Envelhecimento


Luís Naves,

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Os partidos discutem envelhecimento do País e a baixa natalidade e logo o debate produz argumentos que explicam o fenómeno com a crise financeira. A tese é de que as pessoas querem ter filhos, mas não há condições: faltam creches e empregos, habitação, educação de qualidade, transportes e prestações sociais.

A baixa fertilidade tem certamente motivos ligados à qualidade de vida, mas isso não explica que o indicador tenha caído ao longo de 40 anos. As mudanças sociais em Portugal foram talvez demasiado rápidas, pelo que o seu impacto é mais visível do que em outros países: as famílias são exigentes em relação à educação dos filhos, as pessoas casam tarde e os casamentos duram menos tempo (apesar desta crise ter aumentado o tempo médio de duração dos casamentos). Em resumo, há factores sociais poderosos que não se resolvem com medidas fiscais, subsídios ou novas infra-estruturas. Não digo que isso não seja feito, mas não há leis que convençam as mulheres a casar mais cedo ou que convençam as famílias a ter outro filho.

Os portugueses de hoje têm mais instrução do que em 1970, mas a natalidade continua a cair. Eles são muito mais ricos do que os pais e avós, têm qualidade de vida superior, mas a natalidade continua a baixar. O desemprego dos jovens só aumentará o problema, mas mesmo que a falta de perspectivas da nova geração se resolva, haverá mesmo assim uma crise de fertilidade, pois muitas mulheres quererão optar pelas carreiras e os casais continuarão a achar que a família ideal é pequena. Enfim, assistimos a discussões sobre medidas que podem aumentar em algumas décimas a taxa de fertilidade, mas nenhum político confessa que é necessário discutir outra abordagem, tratando o envelhecimento das sociedades como um fenómeno natural. Por isso, precisamos de aceitar a emigração, mesmo que mude substancialmente a nossa cultura. Portugal teve a vantagem da coesão linguística, étnica e religiosa, mas esse pensamento tornou-se uma desvantagem.

As sociedades adaptam-se às mudanças naturais. No futuro, o País terá menos estudantes e mais idosos, as despesas de saúde serão diferentes e, com o actual sistema de pensões, as pessoas vão trabalhar durante mais tempo, o que por sua vez exige das empresas uma mentalidade que valorize a experiência. Quando era rara, a velhice foi associada à sabedoria. Agora, que se tornou comum, é vista como um problema. No entanto, os países envelhecidos deviam ser vistos como potencialmente mais sábios, pacíficos e prósperos.

0 comentários em “Envelhecimento”

  1. precisamos de aceitar a emigração, mesmo que mude substancialmente a nossa cultura

    Ora bem, conclusão muitíssimo correta (com “emigração” substituído por “imigração”)

    Até porque a quebra da natalidade não é um problema exclusivamente português nem sequer exclusivamente europeu: praticamente todas as sociedades desenvolvidas a exibem, o que faz supôr que não seja algo de conjuntural.

    1. Boa demonstração da loucura suicida de certos membros de uma sociedade. Não admira claro vindo de um Marxista como Luís Lavoura.

      A imigração deve ser melhor que nós, não pior.

      Portugal tinha 5-6 milhões de pessoas em 1900. Qual o problema?

  2. Toda a UE tem um problema semelhante -natalidade baixa e necessidade a prazo de mão de obra jovem.
    Todos os paises do sul do mediterraneo têm muito jovem e poucos recursos para os formar e lhes dar uma vida decente e em paz.
    Calculo que seja facil conjugar estas duas realidades complementares.

  3. Os problemas ambientais, de poluição, de exaustão de recursos são devidos ao facto de o planeta ter mais indivíduos da espécie humana do que consegue suportar com as exigências das (ou de algumas) sociedades contemporâneas. Nunca houve tantos humanos como agora e um dia ultrapassa-se o limite. Por doenças ou cataclismos então a população diminuirá. Alguns países (China, Índia) já perceberam isso e procuram (concorde-se ou não com os métodos) políticas de restrição à natalidade. Em Portugal e noutros países continua a clamar-se que se deve aumentar a natalidade!!! Suponhamos que as famílias começavam, como há algumas décadas, a ter 7 ou 8 filhos. Ou mesmo 3 ou 4. Loucura. Seria suicídio.
    Não é possível continuar a aumentar a população!! Imaginem o terceiro mundo, a África por exemplo, coberta de auto-estradas, milhões de automóveis, etc. E, claro, manadas de elefantes e rinocerontes a atravessarem as auto-estradas. Fiquemo-nos pelo Lince da Malcata. Esses não incomodam e morrem como tordos. Mas que fazer com a espécie humana?

  4. Caríssimo Naves, percebe-se que se refere à imigração em vez de emigração.
    Apontar a substituição populacional através da imigração é uma enormidade. A leveza com o que afirma ” mesmo que mude substancialmente a nossa cultura. Portugal teve a vantagem da coesão linguística, étnica e religiosa, mas esse pensamento tornou-se uma desvantagem.”, é aterradora.
    Costumo lê-lo com atenção e concordar, em muito, com o que escreve. Mas este seu texto, perdoe-me, exceptuando a parte analítica e meramente recognitiva, não tem um único ponto com que possa concordar. Faz o pleno.
    A sedução pela imigração em massa, como forma de compensar o declínio populacional, é uma tragédia anunciada!!
    Por fim, e no fim, o deviam, corresponde precisamente ao ser!!
    Cordialmente,

  5. A questão da imigração (e agradeço as correcções dos leitores) é obviamente polémica. Ou existe problema na redução da população ou não existe problema. Se o envelhecimento colectivo nos empobrece, se é necessário contrariar esta tendência, então onde estará o mal da imigração? Haverá mais trabalhadores, que podem descontar para a segurança social e que pagam as pensões de quem chegar à reforma. Além de pagarem impostos e contribuírem para a riqueza do país, esses imigrantes fazem aumentar a taxa de fertilidade e, a prazo, a população não diminuirá tanto. Se a demografia não é um problema, então as políticas de imigração podem continuar demasiado restritivas, mas convém discutir sem temor. Não vejo como se resolve a demografia sem imigração.

    1. Caro Naves, apenas lhe ofereci um pequena alerta face ao que me pareceu um excesso de voluntarismo.
      Há que não ser tão lesto a mergulhar nesse distópico maravilhoso mundo novo!
      Uma coisa demasiado utilitária com transumancias eternas!! Um mundo de comunidades, excepções protectoras e com um nóvel direito das gentes!! Um atrito indisfarçável que corrói a coesão de uma comunidade una. Tragédias que se anunciam à luz do dia por esse mundo fora!! Um passeio por essa Europa seria esclarecedor. As gentes não têm culpa, se algum sentido fizer falar de culpa, apenas, como é da humanidade, reproduzem os modos de produção da vida que conhecem, não se resignam como desalmados!!
      Nenhuma comunidade política sobrevive apenas baseada na utilidade económica, já Aristóteles observava.
      Porque não, simplesmente, admitir o declínio demográfico com um propósito racional de uma determinada comunidade que forçará, naturalmente, a outras formas de organizar a produção e consumo de recursos e a divisão do trabalho.
      Cordialmente,

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