Filipe Nunes Vicente tenta colocar uma pitada de bom senso na discussão, mas o exercício parece cada vez mais inútil. A culpa é da Europa porque as nossas elites atribuem por estes dias todos os males à União Europeia que verdadeiramente existe, enquanto suspiram por outra entidade imaginária que nunca existiu. Os europeus forçaram a mudança que atingiu a sociedade e isso constitui um poderoso incentivo para malhar. É assim que compreendo a recente moda de textos anti-europeus.
O colapso da Síria e do Iraque têm alguma coisa a ver com o diálogo no Mediterrâneo e com as políticas de Bruxelas? É evidente que não, mas estamos nos territórios míticos onde não há apenas fardos do homem branco e complexos coloniais, mas a total ausência de crítica, naquilo que podemos definir como crise silenciosa da comunicação social: irresistível superficialidade e leituras ideológicas por dá-cá-aquela-palha.
Apesar de haver autores que ainda tentam esbracejar argumentos, continua a ser difícil perceber que estamos perante uma vaga de emigração em larga escala e sem precedentes, por duas rotas, Mediterrâneo e Balcãs. A manter-se o ritmo de chegadas ao espaço Schengen, estamos a falar de um milhão de pessoas em 2015, o dobro do ano passado. Elas têm de ser protegidas e alimentadas e, em breve, chega o Inverno. Entre nós, que não sentimos o cheiro, é fácil escrever poeticamente sobre muros inexistentes e fazer comparações tolas com refugiados da Segunda Guerra. No meio da poesia, os factos tornam-se obscuros, por exemplo: a maior parte destas pessoas tem direito a asilo na UE e isso não está em causa, mas na maralha chegam emigrantes económicos que serão reenviados para os países de origem. A triagem leva tempo.
Os migrantes que fogem de guerras têm direitos que lhes são negados na Síria ou no Iraque (direito a asilo ou à própria vida, por exemplo), mas não é possível deixar esta gente entrar a corta-mato por fronteiras habitadas e até agora tranquilas, permitir que se instalem nos jardins e nas estações ferroviárias, pois no espaço Schengen há livre circulação: os refugiados têm de ser identificados e conduzidos para centros que já estão a abarrotar e cuja expansão custa dinheiro. A barreira na Hungria (entre nós sempre referida como muro) serve para organizar minimamente a maré humana, já que a fronteira é pouco policiada e os locais de entrada tornam-se restritos e mais fáceis de controlar; por sinal, este mecanismo tem tudo para falhar, pois os refugiados largam os passaportes à chegada e, logo que podem, abandonam os centros de acolhimento; quando dispõem de papéis provisórios, ninguém os impede de apanhar o primeiro comboio rumo à Áustria e Alemanha*.
Por tudo isto, concordo com o Filipe: nesta crise, a falência da UE é conversa mole. Pelo contrário, este pode ser um dos melhores momentos da União Europeia. Em breve, haverá um milhão de refugiados e tem de ser aplicada uma política colectiva para o problema (as leis já existem), mas não consta que estas pessoas estejam a fugir na direcção da China ou da Rússia, estão a caminho da Europa, onde terão segurança e um mínimo de solidariedade e de justiça.
* No inverno, era já visível esta situação, mas nos últimos meses agravou-se: a estação ferroviária de Szeged, no sul da Hungria, fica a dez quilómetros da fronteira com a Sérvia. O percurso faz-se a pé. Imagine-se Coimbra com uma fronteira a dez quilómetros da universidade, numa zona de quintas e bosques pela qual se infiltram grupos de desconhecidos, sem que haja polícias suficientes para patrulhar a zona. Os comboios rápidos para Budapeste são de hora a hora e estamos num espaço de livre circulação de pessoas.

Parece que a solução que a Europa arranjou para o problema é tratar os emigrantes como os Russos e os Chineses os tratam.
O número de refugiados em países de terceiro mundo muito mais pobres que qualquer país europeu não tem comparação com o número de refugiados na Europa.
Chega a ser cómico ver um conjunto de países que no total tem 420 milhões de pessoas vir queixar-se ao Líbano ou à Jordânia de que não tem capacidade de receber refugiados.
Este comentário confunde concessões de asilo com ajuda humanitária. Nos países vizinhos da Síria há campos de refugiados das nações unidas em grande parte financiados indirectamente pelos europeus. Muitas das pessoas que passaram por estes campos estão em movimento na direcção da Europa, onde terão direito de asilo a implicar certas condições bastante generosas e onde serão sustentadas pelos estados que as recebem. É evidente que o governo do Líbano ou da Turquia não pagam a despesa dos refugiados sírios, mas na Alemanha a coisa é diferente.
Se o problema com os refugiados fosse só o pagamento então seria indiferente pagar a esses países ou deixar os emigrantes entrar, o custo era o mesmo. Ou então não é um problema económico e é só um problema de racismo. A Europa não se importa de pagar desde que não tenha de contactar com eles.
É cómico ver tanta gente que diz que a globalização é inevitável quando lhes convém, mas inaceitável noutras ocasiões. Isto também é globalização.
De qualquer modo ir atrás dos passadores para resolver o problema é uma solução idiota que não resolve nada.
1 milhão?
Entram na Macedónia cerca de três mil refugiados por dia ora, com vários países a servir de porta de entrada, incluindo a Espanha, a cada notícia que vai saindo, penso que já nem se consegue ter uma contagem atualizada.
Diário Económico – Há 5 horas:
“O Alto Comissariado para os Refugiados da ONU diz que, nos próximos meses, o afluxo de pessoas que fogem da Síria não vai parar.”
(para estas, a UE já tem legislação para as receber)
Esses “românticos de cordel” que nem conseguem avaliar minimamente as consequências desta migração imparável, só vão acordar quando a “onda” lhes chegar à porta e, como bem diz, na maralha, sem triagem, quem poderá evitar problemas de segurança ou de saúde, quando entram numa zona sem fronteiras, onde tudo pode acontecer, se não houver um mínimo de responsabilidade.
Suponho que uma grande maioria de pessoas nem sequer sabe de quantos países eles vêm, seja da África ou do Médio Oriente e vai ser algo nunca visto… Síria, Líbia, Afeganistão, Darfur, Iraque, Chade, Eritreia, Somália, Nigéria…
Curiosamente, ninguém questiona o porquê de alguns virem com uma ideia definida para que país querem ir. A resposta está no passa palavra e eles sabem bem os subsídios que vão receber, há países em que uma família de 5 pessoas pode vir a receber mais de 1000euros/mês. Se as leis que já existem não forem respeitadas e se a UE abrisse as portas para todos, teremos o caos instalado.
Há quem não entenda que não se pode passar um número sustentável para cada país mas, podemos ver as suas consequências quando esse número é ultrapassado como no Líbano que abriga 1,2 milhões de refugiados sírios dentro de uma população total de aproximadamente 4,5 milhões, e já está com as infra estruturas sociais no ponto de ruptura por causa da crise de refugiados.
Francamente… isto nem vale a pena dizer nada porque há por aí muita gente que só percebe as verdadeiras consequências, seja disto ou do que for, quando é tarde demais… e depois… queixam-se e, rapidamente, arranjam bodes expiatórios mas, no entretanto, gostam de interpretar o papel de bonzinhos.
Já agora deixo uma sugestão ao Luís Naves, ao falar deste assunto, talvez fosse bom colocar um mapa com todas as rotas dos migrantes. Num artigo do jornal The Economist, no final, aparece um mapa com essas rotas… até assusta ver todos os caminhos que vêm desaguar na Europa. 1649488-those-peril
http://www.economist.com/news/briefing/2
Uma coisa tenho absoluta certeza
Se este fluxo imigratório se dirigisse para os Estados Unidos… Os poderosos “obamas” já teriam dado ordens à Guarda Costeira para resolver o problema… Se eles discutem até à medula a imigração mexicana… Que seria, se ?!!!
Ontem, no noticiário da meia-noite da SIC, um senhor jornalista com sotaque açoriano lá voltou a chamar ao governo húngaro de “extrema-direita”. Então se o Fidesz é de extrema-direita, o Jobbik é o quê? E, para acamar, logo a seguir deu uma reportagem, que começava e acabava com aquele senhor jornalista que ganhou o Festival da Canção a contrapor o azar dos migrantes com a felicidade de uma pequenita somali que nasceu num navio da marinha alemã, porque “já nasceu europeia”. Assumo que o senhor jornalista confirmou que um dos pais da criança é residente legal na Alemanha há mais de oito anos, condição “sine qua non” para atribuição de nacionalidade alemã. Ou então viu muitos filmes americanos…
Ainda bem que volta a focar, o problema mais grave que a UE tem para atamancar; como vimos ,pela posição de lider, da Sr Merkl (acolher,alimentar e ensinar alemão desde o 1ºdia , a UE tem navegado na sua proverbial burocracia e nada de eficiência. O menos capaz dos discipulos da Maya , podiam prever há anos atras, que se não se abrisse delegações de imigração legal, nos países de origem , os traficantes iam fazer o que está a vista; e a UE ia enfrentar um problema a que não vai voltar as costas, não pode , não deve e julgo que não vai.