O principal problema do país é a economia. Abebe Selassie, representante do FMI na «troika» (por cá ainda lhe chamamos assim?) durante a maior parte do período de resgate, disse-o em pelo menos um par de entrevistas: Portugal até pode ter um modelo de sociedade ao estilo nórdico desde que crie uma economia capaz de o sustentar. Note-se a ordem dos factores: primeiro a economia, depois o modelo social. A esquerda sempre achou que o inverso daria o mesmo resultado. Não dá. Não dá em Portugal, nem na Grécia, nem na Venezuela, nem sequer nos países nórdicos – que, perante quedas da economia, fazem o que nós recusamos fazer: ajustam o modelo social para a estimular (por isso a Suécia tem um sistema de pensões que a esquerda portuguesa recusa, por isso a «flexissegurança» nasceu na Dinamarca, por isso a Finlândia vendeu a maioria dos bancos a estrangeiros há cerca de 20 anos, por isso todos os países nórdicos têm um modelo de sistema de Justiça que a Constituição portuguesa impossibilita).
Como uma recuperação sustentada da economia portuguesa só pode basear-se nas empresas (de modo a – toda a gente o sabe hoje em dia – aumentar as exportações e diminuir as importações de bens e serviços), tudo o que puder fazer-se para lhes aumentar a competitividade é crucial. Daí as declarações de Manuela Ferreira Leite não fazerem qualquer sentido: é evidente que os encargos com o pessoal – e, especificamente, os encargos fiscais e contributivos – são importantes para muitas empresas. Porque, se menores, lhes permitiriam ser mais concorrenciais, ganhando encomendas e quota de mercado, ou até porque lhes possibilitariam aproveitar uma eventual folga para diminuir o nível de endividamento (uma ameaça para o futuro), investir em inovação e design, contratar novos funcionários (para os departamentos de inovação e design, por exemplo) e/ou motivar os existentes através de bónus ou aumentos de salário.
Mais abaixo, num texto intitulado O problema é outro, o Sérgio de Almeida Correia menciona a PT e o BES para defender que existem outros factores com implicação na saúde das empresas. Com certeza que sim. Porém, na actividade, na dimensão, nas margens decorrentes de negócios pouco expostos a concorrência global (ninguém por cá pode usar a rede AT&T e a maioria dificilmente obterá crédito num banco chinês), a PT e o BES não representam a empresa típica portuguesa. E, por importantes que os sectores financeiro e de telecomunicações sejam, também não representam o tipo de empresas em que Portugal necessita de apoiar-se para construir uma economia competitiva. Quanto ao facto de uns conseguirem e outros não, depende – como quase tudo na vida – de capacidades próprias e da conjuntura. Um governo não pode criar melhores empresários por decreto – mas pode e deve tentar melhorar a conjuntura (fiscal, burocrática, judicial) em que os que existem se movimentam.

Faz-me a maior confusão que MFL tenha sido sempre apontada como muito próxima de Cavaco, quando ele repetidamente afirmou coisas como esta (pesquisa rápida, outros exemplos melhores serão encontráveis):
TSF, publicado a 08 MAI 2011
«É sabido que, para conseguir uma desvalorização num país que não tem moeda própria, temos que jogar mão de impostos que incidem sobre o factor trabalho», disse Cavaco Silva, numa visita à feira agropecuária Ovibeja, onde foi questionado sobre a proposta do PSD de reduzir a Taxa Social Única (TSU).
O Presidente da República sublinhou que «diminuindo os impostos que incidem sobre o factor trabalho e, eventualmente, aumentando impostos que incidem sobre o consumo, demonstra-se na economia que é possível ganhar competitividade».
Segundo Cavaco Silva, a redução da TSU «é uma hipótese que está contemplada no memorando de entendimento» acordado com a “troika”, mas que «ficou para o próximo governo tomar uma decisão nessa matéria».
«Isso é uma matéria que está lá referida, em termos gerais. Será o próximo governo a tomar decisões nessa matéria», concluiu.
Exacto. O que Manuela Ferreira Leite diz não faz sentido. Defende simultaneamente que os dois problemas mais graves das empresas são o excesso de endividamento e a falta de crédito. É como diagnosticar diabetes e receitar açúcar. As empresas com excesso de endividamento (e há muitas, de facto) não precisam de crédito; precisam de vender produtos e aumentar receitas. A TSU é uma forma (entre outras possíveis) de as ajudar a fazê-lo.
As empresas com excesso de endividamento (e há muitas, de facto) não precisam de crédito
Precisam sim, para poderem fazer roll over das suas dívidas. Ou seja, para substituírem empréstimos antigos por outros novos. Da mesma forma que o Estado português está excessivamente endividado, porém necessita de novos empréstimos. Ou acha que não?
Infelizmente. Enquanto as contas públicas apresentarem défice…
Quanto às empresas, fazer o roll over das dívidas pode não boa ideia quando os spreads são elevados. Tudo depende. Melhor era conseguirem pagá-las. (Na maioria dos casos, estamos a falar de empréstimos bancários, uma vez que – por filosofia e falta de dimensão – as empresas portuguesas recorrem pouco ao mercado de capitais.)
Pois, mas se as empresas não conseguem pagar as dívidas que têm, por estarem excessivamente endividadas, então qual a solução? Abrir falência? Claro que não! A solução é tentarem obter mais crédito. Pagar a dívida toda é uma solução, sim, mas apenas a longo prazo.
Portanto, é evidente que as empresas, mesmo estando muito endividadas, ou precisamente por causa disso, necessitam de crédito. Precisam de crédito porque, estando muito endividadas, pagar a dívida toda de imediato lhes é impossível.
Até me parece obsceno que MFL e até coveiros da situação em que estamos tenham cara para vir “vender” tretas ao segundo.
Ainda bem que tem freguesia mas eu teria vergonha depois de andar por lá bastante tempo e ter a “obra” á vista.
No caso de MFL, confesso que sinto bastante tristeza. Sei que Passos não foi correcto com ela durante a campanha de 2009 mas isso não justifica defender agora quase o oposto do que defendia na altura – e não apresentar qualquer verdadeira sugestão.
Falta-lhe é os nórdicos. Até me parece que prefere encher-se de “latinos” meridionais corruptos e gente que gosta de barracas.
Faltar-nos-ão sempre. Mas talvez então também seja melhor desistirmos de ter estado social.
todos os países nórdicos têm um modelo de sistema de Justiça que a Constituição portuguesa impossibilita
Eu gostaria de saber (1) que tipo de sistema de justiça é que todos os países nórdicos têm, e (2) de que forma é que a Constituição portuguesa impede um sistema de justiça desse mesmo tipo.
http://www.bulhosa.pt/livro/governo-d a-justica-o-nuno-garoupa/?fz=Listagem+Ca t%E1logo+Por+Departamento
Não pode pelo menos elencar alguns pontos?
Meu caro, eu não sou jurista. Não me vou arriscar a iniciar um debate detalhado sobre a estrutura, composição e dependências do sistema judicial. O que me interessa é a impossibilidade de uma verdadeira reforma ser levada a cabo, por causa da Constituição. Em termos genéricos, digamos que, no nosso modelo, o sistema de justiça é teoricamente bastante independente do poder judicial mas interesses corporativos e inércia lhe prejudicam a “accountability” e a transparência. O sistema dos países nórdicos é um pouco menos independente mas permite maior fiscalização das acções dos actores da justiça. Por exemplo:
“Esse órgão deveria ser único para todas as magistraturas, podendo ser designado, por exemplo, pelo Conselho Superior das Magustraturas. Deveria ser também responsável unicamente perante a Assembleia da República, que o escolheria na totalidade da sua composição. Nem os tribunais nem o Ministério Público devem ter qualquer processo de nomeação para o órgão de governo por forma a reduzir tentações corporativas. (…) Os mandatos (…) devem ser por um período longo de tempo, sem possibilidade de recondução ou reeleição. Visto que este deve ser um órgão de administração e gestão, penso ser importante não limitar a sua composição a jurisconsultos ou juristas.
Estabelecido um órgão de governo flexível e com claras regras de responsabilidade política, mas sem qualquer papel de natureza substantiva na garantia da independência pessoal, colectiva e processual da justiça (…). A dotação orçamental deve ser uma competência exclusiva da Assembleia da República, e apenas por decisão desta pode haver consulta ao Ministério da Justiça (incluindo na determinação e negociação de salários e outras prestações pecuniárias). A administração e gestão desse mesmo orçamento cabe unicamente ao Conselho sujeito ao controlo de auditoria externa. Este órgão tem de ser responsável pela organização judiciária bem como pela gestão e avaliação da judicatura, mas apenas e só dos tribunais inferiores.
A gestão e avaliação da judicatura para os tribunais superiores seriam exercidas por um modelo distinto, inspirado pelas experiências holandesas e escandinavas. A promoção aos tribunais superiores dos magistrados judiciais e do Ministério Público passaria a ser da competência da Assembleia da República, através de uma comissão ad hoc nomeada para o efeito. Esta comissão deveria ter um representante dos Conselho Superior das Magistraturas e dois outros vogais eleitos pela Assembleia da República. Esta comissão trabalharia num sistema de audição ou exame público aos candidatos para os tribunais superiores. Competiria à Assembleia da República aprovar a lista de candidatos para os tribunais superiores (…). Esta mesma comissão seria responsável pelos casos disciplinares nos tribunais superiores, reportando as infracções à Assembleia da República, que deveria votar a demissão ou afastamento compulsivo por maioria qualificada.”
Etc, etc., sobre o segredo de justiça (Garoupa defende modelos mais próximos do americano, no qual o procurador é responsabilizado), a limitação de recursos, o Tribunal Constitucional e mais uns quantos temas. Mas compre o livro, que só custa 3,5 euros.
“Acontece que o nosso problema é estrutural. O nosso modelo não funciona nem aqui nem em lado nenhum. O modelo judiciário de tradição francesa é simplesmente incapaz de adequar-se ao mundo económico e social em que vivemos hoje. Em Portugal, em Espanha, na Itália ou em França.
(…)
Temos de olhar para a Holanda, para os países escandinavos, para o Japão ou para a Coreia do Sul.
(…)
Trata-se de abandonar o modelo tradicional de magistrados de carreira e, de forma progressiva, desenvolver magistraturas de prestígio recrutadas entre juristas de mérito (ao fim de dez anos, são já mais de 70% dos magistrados holandeses). Pretende-se um novo modelo do governo da justiça que nos afaste da tradição franco-italiana e nos aproxime de soluções mais eficazes e eficientes vigentes no Norte da Europa”
Uf.
Grandes malucos, esse holandeses. Mil vezes o nosso sistema, em que apanho juízes com 50 anos que não fazem ideia do que seja uma Nota de Crédito.
perante quedas da economia, fazem o que nós recusamos fazer: ajustam o modelo social
(1) O modelo social português tem sofrido repetidos ajustes nos últimos anos, pelo que é simplesmente falso que Portugal se recuse a ajustar o seu modelo social.
(2) Que novos ajustes ao modelo social português, concretamente, é que o José António sugere?
Para começar, justiça à dinamarquesa, pensões à sueca. Ou então, no caso das pensões, a assumpção de que é necessário reduzi-las – todas, incluindo as já atribuídas -, de modo a permitir folga para estimular a economia (algo que, a nada ser feito, acontecerá de qualquer modo, embora apenas para quem ainda tenha que as vir a receber, e sem os efeitos positivos correspondentes).
justiça à dinamarquesa, pensões à sueca
O que é que isso quer dizer, na prática?
É por demais evidente que o regime esclavagista é o melhor modo de termos uma economia social.
Os grandes lucros dos proprietários serão todos investidos em hospitais, subsídios e coisas que tais, ficando o país a ter os escravos mais saudáveis do mundo.
Afora a sério: Desde 2010 os salários as pensões e a capacidade do Estado intervir na saúde, na educação diminuíram. Quais foram as vantagens que tiveram os que fizeram os sacrifícios?
Onde para o investimento?
Para países não falidos? O investimento ocorre quando existem perspectivas. Em 2010 não havia. Agora, começa a haver (tímidas). Evidentemente, aumentarão ou diminuirão consoante as medidas que se tomarem – e há muitas (demasiadas) por tomar.
Saia um bocadinho da propaganda do governo.
As perspetivas em Portugal são piores que as de 2010.
A dívida aumentou, o mercado interno encolheu, o pessoal qualificado emigrou e as condições de vida na saúde, educação, investigação científica e segurança social pioraram muito.
Melhorou a capacidade de contrair empréstimos e os custos da energia, mas as duas melhorias são conjunturais e não dependem de Portugal.
Estamos tão bem que a troika só vem cá para dizer duas coisas: que o ajustamento foi um sucesso e que têm de se fazer mais cortes.
Custa a compreender como chegamos a um ponto de melhoria que só é possível manter piorando o que existe.
Ficar mais pobre é o novo enriquecer para estes senhores. Não o enriquecer no futuro, para eles ser mais pobre é que é a verdadeira riqueza.
São uns verdadeiros seguidores de S. Francisco de Assis.
“É por demais evidente que o regime esclavagista é o melhor modo de termos uma economia social.”
Escravatura é o que você quer fazer a quem paga mais impostos assim com também quer escravizar quem lhe empresta dinheiro.
Você faz o jogo dos “grandes…proprietários” porque toda a sua área ideológica não quer concorrência aos “grandes…proprietários”.
Meu caro José,
Antes de tudo mais cumprimento-o. Deixe-me referir-lhe primeiramente que existe um estudo efectuado por Stuart Holland, professor convidado da UC, que revela que de todas as fábricas da VW a Autoeuropa é a mais competitiva. Significa isto que, NESTE PARTICULAR, o problema da competitividade reside a montante e não aqui. Nós temos outros problemas que afectam a competitividade, a energia e transportes, em consequência da primeira.
Sobre o caso dos países nórdicos, tive oportunidade de referir aqui que o futuro mostraria o brilhante resultado que a economia do Euro alemão estava a implementar. Hoje a Finlândia está a braços com uma taxa de desemprego que começa a ultrapassar os 10%.
Pequenos exemplos, mas significativos. O seu erro baseia-se no facto de continuar a fazer cálculos como se Portugal fosse uma ilha independente do resto do mundo, e não é.
O problema da competitividade que afecta o mundo inteiro, e ainda trará mais devastação (digo-lhe que fique atento a algumas empresas ditas de referência e aos desenvolvimentos que surgirão certamente em torno delas nos próximos tempos – dois anos), resume-se, entre outros, à subjugação da economia ao poder financeiro. Significa isto que todas as medidas que têm vindo a ser implementadas ao invés de contra cíclicas, são pró-cíclicas, isto é, favoráveis à depreciação da economia em benefício de uma nomenclatura financeira.
Como também referi aqui ainda mesmo de se efectivar, a salvação para o não agravamento da ditadura financeira, juros e outras amarras, seria precisamente a anexação da Crimeia e o problema na Ucrânia, por culpa das ambições alemãs e da UE muito encostada aos seus poderes financeiros. Se usar os gráficos da quebra das taxas de juros verificará que esta ocorrência começa o seu pique neste período.
Nenhuma medida política e económica determinou esta queda, mas sim a guerra e o facto da Rússia ter começado a emergir das cinzas qual Fénix renascida. Isto deve-se também à política ocidental e aos mercados financeiros.
Tive oportunidade de acrescentar que os ditos países emergentes acabariam por entrar num ciclo de queda que agravariam ainda mais esta situação. O Brasil já é um exemplo e Angola só é notícia pelas quebras do petróleo.
E é a propósito destas quebras do petróleo que a economia portuguesa, em termos de números E NÃO EFECTIVAMENTE, poderá apresentar resultados MACRO diferentes, mas também ressalvei os perigos de uma valorização do dólar para contrariar as expectativas.
Aqui chegados, tendo em conta o cenário internacional, diga-me se a solução para Portugal e outros países não passa por aligeirar às famílias e indivíduos o nó górdio que se lhes colocou no bolso e no estômago (considerações adicionais já foram feitas no post de Sérgio de Almeida)?
Abraço
Meu caro: já discutimos a assunto várias vezes; concordo consigo quando afirma que o economia mundial se baseia num sistema financeiro que não está assente na realidade. Concordo menos quando atira toda ou quase toda a responsabilidade para os agentes directos do sistema financeiro, esquecendo o papel que os políticos – muitos dos quais de esquerda – tiveram no processo. Não consigo ver como é que simultaneamente pode assumir que existe uma ficção financeira assente em crédito excessivo e dinheiro dos bancos centrais (num sistema de reservas fraccionárias que vai permitindo manter o castelo de cartas em pé) e defender aumentos de rendimento sem sustentação em aumento de procura de bens e serviços – que não ocorrerão, porque está toda a gente demasiado endividada. O sistema pode estar a beneficiar essencialmente quem tem capital mas uma coisa é defender regulação, a paragem de injecção de dinheiro, o ajustamento do mercado de capitais à realidade, com os inevitáveis incumprimentos e falências. Outra é pretender – para mais em sociedades com demografia explosiva – que forçar empresas (muitas em dificuldades) e governos (muitos com défice) a aumentar salários é uma solução. Apenas aumenta o tamanho da bola de neve. Diminui-la (assumindo que é possível) tem de passar por regular (o que faz subir custos) e, simultaneamente, por fazer ajustes noutras áreas (sendo que em algumas – por exemplo, a segurança social portuguesa – não o fazer é assumir a sua falência a prazo).
O José não entende que a diminuição da procura assenta nos custos provocados pelo financiamento, isto é, também no desinvestimento para manter rendas ad eternum que não diminuem a dívida. A diminuição da procura, o endividamento e os custos no financiamento para pagar o serviço da dívida e não diminuir a dívida criam uma situação de pescadinha de rabo na boca.
Esta pescadinha de rabo na boca gera riscos de crédito elevadíssimos em todos os sectores da economia, consequentemente o custo do dinheiro aumenta nas operações bancárias. Se o custo aumenta e procura financiar este custo com a redução das disponibilidades dos agentes da economia, os consumidores, estaremos perante a necessidade a curto prazo de novos cortes.
Significa isto que uma vedação proteccionista deve ser edificada em torno do vector económico. Por exemplo: oferecer nas operações de crédito um desconto adicional que só se tornaria efectivo depois de consumado o pagamento. Com a consumação do pagamento constatar-se-ia que o risco não tinha existido na operação e de imediato se elaboraria um crédito em favor do agente, quer seja uma empresa quer seja um particular.
Neste sentido os eventuais riscos estavam anulados e o custo não se aplicaria sobre os consumidores.
Significa isto, José, que o que nos faz falta é pensar, reflectir e implementar. É preciso desejar a sabedoria para que tudo se processe com sabor. Sabor deriva da palavra Sapere.
Por favor, mantenhamos fora de nossas conversas as questões direita e esquerda. Isto é conversa mole e não produz resultados.
Ninguém falou em aumento de salários, isto é outro tema. O que temos vindo a assistir é a subsidiação legislativa para despedir e encurtar os salários. E isto não resolveu nada. E não só não resolveu como agravou o problema de receitas na Segurança Social. Verifica agora o efeito da pescadinha com rabo na boca?
José, uma vez que fiz referência em meu primeiro comentário a considerações deixadas no post de Sérgio de Almeida, permita incluir este link com uma notícia de hoje, 18-04-2015, referente ao reporte que desejava e desejo que este governo e todos os demais nos apresentem futuramente:
http://expresso.sapo.pt/dividas-fiscais-g overno-manda-travar-penhoras-excessivas=f 920515
Este governo é mesmo sensível com eleições à porta.
É chegada a altura de quem governa ter em absoluta consideração que eles são pagos para executar tarefas e não para ser donos disto tudo. O mundo mudou e as exigências também devem mudar.
Ora leiam lá este artigo do (insuspeito) jornal Avante! de 19/Setembro/2009:
(http://www.avante.pt/pt/1868/temas/3064 2)
Ora agora destruo eu, ora agora destróis tu
Este podia ser muito bem o estribilho da cantilena do PS e do PSD ao afinado coro da política de direita e da direita política, à destruição do sistema público de Segurança Social. O PS levou a cabo um comprovado retrocesso nos direitos dos beneficiários, por via do factor de sustentabilidade, a pretexto do aumento da longevidade, e pela fórmula de cálculo da actualização das pensões, a pretexto de que as mesmas deviam estar indexadas à evolução da economia, incluindo a economia «beduína», e não, como socialmente devia ser, à situação económica e social dos reformados e pensionistas.
(…)
O ataque do PSD, copiando os objectivos do PS quanto à redução de benefícios, vai num duplo sentido.
Por um lado, vai beneficiar as empresas, aumentando-lhes o lucro, por via da redução da taxa a que o patronato está obrigado quanto ao financiamento da Segurança Social.
Por outro lado, em consonância com o CDS, vai ressuscitar o famigerado «plafonamento» em benefício despudorado do sistema financeiro.
A Dr.ª Ferreira Leite invoca «a bondade» tais medidas em quatro planos:
– o primeiro, em nome da competitividade, omitindo, em nome da sua postura ideológica, que a competitividade das empresas passa pela introdução de adequadas medidas de gestão, a par da redução dos factores de produção, de que se destacam o preço da gasolina, do gasóleo, da electricidade, das comunicações, das taxas de juro, sem esquecer os efeitos devastadores derivados quer da burocracia quer da corrupção, fenómeno para o qual a chefe do PSD devia estar atenta;
– o segundo, em nome quer da pretensa liberdade de escolha quer da pretensa exigência que a cada um cabe na formação do valor da sua pensão de reforma, lenga-lenga para ocultar a pretensão da direita de transferir para os bancos e companhias de seguros uma parte dos descontos que actualmente são canalizados para a Segurança Social, ou seja, desviando-os para que o sistema financeiro maximize as suas reservas para os negócios exemplarmente tipificados na prática levada a cabo, entre outros, pelo BCP, BPN e BPP;
– o terceiro, em nome desse imenso logro designado de «voluntariado» como se o voluntariado fosse uma actividade constante, estruturada e consequente, a quem pedíssemos responsabilidades e tivesse meios financeiros, técnicos, humanos e logísticos para resolver as carências financeiras, sociais e vivenciais das crianças, dos deficientes, dos idosos, pensionistas e reformados. (Nota: há, pontualmente, excepções a confirmar a regra e cuja actividade militante deve, sem ambiguidade, ser reconhecida);
– o quarto, em nome das IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social), como se estas entidades fossem autónomas e dispusessem de meios próprios suficientes para levar a a cabo uma actividade estratégica nas áreas já atrás referidas quanto ao voluntariado.
O PSD omite que o Estado irá transferir, este ano, cerca de 1200 milhões de euros para tais organizações, o que representa cerca de 43% dos custos reais das instituições sem fins lucrativos. Se acrescentarmos a tal verba a comparticipação dos utentes, não deixaremos de concluir que com o dinheiro dos contribuintes podemos nós fazer boa figura. (Nota: também aqui queremos salientar o exemplo militante de várias organizações, envolvendo muita generosidade pessoal em minorar as carências de muitos dos nossos concidadãos. Mas, atenção, as IPSS devem estar inseridas numa actividade complementar e não estratégica, pelo que não concordamos que reclame, para si, em nome da caridade e do assistencialismo, aquilo que resulta do direito de cidadania expresso na nossa Constituição).
Quanto a tudo isto a Dr.ª Ferreira Leite nada diz porque os grandes interesses económicos vigentes coincidem com os grandes interesses do PSD.
(…)
Como é sabido, salvo várias excepções (muitas delas absurdas) o patronato é, legalmente, obrigado, sobre o ordenado dos seus empregados, a entregar na Segurança Social, para além da quotização que cabe ao trabalhador, uma contribuição de 23,75% sobre o valor do salário.
A Drª Manuela Ferreira Leite pretende reduzir em 2 pontos percentuais aquela contribuição.
Pois. Mudam os tempos, mudam as vontades – e, aparentemente, as convicções.
(“Jornal Avante!” e “insuspeito” na mesma frase quase fez o sistema operativo do meu computador entrar em parafuso.)
“Insuspeito” no sentido de lhe ser indiferente Ferreira Leite ou Passos Coelho…
Esmiuçando a dinâmica geradora do dilema do ovo e da galinha percebe-se que a essência do impasse é uma teimosia do orgulho e da vaidade, pois em Portugal o resultado da abordagem pelo lado de apoiar o aumento o poder de compra dá no mesmo que a abordagem pelo lado de reduzir o custo de produção, ou seja: Nenhuma resolve o problema.
Somos um pequenino retalho no canto de uma manta chamada Europa. A nossa cor é a nossa língua e a nossa capacidade de resolver os nossos problemas é ténue e muito permeável aos desejos e ambições condizentes com o nosso tamanho.
Parece-me que os nossos governantes querem tratar uma dor de cabeça com aspirinas, mas ignoram a origem da dor, é como se quisessem ter a dor para brincarem aos médicos e viverem à custa das aspirinas, quando a montante está a causa da dor. A Justiça a par com a inexistência de um tecido económico especializado e com capacidade de sustentar 10Milhões de labregos (tecido este que foi sendo destruído, em vez de transformado, a partir da adesão à então CEE) são o tumor que causa esta dor de cabeça.
Pelo lado do aumento de poder de compra engrossamos: as importações; a expatriação de divisa; as dívidas; a malandragem; o mercado paralelo/fuga ao fisco, etc.
Pelo lado do aumento do apoio à produção engrossamos: a pobreza, as desigualdades sociais e outros problemas sociais, a alienação de riqueza; fuga de capitais; exploração da população, etc.
O que conseguimos? – Nada.
Está mais do que visto que não temos capacidade para fazer sozinhos, só a Europa é que nos pode ajudar, pode e até deve resolver o nosso problema. Mandem-nos mais umas “AutoEuropas”!!