Quando a Vida Dá Um Filme


tralhasdavida,

Dás por ti numa estrada secundária da Europa Central, dentro de um táxi. O comboio onde seguias ficou parado a 45 quilómetros do destino. Para o teu táxi saltaram uma búlgara, que desatou a dar ordens a toda a gente, e uma albanesa que tinha um avião para apanhar. A búlgara deu-lhe logo uma descompostura porque devia ter previsto mais do que 1h40 para chegar ao check in. O motorista é um suíço francês. Dentro do táxi, num calor e aperto insuportáveis, fala-se francês com diferentes pronúncias duvidosas, excepto quando todos pegam no telefone que têm na mão e desatam a fazer chamadas na língua nativa. Tu e o teu marido percebem que se a albanesa perder o avião da Air Pristina só tem outro no sábado. Num acto solidário, acedem a meia hora de caminho extra para a deixar no aeroporto antes do vosso destino e pedem pressa máxima ao motorista. A búlgara é obrigada a acatar, primeiro com resistência, depois com resignação. Na rádio canta um senhor chamado Michel Sardou. O telefone do motorista toca e ele, o suíço francês, atende em brasileiro. Ficas desconcertada. Ele conta-te que morou alguns anos no Brasil e que é casado com uma brasileira. Acrescenta que lhe dá muito jeito dominar ambas as línguas porque ao domingo, quando vão à Igreja Evangélica, é ele quem faz de tradutor. É quando tu percebes que estás num filme do Kusturica.

0 comentários em “Quando a Vida Dá Um Filme”

  1. Eu, muitas vezes, sinto-me, em Portugal, num filme do Fellini. Nunca estive num do Kusturica, e embora possa ser uma experiência fértil, tendo em vista o magnífico texto, julgo que não iria gostar…!:))

  2. Que post tão bom, Francisca.
    Até fiquei com calor por causa dos apertos e de tanto stress. Kusturica, mesmo. 🙂

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