Crónicas da fronteira (4): O sistema europeu


Luís Naves,

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Em Szeged, sul da Hungria

Ao gerir a primeira fronteira da zona Schengen da rota balcânica, a Hungria está a ser afectada na sua vida quotidiana, pois os procedimentos de registo levam tempo e torna-se difícil gerir uma multidão de dezenas de milhares de pessoas que desconfiam de cada obstáculo oficial: o transporte ferroviário tornou-se caótico, as fronteiras ocidentais têm engarrafamentos de quilómetros e pequenos grupos de migrantes acampam sem controlo.

Números oficiais: só este ano, já entraram na Hungria 167 mil migrantes. Amanhã, a soma dará 170 mil.

Atravessar as fronteiras de 26 países sem necessitar de visto é uma das liberdades cruciais do projecto europeu, mas o usufruto deste espaço pressupõe controlo fronteiriço garantido pelos países da primeira linha, neste caso a Hungria, a quem cabe em situações normais impedir contrabando, imigração ilegal ou a passagem de indivíduos que não disponham de visto de entrada ou representem riscos de segurança. O sistema funciona em tempos normais, mas numa crise humanitária os europeus garantem asilo às vítimas de conflitos armados e esta é exactamente a situação a que estamos a assistir. Ninguém é rejeitado na fronteira húngara, algo que muitos comentadores ainda não perceberam.

A polícia está mobilizada em toda a sua força, mas a actuação tem sido tranquila, embora firme. Num incidente a que assisti foi eficaz a forma como a polícia controlou uma situação potencialmente explosiva. Há outro mito que convém desfazer: os migrantes são alimentados e há organizações humanitárias no terreno, sendo distribuída água engarrafada. As informações de tratamento desumano são falsas.

Não parece fácil a um país da dimensão de Portugal gerir uma crise humanitária súbita que envolve 3 mil refugiados diários a entrarem de forma descontrolada pelas suas fronteiras. O governo húngaro podia não cumprir os tratados europeus e deixar passar estas pessoas, tal como aqui defendem os partidos da oposição de esquerda, que estão a aproveitar a crise, tal como faz a oposição de extrema-direita, a qual exige a rejeição pura e simples de todas as entradas. O governo conservador (criticado por toda a gente) optou pelo cumprimento das regras europeias e já legislou para reduzir o tempo de espera dos procedimentos que permitem aos refugiados circular livremente.

 

Actualização: 6500 migrantes saíram hoje da Hungria para a Áustria; um comboio com 800 pessoas está a caminho e deverá partir ainda outro; hoje, em Roszke, um dos pontos de entrada na fronteira sul, chegaram mais de 1300 pessoas, indicando um aumento da quantidade diária em um terço; muitos destes migrantes recusam-se a entrar no centro de registo e estão no exterior, onde provocaram ao fim da tarde a maior confusão, inclusivamente tentando tomar um autocarro local; a situação neste centro de registo é tensa; em vários locais, há grupos que abandonaram os campos de refugiados (há oito a funcionar, com capacidade para 1800 pessoas, em Debrecen, Bekescsaba, entre outras cidades, e estão previstos 17 centros ainda este ano); não se sabe quantas pessoas avançam a pé rumo à Alemanha. No meio disto, acontecem pequenas histórias divertidas: em Budapeste, na estação de Keleti, houve grande confusão quando partia o comboio para a cidade de Pecs (em húngaro, Viena é Becs e os migrantes confundiram os nomes e pensaram que era um comboio para a Áustria).

0 comentários em “Crónicas da fronteira (4): O sistema europeu”

  1. Caro amigo,

    O filme Casablanca, tal como o nosso Eça de Queirós, é de uma actualidade perene que me confrange.

    O dinheiro que se gasta em Bruxelas, Estrasburgo e demais protectorados da União Europeia, se reduzido em 20%, era uma ajuda ímpar, não só para está vaga de emigração, mas para que UE falasse a uma só voz e não pelos ditames de Berlim, Paris e Londres.

  2. Todos devemos dar uma ajudinha aos emigrantes afro-asiáticos.

    Um pacote de lâminas para ficarem tal qual como entraram na Europa.

    E elas sempre sem burka por causa da rinite alérgica.

  3. ainda não fizeram reportagens da entrada na Arábia Saudita e nos Emiratos

    os infiéis que paguem a factura

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