A esquerda dividida


Luís Naves,

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Se a Grécia não apresentar um plano que inclua reformas impopulares, o acordo com os credores será impossível e a situação deverá piorar de forma dramática. Haja ou não entendimento, o referendo grego já mostrou a divisão da esquerda europeia, com a formação de dois blocos irreconciliáveis. Nos países da zona euro crescem os populistas eurocépticos, num processo gradual que torna cada vez mais pequena a aliança central (e tradicional no poder) de conservadores e socialistas.

Entre nós, nos meios de comunicação de referência, triunfou uma retórica que define o lado europeu como sendo neo-liberal e subserviente dos interesses do governo alemão, liderado pelos conservadores Angela Merkel e Wolfgang Schauble. Esta caricatura é infeliz. No Conselho Europeu há socialistas, como François Hollande ou Matteo Renzi, cruciais no processo de decisão, como serão importantes os social-democratas alemães (Sigmar Gabriel, Martin Schulz) ou o trabalhista holandês Jeroen Dijsselbloem*, cujos partidos fazem parte da bancada socialista do Parlamento Europeu, também vital para qualquer decisão.

A Espanha ilustra bem a nova clivagem no eleitorado esquerdista, com PSOE e Podemos a fazerem interpretações opostas do caso grego. Segundo as sondagens, os dois partidos deveriam formar uma aliança de poder pós-eleitoral, mas as divisões sobre como prosseguir com a moeda única dificultam esse resultado. Em Portugal, o PS tem a fractura exposta, com dirigentes de topo a fazerem discursos alinhados com o Syriza e a liderança a tentar um meio termo que permita criticar as políticas de austeridade sem inviabilizar a solução europeia onde participam os partidos homólogos. A ambiguidade pode custar votos a António Costa, cuja posição relativamente alinhada com a Europa contrasta com a de muitos membros do seu partido, mais próximos do discurso do Bloco de Esquerda e do PCP favorecido pelo coro grego dos analistas mediáticos. O problema dos socialistas é que será a conquista dos eleitores do centro a decidir as legislativas e, caso se confirme o Grexit, os portugueses vão assustar-se com as imagens do colapso financeiro e da crise humanitária que se vai seguir, com a moeda paralela, bancos estoirados, prateleiras vazias e falta de gasolina.

 

*Não confundir esta formação social-democrata com os socialistas holandeses, que estão na oposição, ocupando no Parlamento europeu lugares na bancada onde também se sentam Syriza, Bloco de Esquerda ou PCP.

0 comentários em “A esquerda dividida”

  1. os dois partidos deveriam formar uma aliança de poder pós-eleitoral, mas as divisões sobre como prosseguir com a moeda única dificultam esse resultado

    O Luís Naves está a especular sobre supostos problemas ainda muito distantes no tempo, como se eles já fossem reais e já se verificassem hoje.

    O problema dos socialistas é que será a conquista dos eleitores do centro a decidir as legislativas

    Tal como o próprio Luís Naves tem afirmado em repetidos posts, cada vez menos as coisas são assim, cada vez mais decisiva é a conquista dos votos de eleitores insatisfeitos com o sistema e que procuram alternativas ao discurso dominante.

    1. Distante? As sondagens espanholas sobre as eleições de novembro sugerem a vitória da esquerda, ou seja, do somatório PSOE e Podemos. Faltam três meses e meio para as eleições e, de súbito, surge uma divisão entre os dois partidos em relação a um tema crucial que vai dominar a campanha.

      1. Por causa desse “alarmar os leitores” é que andam a acabar por desinformar (problema a nível global).
        Por vezes, para eu conseguir estar mesmo a par do que se passa, tenho que ver a mesma notícia dada em diferentes meios de comunicação e em diferentes países porque cada um, tem o mau hábito de torcer um facto até ele encaixar na sua própria teoria ou ideologia, sem esquecer os alarmismos.
        Esta premissa de esconder, alterar ou apenas omitir algum facto na informação (seja política ou de qualquer outra natureza), dá-me sempre aquela sensação de quererem, à força, andar a infantilizar os adultos.
        A diferença entre um adulto e uma criança é, precisamente, aprender a enfrentar qualquer situação para, inteligentemente, a tentar resolver. Se começamos a tratar os adultos como as crianças, escolhendo e esmigalhando a informação, tal e qual como papinhas de criança, não faz nenhum sentido, BOLAS… chega a um ponto que até as crianças têm de aprender a mastigar.
        Depois admiram-se que o cérebro humano esteja a encolher, tenho a impressão que já se faz mais exercício físico com os glúteos, enquanto cerebralmente, incentivam a preguiça quando lhe estão a fornecer informação como comida pré-mastigada.

        1. Sem tirar nem pôr ISA.
          Só que isto é um blog, a plataforma de comunicação mais superficial, irresponsável e inimputável que por aí anda. Ainda que se escudando na tal da liberdade, aqui vale tudo, arrancam-se olhos como quem come cerejas e há objectivos (nem sempre evidentes e nem sempre meramente políticos) a cumprir,
          uma feira de vaidades, fúteis arrogâncias e prepotência que começa desde logo na censura de comentários.
          Se este não fôr verá o teor da resposta a um imbecil que ousou dizer que eles não são os mais bonitos e os mais cheios de razão.

  2. Entre palavras impressas sob a matriz de um ou mais desejos encriptados, mesmo quando alguns deles são explícitos e sinceros, e factos feitos de actos concretos e consumados vai um caminho longo, longo demais para ser descodificado, interpretado e previsto por um único cérebro.
    Previsões são sempre palpites. Umas ganham força e vingam, logo as restantes passam a ser tretas. Todos queremos adivinhar. Ao processo chamamos-lhe de “especulação”.
    Vivemos na era da especulação. Vive-se da aposta e não do produto do trabalho, por isso este nosso mundo está como está: uma grande porcaria.

  3. Antes de mais, Luís, não é correcto isto que afirma: “A ambiguidade pode custar votos a António Costa, cuja posição relativamente alinhada com a Europa contrasta com a de muitos membros do seu partido,…”

    http://www-org.rr.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=26&did=192659

    No entanto, e mais objectivamente dissertando, o seu texto desvia as atenções do essencial. E o essencial, no que refere às figuras do SPD alemão que sublinha, na exacta proporção de Hollande, é o facto de estes também representarem os ditos mercados, isto é, os países que em tudo beneficiaram do euro e do endividamento de todos os demais, enxugando nestes últimos a capacidade de desenvolvimento económico e do empreendedorismo, e deterem uma exposição demasiado elevada às políticas que estes países criaram.
    Por isso ninguém espere que sem “confrontação” firme as políticas por eles preconizadas sejam aligeiradas.

    Mais, A direita europeia, que o Luís dá o nome de centro, está a enfrentar o fracasso do seu alinhamento ao diktat através das rupturas sociais e ideológicas que vêem ocorrendo.
    Este cenário demonstra, por exemplo, que a linha do PSD/CDS em Portugal, por falta de vincos ideológicos, é o enaltecimento e a adopção daquela seguida por Sócrates que à revelia de seus eleitores, tal como em Espanha e até mesmo na Holanda, decidiu prosseguir, hoje imitado pelo PSD/CDS volto a referir, de braço dado com os demais vazios ideológicos que eram, e são, representados também por Sarkozy e Merkel.

    Neste cenário, os partidos representados no parlamento não comprometidos com as linhas de poder revelam um purismo que lhes credibiliza o discurso, e isto sei que incomoda.

    Logo, não estamos perante um problema de socialistas, nem do actual Partido Socialista português, mas do denominado centrão centralista que corrompeu as virtudes basilares de uma sociedade.
    E isto é tão grave na medida em que, por exemplo, o PSD/CDS em Portugal apresentaram uma mão cheia de nada em seu programa eleitoral, significando isto uma mão cheia de tudo quanto ATÉ AGORA OFERECERAM.

    O PS, apesar dos erros do passado, revela agora uma forte capacidade de regeneração e será, sem dúvida, o precursor da MUDANÇA.

    Viva o PS e todos os demais, incluindo os independentes e em particular os democratas-cristãos, força motora para derrubar os fascistas/estalinistas representados pela governação de PSD/CDS-PP.

  4. “O problema dos socialistas é que será a conquista dos eleitores do centro a decidir as legislativas e, caso se confirme o Grexit, os portugueses vão assustar-se com as imagens do colapso financeiro e da crise humanitária que se vai seguir, com a moeda paralela, bancos estoirados, prateleiras vazias e falta de gasolina.”
    .
    se tal acontecer na Grécia é a morte da União Europeia e da NATO! No Libano os Cristãos já falam em pegar em armas…o enfraquecimento e a perseguição da Cristandade naquela região, com o apoio da União Europeia e NATO, é algo que tem de deixar de ser encarado como coincidências…é no Iraque..Siria…Libano…Grécia…Quando a Grécia é desprezada na estratégia europeia politica e militar para aquela zona do mediterranico…A Grécia olha para o Libano e vê a Cristandade ameaçada…A Grécia olha para a Cristandade no Iraque e já só vê o deserto….A Grécia olha para a Cristandade na Siria e observa um processo acelarado de desertificação cristã naquele território…A Grécia olha para a Turquia a ter actos expansionistas na Siria…Quando a NATO e a Europa definem estratégias para o mediterranico grego sem defenderem os interesses da Cristandade Grega na região…é evidente que a Grécia foi alvo de terrorismo por parte da União Europeia e NATO!!! a destruição da Grécia é apoiada pelo Califado Ibérico!

  5. A esquerda moderada está condenada. Não teve vergonha em usar a extrema esquerda para o combate político e foi tomada por ela.
    Ou seja deixou todo o discurso nas mãos da extrema esquerda.

    E a prazo é a lógica da Extrema Esquerda que domina.

    Veja-se só o que se passa nos EUA com o Partido Democrata a ser tomado por extremistas, abertamente anti-capitalistas.

  6. O Luís Naves negligencia neste post a possibilidade de coligações negativas.
    Tal como em 2011 o PSD e o CDS se aliaram ao PCP e ao BE para derrubarem o inimigo comum (o PS), também é possível que no futuro partidos divididos prefiram unir-se para evitar um mal que consideram maior.
    Exemplo óbvio é precisamente o que se passa em muitos municípios espanhóis, que são geridos por coligações de esquerda que se formaram essencialmente para afastar o PP.

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