Um dos problemas de estar de fora é que quando se chega atrasado a uma discussão da actualidade já se perdeu o elemento de surpresa ou de choque. No mundo moderno isso é tanto mais certo por as discussões decorrerem a um nível quase instantâneo, com as notícias e fotos e vídeos a serem reproduzidos no Twitter, Facebook, blogues e outros no espaço de segundos. Os retweets e as partilhas das notícias pelas nossas redes de contacto garante que ainda antes de vermos a notícia no jornal da noite, já ela nos entrou pelos ecrãs adentro. O ciclo noticioso de um evento, que há 30 anos seria de duas semanas, há 20 de uma semana e a meio da década passada se mediria em três ou quatro dias, é hoje de 24 horas no máximo. Depois disso o efeito dilui-se.
Uma excepção aconteceu quando surgiu a foto do menino afogado a fugir para a Europa. Na verdade nem era uma única foto, eram várias, não havia uma mais emblemática que a outra, embora todos nós tivéssemos uma que nos moveu mais oue as outras. É uma foto que muda a opinião pública de um evento corrente por ser forte num nível especial. Durante a fome de 1993 no sul do Sudão, centenas de imagens de crianças esfomeadas invadiram os nossos jornais e televisões (como em 84-85 no caso da Etiópia). Houve no entanto uma que ficou para sempre na memória. O mesmo com esta crise de refugiados. Não importa que não fosse a primeira criança a morrer e que não seja sequer a última. A imagem do seu corpo sem vida ficará.
Porquê? Por vários motivos, mas são simples de elencar. Antes de mais pela paz da imagem. Poderia estar a dormir, mas sabemos que não é assim. Agita os medos de qualquer mãe ou pai que terá ido ver se o filho ainda respirava num momento de sono mais profundo. Poderia estar a dormir. Mas não está. Por outro lado, está bem vestido. A roupa não está em farrapos. É garrida, como imaginamos numa criança cuidada e amada. Não está sujo, talvez o resultado da acção do mar, mas é mais fácil ignorar quando há sujidade, quando parece pouco cuidado. Há ainda o elemento “racista” na história: não é preto, poderia ser natural de muitos países europeus (não me imagino racista, mas acredito que uma criança negra me impressionaria menos).
Todos estes elementos contribuíram para este impacto. O de uma criança que até ao último momento não saberia o que se passava. No fundo, o impacto da imagem de uma criança que poderia ser a nossa, que vemos como a nossa. Neste ponto, o pormenor mais importante é o de não lhe vermos a cara. É fácil colocarmos aquela que mais nos impressionaria a nós.
Uma imagem que muda o curso da história, espero. Infelizmente foi necessária. E aquilo que acaba a impressionar-me mais é: quantas crianças morreriam se esta imagem não tivesse surgido?

“Uma imagem que muda o curso da história, espero. Infelizmente foi necessária. E aquilo que acaba a impressionar-me mais é: quantas crianças morreriam se esta imagem não tivesse surgido? “
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se a imagem da islamização da Europa não muda o curso da história, pelo menos em Portugal…então…
Islamização da Europa? Já vem uns 500 (Cerco de Viena) a 1300 (entrada dos muçulmanos na Península Ibérica) anos atrasado.
Portugal “entrar” na Europa e a Europa Islamizar-se…isso é unico!!!
Então uma reacção que incentiva mais famílias com crianças a fugir de barco reduz as probabilidades de morrerem. Extraordinário…
E já agora… 1/us-europe-migrants-turkey-iraq-idUSKCN 0RB2BE20150911
http://www.reuters.com/article/2015/09/1
E porque é que nunca existiu uma imagem de uma criança Cubana a fugir com os pais do regime Comunista? Centenas, milhares morreram afogadas.
Porque a decisão de publicar uma foto de uma criança morta é uma decisão política. Tal como quando se censurou os mortos do 11 de Setembro.
Ontem: spx?content_id=4776212
“34 migrantes, incluindo 4 bebés e 11 crianças, morrem afogados”
http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.a
É particularmente perverso que as consciências humanas se agitem apenas quando visualizam imagens de horror. Não admiro em nada os milhões de pessoas que finalmente acordaram para um problema grave e que se arrasta há algum tempo, apenas porque viram uma fotografia de um menino e se puseram a tirar ilações sobre isso.
Como João André bem disse, as discussões ocorrem a um nível quase instantâneo. As notícias que passam na hora do jantar nas nossas televisões já foram partilhadas e comentadas até à exaustação por milhões de pessoas neste planeta. Além de as discussões ocorrerem a um nível quase instantâneo ocorrem também a um nível hipócrita, sensacionalista e impessoal nunca antes visto. Não acredito numa única palavra das emoções geradas pelas redes sociais e por quem comenta fotografias e notícias deste género esticado no confortável sofá da sua casa ou enquanto está no café a tomar um copo com os amigos.
As consciências não mudaram só porque a opinião pública ocidental foi bombardeada de imagens com crianças esfomeadas e cheias de moscas à volta delas em África. Não foi a baba e o ranho dos ocidentais, com uma vida confortável e desconhecedores do que é passar fome ou dificuldades, que fizeram com que realidades daquelas nunca mais voltassem a repetir-se.
Pode mudar a realidade de uma pessoa ou duas, como é o caso daquele pai com o filho ao colo, filmado quando uma repórter húngara o agredia, que graças ao registo do momento, e à partilha exaustiva, tornou-se um símbolo da superação das adversidades e da solidariedade europeia, que em Madrid lhe arranjou trabalho e casa. Mas muitos milhares continuam ainda em campos de concentração sem vislumbrar um raio de luz no seu futuro. Estes têm opiniões diferentes da solidariedade europeia.
A parte em que João André descreve as sensações que a fotografia do menino morto produziram nele são também bastante infelizes. Além de ceder a um sentimentalismo fácil (o menino fez lembrar os filhos de muita gente), João André certamente serviu-se do ampliador de fotografias do Windows para verificar que a roupa da criança estava limpa e intacta, devido à acção do mar, diz ele, esse mar que ao mesmo tempo mata e limpa. Mas o pior vem a seguir. Para João André esta onda de comoção que se gerou em torno desta fotografia seria menor se o rapazinho estive sujo e com ar de quem era mal cuidado. Para João André ser um morto com estilo, indigna e comove mais as pessoas do que um morto andrajoso. E o que dizer do elemento racista como um dos motivos para o sucesso da fotografia? João André que no fundo se considera um humanista admite claramente que ser um menino branco e não preto teve mais influência no processo da sua compaixão. Racista? Não…De certeza que foi um mal-entendido meu. João André não foi certamente das pessoas que se comoveram com as imagens de crianças (pretas) cheias de fome que invadiam as nossas televisões durante a fome de 1993 no sul do Sudão.
A imagem não mudou o curso da história. O fluxo de refugiados continua e aumenta a cada dia que passa. E não, João André, não era um acontecimento necessário. No dia em que precisarmos de ver exibidas mortes, sangue e sofrimento para agirmos, para que as nossas consciências despertem, então estamos ancorados num nível de desumanização e de estupidificação sem precedentes.
Veja as notícias João André. Depois dessa criança morreram mais. Mas, é verdade, você está fora e chega claramente atrasado às discussões sobre a actualidade mundial.
Um comentário que começa tão bem e acaba tão mal…
Certamente que teve dificuldade em me ler. A reflexão sobre a cor da pele da criança tem um óbvio elemento de autocrítica. Está lá escarrapachado. Talvez não tenha gostado das aspas, mas isso é problema seu. Coloquei-as porque nem todos se reverão neste aspecto.
Não retire conclusões sobre mim por um post. Eu fiz uma reflexão sobre o poder da imagem, não sobre a situação. Se não percebeu a crítica implícita por só com a imagem as pessoas ligarem ao assunto então vá reler o post. Se continuar a não perceber, meta explicador. Se ainda assim não perceber, o problema não é meu, leia outros se preferir.
Nunca escrevi nada sobre acontecimentos necessários, escrevi sobre uma imagem necessária. Leia o texto. É claro. Nenhuma morte é necessária. Também lamento as mortes anteriores e posteriores. Mais uma vez, leia! Nem sei porque me dou ao trabalho de lhe explicar isto, está lá tudo.
Se se amofina assim tanto com as mortes siga para o apoio aos refugiados. Deia-lhes o que tem. Venda o computador onde escreveu o comentário (se for seu). Dê as suas roupas e a sua comida. Abdique do seu trabalho e vá ser voluntário. Talvez até já tenha feito estas coisas todas. Talvez só algumas, completa ou parcialmente. Talvez escreva as suas linhas confortavelmente sentado numa poltrona num casarão enquanto bebe um whisky de malte de 25 anos (não acredito, no entanto). Provavelmente estará algures no meio do espectro limitado entre Donald Trump e Francisco de Assis. Como eu.
Eu não o vou julgar. Não vou aqui escrever o que faço ou deixo de fazer pelos refugiados. Não diz respeito a ninguém senão a mim e a quem eu eventualmente decida ajudar. O meu post acima é uma reflexão única e simplesmente sobre um marco mediático, nada mais. Querer tirar outras conclusões é abusivo.
Caro João André:
Não vou alimentar uma troca de comentários sobre o que eu penso ou você pensa, sobre quem compreendeu ou não o conteúdo da mensagem. Tenho a certeza que não levou a mal o meu comentário. Não tem razão para isso. Se escreve e dá opiniões já sabe, à partida, que está sujeito a críticas ou a aplausos, assim como eu. Caso contrário ficamos calados.
Cumprimentos*