Ao caso Sócrates pode responder-se com a teoria que o próprio tem avançado: perseguição política. (Na situação dele, é compreensível; que tantos outros socialistas «ilustres» usem o argumento mostra bem como estão habituados a que o sistema de Justiça seja controlável.) O caso GES pode tentar justificar-se com desejo de vingança, tão alinhado com o governo socialista Ricardo Salgado se revelou. Fica mais difícil atribuir o caso dos Vistos Gold e a constituição como arguido do ex-ministro Miguel Macedo a manobras governamentais. Na verdade, por muitos defeitos que possam apontar-se a este governo, tudo indica que, no que respeita à corrupção, o sistema de Justiça funciona hoje bastante melhor do que nos tempos dos governos PS. O mérito do actual governo pode até não passar da nomeação de uma Procuradora Geral da República à altura das responsabilidades do cargo (outras medidas, como a reorganização do mapa judiciário, são aqui pouco relevantes) mas hoje investiga-se e preparam-se acusações sem que os magistrados envolvidos sejam penalizados ou forçados a destruir meios de prova. Os socialistas, claro, não gostam disto nem que se fale disto. Por isso fazem estardalhaço quando um programa televisivo pretende debater o sistema de Justiça e a actuação do Ministério Público. Por isso se mostram escandalizados – uma especialidade da esquerda – quando Paulo Rangel diz o que, no fundo, toda a gente pensa.
E grande parte da comunicação social dá-lhes cobertura. Uma agremiação curiosa, a comunicação social e os seus comentadores mais ou menos profissionais. Tanto quanto se percebe, não houve por parte do actual governo qualquer tentativa séria para a controlar. Miguel Relvas, ainda ministro, telefonou para o Público ameaçando com represálias no caso da publicação de uma notícia e o marido da ministra das Finanças ameaçou por sms «ir aos cornos» a um seu ex-colega do Diário Económico, numa reacção tão destrambelhada que se tornou anedota (e que lhe valeu até agora um termo de identidade e residência), mas não foram instaurados processos por delito de opinião nem parecem ter sido montados esquemas para, em conluio com grupos económicos privados, comprar canais de televisão ou jornais, de modo a controlar-lhes a linha editorial. Na RTP (um problema mais adiado do que resolvido, que os cidadãos pagam todos os meses), o governo instituiu um modelo de gestão independente, similar ao da BBC, que resultou na nomeação para o conselho de administração de gente tão alinhada com Passos e Portas como Nuno Artur Silva. E, no entanto, a maioria da comunicação social (começando pelos órgãos de dois grupos pretensamente capitalistas – Sonae e Impresa) e dos comentadores apoia claramente o PS, ainda que António Costa, embalado pelo facto de uma postura agressiva lhe ter valido – de acordo com esses mesmos comentadores – a vitória no debate com Passos, mostre no vídeo acima como existe em cada socialista um «animal feroz» prestes a saltar sempre que alguém faz as perguntas certas. (OK, talvez não em Guterres.) Pelo que das duas, uma: ou imensos jornalistas e comentadores sofrem de síndrome de Estocolmo e têm saudades dos anos em que eram maltratados (o que, configurando uma condição médica, tem que se desculpar – mas, por favor, procurem tratamento) ou estão de tal modo comprometidos ideologicamente (e talvez socialmente, que Passos sempre foi um outsider nesta coisa tão importante dos círculos bem-pensantes – e quiçá apenas por isso o GES não tenha sido salvo) que merecem não apenas a pressão que um eventual governo socialista venha a aplicar sobre eles no futuro como o crescente desinteresse que a generalidade do público, fora da histeria das redes sociais ou das acções de campanha, parece revelar pelas «informações» e opiniões que transmitem.

Serei breve e começo pelo fim, JAA.
“Passos sempre foi um outsider nesta coisa tão importante dos círculos bem-pensantes – e quiçá apenas por isso o GES não tenha sido salvo)”. Quer o JAA dizer que Passos por ter pensado mal não salvou o GES. Mas o que ele diz é que a questão BES/GES é algo que não lhe compete, que transcende a capacidade do governo. Em que ficamos?
Sobre a justiça que tanto tem melhorado está o JAA mais bem informado que qualquer um e até mesmo que Passos, que vai ao ponto de pretender uma subscrição pública para que as pessoas possam dirimir suas questões em tribunal. É Passos, com esta atitude, que afirma que a justiça está num caos e que quem precisa dela nem a pode cheirar.
Se entender por justiça o circo mediático em que vivemos então o circo é justiça.
Se entendo bem, quer dizer que o Passos ao não fazer parte dos circulo social dos “gestores-politicos-jornalistas”, dos cocktails, das festas onde se decide o que se deve pensar foi menos vulnerável a pressões ou mesmo à tentativa da amizade.
A PT estourou milhões no GES entre outras razões por amizade.
Exacto. Talvez fosse mais claro se eu tivesse acrescentado “à custa do Estado” mas não pensei que gerasse dúvidas.
Não, o circo mediático não é Justiça. Ainda assim, nos 6 anos de Sócrates e do PS vi circo mediático, manobras para dominar os jornalistas (o que, convenhamos, poria fim ao circo mediático) e silenciamento das investigações. Agora vejo apenas circo mediático.
O Freeport foi silenciado? Parece-me que Rangel se colocou ao lado o primeiro de então. olitica/detalhe/passos_coelho_assegura_q ue_o_governo_nao_vai_intervir_na_portuga l_telecom.html
Você corrobora que a PT estourou milhões no GES, mas impressiona-me que não refira isto:
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/p
Por esta notícia Passos afirma as virtudes de um estado não participar nas empresas estratégicas, e parece-me que o JAA quer agora descartar estas virtudes para imputar responsabilidades somente a outros.
Quer mais: olitica/detalhe/passos_coelho_assegura_q ue_o_governo_nao_vai_intervir_na_portuga l_telecom.html
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/p
Agora sobre o circo, Sócrates foi penalizado e há quem queira usar isto para se auto-despenalizar.
Por fim, então estamos de acordo que tudo isto é um circo. Deixemos então a justiça trabalhar e esperar que outro governo possa colocar a justiça a trabalhar em prol dos que não podem chegar a ela.
http://www.publico.pt/sociedade/not icia/procuradores-que-dirigiram-investig acao-do-freeport-abandonam-dciap-1459887
Se dúvidas subsistiam, qual o motivo de não terem reaberto o processo?
Veja mais aqui: ior/assistentes_preparam_pedido_de_reabe rtura_do_processo_freeport_1631313.html
http://www.tsf.pt/portugal/justica/inter
Magalhães e Silva afirma que as perguntas eram inúteis por prescrição do processo em 2007.
Para quem vê conspirações de ordem mundial, você é mesmo muito brando para com Sócrates e o PS. Mas suponho que culpar o mundo é uma boa maneira de não assumir erros (poderia usar-se outro termo mas fiquemos por “erros”) feitos por cá. E de, por conseguinte, poder continuar a defendê-los.
Parece-me que ficou sem argumentos e quer chamar-me ao circo. Meu caro, Sócrates já foi julgado por mim. E se há outras matérias em que o deva ser eu quero que seja por uma justiça que não vejo e não por um circo que vejo. Resta agora julgar Passos e Portas.
São estes que estão a julgamento pela sua péssima governação.
“Meu caro, Sócrates já foi julgado por mim. (…) Resta agora julgar Passos e Portas. São estes que estão a julgamento pela sua péssima governação.”
Isto não é apenas absurdo como muito perigoso. Ainda escreverei sobre o assunto antes das eleições.
Foi sim, foi julgado por mim e por outros nas urnas. É aí que se julga em matéria política.
Se entende que votar é perigoso, não sei o que lhe dizer. E sim, foi uma péssima governação por parte da coligação, e não deixo de revelar o que entendo por ser péssimo sem nunca chamar à colação os processos que envolvem personalidades ligadas ao PSD ou ao CDS ou a quem quer que seja.
E foi tão má que os únicos argumentos que julgavam ser sólidos era trazer Sócrates à baila e a troika que eles mesmo desejavam.
O que pretendo demonstrar é que estes argumentos, que têm sempre o reverso, são falaciosos e que o importante é mostrar projectos e propostas, e estes não vi um único.
Se derem uma volta pelos blogs, ficam com a ideia contrária: que os média são controlados e manipulados pelos Pafs.
Sobre o debate, que os “democratas”, não gostando do tema, iniciaram o apedrejamento punitivo, estilo matamos os mensageiro já, houve duas intervenções que deveriam ser bem ponderadas: a que referiu as razões do real aumento dos resultados =mudança do procurador, direção DCIAP e CSMagistratura; e a intervenção do elemento do público que contrariou a ideia que é preciso maior controle partidãrio dos sistema de justiça- de notar que estudou os sistemas da UE, que penso fazia bem a todos terem conhecimento e opinião. Importante ter opinião e vasculhar bem no passado recente, como é que o procurador, o Supremo e a direcção do Dciap, anulavam as investigações se incomodas da Judiciária. Não era preciso grandes paragonas na comunicação, grandes teorias e cabalas; o trabalho sereno e paulatino fazia-se no recato que deve ter o trabalho bem feito.
Nah, o que se passa é que você frequenta os melhores blogues – e esses têm maioria de gente com bom senso. 🙂
(Não vi o debate. Não me importaria de ter ouvido Nuno Garoupa mas a tendência de Fátima Campos Ferreira para as frases longas e cheias de clichés – para além do facto de tender a interromper os convidados precisamente quando eles estão a dizer algo de substancial – provoca-me urticária.)
Está aqui tudo:
http://portadaloja.blogspot.pt/2015/09/p ros-e-contras-justica.html
e a conclusão:
http://portadaloja.blogspot.pt/2015/09/q uem-tem-medo-sao-mesmo-os-magistrados.ht ml