro de Álvaro Cunhal”

    Gosto especialmente de “circunstâncias análogas”, muito bom, dizer isto em 2015 é de alguém com visão política. O Pedro Correia bem tenta copiar o Observador, mas tem de ser um pouquinho mais extrema-direita. Mais um esforço e vai lá.

  7. Tẽm todo o direito, mas acho que esta fauna politica , que congemina aqui pelos locais da praxe, anda a fazer narrativas a mais. Ver teoricos(liricos?) como os pseudo dirigentes do Livre, Agir, muitos do Ps e BE a ensaiarem narrativas e cenários, soa um pouco a provincianismo. Presumo que os eleitores os aturam, porque não têm outro modo que não seja pela abstenção de lhes dizerem para irem pastar para outro lado.

  8. “Que depois disto Costa – enquanto líder do partido mais votado à esquerda – tenha acedido em comparecer cordatamente no quartel-general dos comunistas – terceira forçada mais votada – diz muito da degeneração que o PS sofreu nestes últimos anos.”

    O PS desistiu de lutar politicamente desde há anos. Limita-se a seguir a Extrema Esquerda começando pelo Pai Mário Soares.

    Por isso vai naturalmente desaparecer a continuar assim.

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