Passei hoje enfim, ao fim da tarde, pela Feira do Livro de Lisboa. Gostei de matar saudades. Clima óptimo: nem frio nem calor, nem chuva nem vento. Muita gente a circular, mas sem multidões. Novas opções gastronómicas em comparação com anos anteriores, quando pouco mais havia do que inenarráveis farturas e queijadas de Sintra. Espaços de lazer para a miudagem.
Mais frequentados que nunca, os pavilhões dos alfarrabistas – logo à direita de quem sobe. É um sinal dos tempos: voltámos a apreciar coisas antigas, objectos usados. Numa espécie de resistência activa às mil proclamações de falsa “modernidade” que nos inundam o quotidiano.
Deparo com o meu livro em destaque no escaparate da Guerra & Paz (foto supra). Obras dos nossos colegas de blogue Helena e António Manuel eram anunciadas noutros locais. Vi dois ou três livros da Patrícia. Gosto de descobrir estes sinais dispersos da nossa tribo.
Passo ao lado das barracas de editoras que fazem promoção activa da escrita acordística. Felizmente há outras, as que resistem: Antígona, Alfaguara, Babel, Planeta, Cavalo de Ferro, Gradiva, Tinta da China, Alêtheia, Relógio d’ Água, Parsifal, Sistema Solar, Abysmo, Labirinto de Ideias. Além da Guerra & Paz.
Nas “sobras” da Assírio e Alvim, por apenas nove euros, encontro uma das mais fascinantes autobiografias do século XX português: O Mundo à Minha Procura, de Ruben A., grande escritor hoje tão injustamente esquecido.
Compro um livro que tinha folheado há dias e me pareceu muito bom, além de ter um título fabuloso: Gente Melancolicamente Louca. Contos de Teresa Veiga, com chancela Tinta da China.
Continuo a coleccionar obras de escritores galardoados com o Nobel. Trago mais uma: A Casa e o Mundo, de Tagore. Edição já antiga, da Minerva, mas em estado impecável. Quatro euros, realmente a preço de Feira.
E por 7,5 euros – excelente preço para um livro de capa dura, com 534 páginas – trago também, do pavilhão da Cotovia, Século Passado, recolha de crónicas publicadas na imprensa por Jorge Silva Melo, uma das melhores penas portuguesas contemporâneas. Terei lido a maior parte delas, sobretudo as originalmente dadas à estampa no Público. Mas em livro ganham outro sabor, adquirem nova intensidade.
Já é uma edição de 2007, no entanto chega-me às mãos muito a tempo.
Abro-a ao acaso, deparo logo com uma crónica extraordinária. Página 174, “Paulo Rocha: Verdes Anos, filme da minha vida”. Um parágrafo: “Ele havia Salazares, a Pide era mesmo ao lado do São Luiz, a censura não estava longe, mas aquele foi um dia rasgado, puro e limpo, o dia sob a ditadura em que vi os Verdes Anos.”
Antes de abandonar o Parque Eduardo VII sinto fome. Mastigo uma bifana ali mesmo, numa rulote, e bebo uma imperial geladinha. Tal como costumo fazer após os jogos de futebol quando a minha equipa vence.


Adoro esse titulo da Sophia…
Forte abraço do canto inferior direito do rectângulo nacional.
Meu caro: reparo, pela sua observação, algo de que não me tinha apercebido na leitura inicial. A frase de Silva Melo é de facto uma paráfrase do verso de Sophia sobre o 25 de Abril, o que reforça o carácter simbólico da mensagem nela contida.
Já estive duas vezes este ano aí na zona onde se encontra. Espero regressar muito em breve.
Desejo-lhe uma boa jornada nessa terra que tanto me encanta.
Um forte abraço.