Ando numa fase em que não quero ir ao cinema ver dramas. Basta-me, neste capítulo, ainda estar na fase de ouvir telejornais… Os quais, julgo, dentro de dois meses devem passar a matéria interdita aqui em casa.
Assim, Domingo, apetecia-me ver uma comédia. Mas o panorama cinematográfico actual está pouco propício ao riso inteligente e abunda em violência, guerra e política, tudo assuntos que nem nos meus melhores tempos consigo suportar.
A proposta de um dos elementos do nosso trio apontava para o filme Les Heritiers aqui traduzido como “Uma turma difícil”. Desconfiei que me iriam esperar duas horas de alunos impertinentes, professores esbofeteados, pais intimidantes e telemóveis confiscados. Não errei muito. Acresceram a este quadro já de si empolgante as problemáticas raciais e religiosas, tudo desenvolvido no quadro de um trabalho sobre Auschwitz, câmaras de gás e perseguições nazis.
Estava sentada na sala escura quando me apercebi que a coisa podia ser bem pior do que aquilo que inicialmente esperara. Não havia “safa” possível. A proponente parecia interessada e o terceiro elemento não se pronunciava. Assim, lá embarcámos num destino incerto, mas com laivos borrascosos.
O filme baseia-se numa história verídica e mistura actores e alunos. Abarca uma realidade actual e relembra algo que jamais deveria ser esquecido. Mas duvido muito que, no contexto actual, Dachau e a exterminação dos judeus não acabe por ser olvidado no que tem de essencial. Não digo pela geração dos meus netos, mas admito que assim seja na geração daqueles que eles tiverem.
Se o realizador fosse muito bom, podíamos ter um filme excelente. Como não é, temos uma película a puxar à lágrima fácil – lacrimejei o que, no meu caso, não é bom sinal – mas que vale a pena, do meu ponto de vista, por relembrar um tema em relação ao qual, pasme-se, já há quem tenha dúvidas.
Mas como não tenho vocação para o martírio, digamos que depois de duas idas ao “nimas” ver assuntos sérios preciso, com urgência, de um refreshment no domínio da comédia!


duvido muito que, no contexto actual, Dachau e a exterminação dos judeus, não acabe por ser olvidado
Sem dúvida que o será.
Para já, porque a maior parte dos europeus (ou pelo menos dos portugueses) hoje em dia nem sequer sabe o que seja um judeu. Para explicar a uma pessoa o extermínio dos judeus é preciso começar por lhe explicar o que são judeus, por que motivos as pessoas não gostavam deles, etc. Tudo coisas que estão a milhas do mundo no qual as pessoas de hoje se movem.
E depois, é ao fim e ao cabo benéfico não recordar esses episódios tristes. Para que havemos de estar a fazer lembrar às pessoas um mundo horrível que, felizmente, já passou?
Luis Lavoura
Eu não quero esquecer a história, como não quero esquecer quem fui.
Triste ou não, ela explica muito do que hoje a Alemanha é e esquece que foi.
Você admite esquecer-se da sua história pessoal passada? E da história dos países onde viveu, que conheceu e que foram o seu mundo? Não acredito!
Vamos, então, ajudar a compreender o passado e também a (des)ordem presente:
“Como a nacionalidade, ou melhor, a raça, não depende da língua mas do sangue, não haveria que falar em germanização se com tal processo se pudesse mudar o sangue do vencido. Mas isso é impossível. Chegar-se-ia, sim, a uma mistura de sangues que baixaria o nível da raça superior. O resultado final do processo seria o desaparecimento das qualidades que antes tinham tornado o povo conquistador capaz de vencer. Na mestiçagem com uma raça inferior desaparecem as energias civilizadoras, mesmo que o povo saído dessa mistura fale perfeitamente a língua da antiga raça superior.”
Hitler – in Mein Kampf
Significa isto, meu caro, que a questão da germanização não ficaria pela neutralização de judeus, mas sim por toda e qualquer raça e cultura.
Recordo-lhe que os pensamentos do Mein Kampf surgiram antes de Hitler chegar ao poder. Não se reduza, portanto, a questão nazi à dimensão judaica. Estes eram os que estavam mais à mão da besta para iniciar seu plano.
Mas não só Dachau pode ser esquecida. Também, no norte da Polónia, Belsem, Sobibor, Chelmonino, Maldansk, Treblinka e Auschwwitz.
Mas também não pode ser esquecido o Bairro Polaco, Mila 18.
Apagar a memória será sempre potenciar a selvajaria.