
Ontem houve sondagens para todos os gostos. Pedro Magalhães fez aqui o favor de tirar a média do que tudo isto pode significar. O exercício é útil, mas não me parece totalmente decisivo, uma vez que houve uma claríssima inflexão nos últimos dias, em que António Costa passou num ápice de vencedor claro a derrotado colossal. Mas, mesmo partindo desse exercício, as perspectivas são sempre más para o PS e péssimas para o país.
A primeira análise a fazer é que o PS continua em queda, sem que no entanto a coligação suba. Isso só pode significar que está a haver uma sangria dos votos do PS para o Bloco de Esquerda, enquanto que a CDU se mantém estável. Devo dizer que é um resultado que não me espanta, depois da vitória clara de Catarina Martins no debate com António Costa. Se isso ocorrer, a estratégia do PS sai derrotada em toda a linha, uma vez que António Costa decidiu colocar o partido totalmente à esquerda, alinhando até num apoio frentista a Sampaio da Nóvoa, e alienando com isso o eleitorado do centro, para afinal não conseguir conquistar qualquer voto útil à esquerda. Parece-me, aliás, que António Costa já desistiu do eleitorado do centro, razão pela qual agora se concentra num discurso cada vez mais radical, a ver se consegue estancar essa fuga dos eleitores de esquerda. A inenarrável proposta de não viabilização do orçamento de Estado, impensável em qualquer candidato a primeiro-ministro com um mínimo de credibilidade, é bem o sintoma desse desespero.
A outra conclusão que todas as sondagens dão é que, mesmo que o PS tenha maior número de votos, a coligação vai ter mais deputados. Esse é um fenómeno resultante da distribuição do eleitorado pelos círculos, que provoca essas distorções. Muitas vezes a UDP elegeu um deputado, tendo menos votos do que o MRPP, ao contrário deste, porque ele dispersava os seus votos pelo país, enquanto que a UDP os concentrava em Lisboa. Cavaco diz que nesse caso convidará para formar governo quem tenha mais deputados, o que parece constitucionalmente correcto. Só que, se Costa não viabiliza o orçamento, também não viabiliza um governo minoritário da coligação, pelo que este não passará no parlamento, uma vez que tem garantido, não apenas o chumbo do PS, mas também da CDU e do BE. E também estaria excluído um governo de coligação PAF + PS, até porque neste caso seria Passos Coelho o primeiro-ministro, o que Costa nunca aceitaria.
Neste caso, excluindo do governo a coligação PAF, a sondagem do Expresso diz que só haveria maioria com um governo PS + CDU, o que nenhum dos dois partidos quer. Já um governo minoritário do PS, tendo a coligação mais deputados, só poderia passar no parlamento se fosse viabilizado pela própria CDU, o que o tornaria dependente do apoio de Jerónimo de Sousa para toda e qualquer medida, incluindo qualquer exigência de disciplina orçamental por parte da União Europeia. Jerónimo de Sousa bem pode dizer que nesse caso não teria o futuro do governo PS nas mãos, que eu digo que o teria totalmente no bolso.
Se o que as sondagens dizem estiver correcto, o país acordará no dia 5 de Outubro num cenário de verdadeira catástrofe. O parlamento não terá quaisquer perspectivas de gerar um governo estável, nem sequer de aprovar um orçamento, com a agravante de não poder ser dissolvido durante seis meses. O governo estará em funções de gestão, sendo substituído provavelmente por sucessivos governos à direita e à esquerda, que cairão no parlamento à primeira oportunidade. O presidente aguardará pelo fim do seu mandato sem nada poder fazer. Com um país ingovernável nestes termos, não me espantaria que um novo resgate surgisse ao virar da esquina.

Há dois detalhes importantes que poderão facilitar o cenário:
1. Quando saírem os resultados, a coligação PaF é automaticamente desfeita (está na Lei), o que poderá viabilizar um governo PS+CDS, caso o PS tenha mais mandatos que o PSD. Possivelmente minoritário também, mas não é líquido, tendo em atenção a distribuição leonina que o CDS conseguiu arrancar na PaF;
2. Se o PS ainda assim tiver menos mandatos que o PSD, aquele terá um novo secretário geral o mais tardar em Novembro, o que poderá viabilizar um governo de bloco central.
Desta feita não o acompanho. Para mim, o povo português é sábio.
Nenhuma sondagem até hoje publicada, quer seja favorável ou desfavorável a todos, reflecte o que virá aí. E nenhuma delas será orientação de voto dos eleitores. Nunca o foi e muito menos será agora.
Matematicamente o PS vencerá e ficará com mais deputados que a coligação.
Parece-me que foi o Luís que saudou a derrota das sondagens em Inglaterra. Não será uma demonstração de desespero agarrar-se a estas em Portugal?
O que Costa diz faria todo o sentido se isso acontecesse. Só que Costa não deve dizer isso. Ele anda a ser mal aconselhado nesta matéria. Um candidato vitorioso, como Costa é, não pode afirmar algo que contraria a realidade, isto é, que ele é vitorioso.
Quanto ao resgate, a dívida que Passos/Portas aumentaram em 30 MIL MILHÕES já reflecte um resgate encapotado. O rolling debt com os consequentes aumentos da dívida, do serviço da dívida e do aumento em VALOR dos juros a pagar é um resgate.
Só que este resgate é feito em secretarias e já não com os rapazes de cinza na TV.
Por último, o PCP sabe que não serve seus interesses ter o PS no bolso, porque não está interessado que as suas bases empobreçam através de políticas que eles sabem que não podem ser aplicadas no contexto. Isto retirar-lhes-ia eleitorado.
Esta questão é uma habilidade do Luís tentando trazer papões do passado que são só ficção. As pessoas de hoje não são as de antigamente que viviam enclausurada na propaganda este-oeste. O mundo evoluiu e já ninguém o vê à moda do senador McCarthy, com excepção para alguns filhos da velha guarda.
Nada de verdadeiramente novo, na verdade. Um povo que nem se governa, nem se deixa governar. Sendo certo que, num plano puramente individual e egoístico,
ou de agremiação unida por mútuos favores, até sabe muito bem “governar-se”.
Trágica perspectiva. Mas, a confirmar-se, nada de novo: o salve-se quem puder dos orgulhosos mestres do desenrascanço.
Te(re)mos o que merecemos.
Costa
Não percebo essa do povo não se deixar Governar. Os 40 anos de ditadura e os 40 anos de democracia demonstram que se deixa governar sem problemas, aliás a maioria até anseia por mais governação…
Pois… Em suma, não se sabe governar. Deixa-se bovinamente governar, seja por um regime autoritário que com alguma (e nem muita) violência de estado o “mantém na ordem” que entenda aplicável, seja por um regime cujas características permitem aos candidatos ao poder berrar impune, irresponsavelmente, o que um povo como o nosso gosta de ouvir: soluções miraculosas e imediatas para problemas que só o tempo de gerações resolverá (talvez) e o estado a tratar magnificamente de tudo e mais alguma coisa nas nossas vidas.
Que depois nem uma nem outra coisas se verifiquem, é apenas “a nossa sina”. Coisa com que até nem convivemos mal.
Mas, não se sabendo governar, o povo português – tendo a oportunidade – governa-se muito bem. Que fizeram os políticos, bancários, gestores de topo que hoje tenham as suas questões com a justiça que um portuguezito médio, podendo, não faria? Comprar umas casitas, uns terrenos, recorrendo a alguma criatividade fiscal; esquecer este ou aquele rendimento, numa declaração fiscal; proporcionar ou aceitar um ou outro favor ou liberalidade; aproveitar a possibilidade de “sacar” um diplomazinho sem grande trabalho…
Que diabo, o português habitual, podendo, faria e fará paulatinamente isso, na sua anónima vidinha, mesmo que trate a generalidade dos políticos, gestores e afins como aldrabões. É tudo uma questão de escala. É aliás muito aceitável entre nós, mesmo louvada, a ideia do político que “roubou, mas fez obra!”
Não nos sabemos governar, mas – podendo – governamo-nos muito bem.
Costa