O que se passou no Reino Unido pode voltar a acontecer em Espanha, e até em Portugal, como já avisou Manuel Alegre. Em todo o caso, uma vitória em terras lusas da linha austeritária personificada em Passos Coelho teria muito pouco a ver com uma eventual deriva direitista do PS.
Em Portugal não existe, ainda, um SNP (Partido Nacionalista Escocês), nem algo similar, apesar de haver quem a Norte trabalhe para isso, que possa provocar uma perda tão grande de votos à esquerda que redunde num desastre eleitoral do PS. Do mesmo modo que não existe um sistema eleitoral que seja de tal forma iníquo que converta três ou quatro milhões de votos num único deputado. Não será esse então o problema do PS.
Convém dizer que as razões pelas quais chamo aqui a atenção para o que aconteceu no Reino Unido são muito diferentes daquelas que Alegre referiu a semana passada. Em meu entender, não existe o perigo de qualquer desvio. Nem direitista, como vê Alegre, nem esquerdizante, ao invés do que Rui Ramos sempre vê de cada vez que uma folha abana com o vento. E o problema não está em promessas que tendo sido previamente estudadas sejam realistas, defensáveis e exequíveis aos olhos do eleitorado.
Na nebulosa ideológica em que os partidos hoje vivem, mais à esquerda do que à direita, que continua a saber o que não quer enquanto a primeira tarda em clarificar o que efectivamente deseja, o perigo vem de algumas forças que aproveitando a insatisfação da maioria procuram mudar de roupagem e de discurso para cavalgarem a onda.
Torna-se por isso oportuno, numa altura em que surgem os primeiros sinais de descontentamento com o Syriza, na Grécia, e se assiste ao pseudo-conflito que em França opõe Marine Le Pen ao seu pai, enquanto em Espanha o Podemos começa a mostrar que terá alguma dificuldade em manter o balão cheio de nada até às eleições, deixar aqui este vídeo que foi divulgado pelo Publico e que revela a outra face do Ciudadanos. Todos terão os seus “garbanzos negros“, só que nalguns casos eles são tão evidentes que não há marketing que o disfarce. O Ciudadanos é a direita mais conservadora travestida de movimento apartidário de cidadãos. Daí que seja tratado como um partido de direita exactamente nos mesmos termos que o Partido Popular. Pode mudar de roupagem e de discurso que as velhas ideias e os métodos antigos não saem de lá.
Convém por isso mesmo ao PS não ter ilusões e apostar num discurso claro, objectivo, que seja ideológica e eticamente capaz de fazer a separação de águas. Em relação aos adversários políticos, mas em especial no que se refere a práticas anteriores de alguns membros da “família”. E isso ver-se-á, desde logo, pela constituição das listas de deputados e pelos “apoios” que até às eleições forem surgindo de braço dado com a direcção do partido.
A lealdade para com os amigos não se confunde com a lealdade aos eleitores e a Portugal. E há escolhas que têm de ser feitas para se manter a respeitabilidade.

De certeza que haverá formas mais interessantes de “desmontar” o C´s do que com vídeos que, segundo polémica instalada especialmente via Twitter, chegam da Venezuela. O que é todo um programa.
Já o discurso do PS e de António Costa neste fim-de semana, parece não deixar dúvidas acerca do caminho: é o de dar nova oportunidade às Novas Oportunidades. O que é (também) todo um programa.
Enfim, tanto num caso como noutro, a culpa parece ser das sondagens. Uns que não param de descer, outros que não há maneira de subir.
Pelo que vejo hoje, a coligação PSD/CDS é a que está melhor colocada para vencer as próximas eleições.
Para isso muito contribui o falhanço Syriza, cedendo ao braço de ferro com a UE, e não enveredando por nenhuma nova solução.
O queixume sobre o bloqueio ibérico às pretensões gregas era efectivo, porque ali se jogava a narrativa das eleições seguintes. Um sucesso grego seria um rotundo falhanço da submissão ibérica à austeridade europeia.
O empenho de Marilú e Guindos foi assim total, e facilitado pela ortodoxia alemã.
Agora, este PS que restou do guterrismo é o dos animais políticos que gostavam do pântano. Esses animais do pântano são os que vemos na direcção socialista, adicionados uns (poucos) ex-jovenzitos de laia fracturante, que até podiam ser do BE mas não são.
Assim, a percepção que ficou foi – Guterres, apesar do PS.
Sócrates beneficiou dessa lembrança guterrista para alcançar a única maioria absoluta socialista. Para além disso beneficiou da campanha mais negra feita na comunicação social contra Santana Lopes.
O discurso austeritário dá votos, porque as populações são desconfiadas de soluções mais facilitistas. Será nesse ponto que Passos Coelho apostará, desde que foi libertado da ilusão Syriza.
Costa percebeu isso, mas como Pacheco Pereira bem notou, foi dar-se a medo ao jogo adversário, avançando com uma solução economicista da mesma laia (idiota), sem se comprometer com ela.
Ainda que Passos Coelho pouco ou nada tenha combatido os lobbies, conseguiu transmitir uma ideia de ser menos permissivo do que será este balofo mandão com o seu socialismo pantanoso, habitado ainda por cretinos do Cretáceo inferior.
O PS vai tarde para a ideia de defensor do Estado, até porque foi quem mais o enterrou, pelo despesismo incontrolado que serviu a sua militância.
Criou um enorme sector da população que passou a ver o Estado como mero sugador de recursos. Disfarçou a meritocracia de “militantocracia”, cheia de obedientes chefinhos avaliadores e concursos fantoches.
Nesse aspecto, a população divide-se entre aqueles que acham que então é melhor reduzir o Estado ainda mais, e aqueles que sabem que isso só conduzirá a transferir os vícios públicos para uma ainda pior chulice privada…
Esclarecidos que estamos sobre a magnífica gestão privada, sobre a qual Passos Coelho esteve irrepreensível, ao recordar o exemplo de Dias Loureiro, vemos quais são as alternativas.
Só que este PS de Costa nunca quererá fortalecer o Estado, quer fortalecer o PS no Estado do PS, o que sempre foi bem diferente.
O medo, porque o medo transborda no Regime, são as soluções fora do arco… e já não se trata do PCP ou BE, porque esses já há muito mostraram que são uma plateia do saltar ao arco.
O discurso do regime usa agora o epíteto “populista” para um quase equivalente “terrorista”, inventando um fantasma semelhante ao que o Estado Novo usava para o “comunista”.
Aquilo que parece difundir aqui é esse velho medo do “comunista”, das alternativas que não estão no regime, e que assim o põem em causa.
É muito natural que nos novos movimentos entrem oportunistas, travestidos, ou migrantes de velhos sectores, porque isso faz parte do complexo jogo da farsa política, cheio de infiltradores e infiltrados.
No entanto, disfarçadamente, isso não serve para sugerir que não há alternativas fora do “arco”, só porque há interesse em focar num PS como única alternativa “viável”.
Francamente, estou farto do encurralamento na falta de alternativas.
Há alternativas, desde que não as censurem, e mesmo que os directores de informação as censurem, nas suas TVs, não vão acabar com elas.
Aliás ao retirarem essas alternativas do espaço informativo, dão-lhe um espaço imaginativo, por ausência de confronto real.
E é isto, tudo dito. Isto é digno de um post (ou mais).
“Em Portugal não existe, ainda, um SNP (Partido Nacionalista Escocês), nem algo similar, apesar de haver quem a Norte trabalhe para isso…”
Há?! Onde me posso inscrever?…
Por que será que não surpreende o frete feito aos “coletas” pelo inefável e ternurento “púbico da sãozinha”?…
Convém é lembrar que esse Público (o espanhol) é o braço jornalístico da esquerda radical espanhola, e portanto, de isento não tem nada. O crédito que lhe dou é pouco mais que zero.