Ignorância aliada à prepotência


Pedro Correia,

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Começaram por eliminar as supostas “consoantes mudas” – incluindo as que têm valor diacrítico e, portanto, de “mudas” nada têm – e agora atiram-se furiosamente contra as consoantes bem sonoras, como este título confirma.

Está longe de ser um caso isolado. Encontramos este erro multiplicado por milhares de exemplos – sem sequer escapar o Diário da República.

Tudo ao abrigo do incompetente “desacordo ortográfico” e das suas múltiplas “heterografias” que o Governo – com destaque para o ministro da Educação, Nuno Crato – insiste em manter em vigor, indiferente ao facto de ter sido reprovado por quase toda a comunidade científica nacional, ser rejeitado pela larga maioria dos nossos escritores, romper com as regras vigentes em Angola, Moçambique e Macau, e consagrar 1235 novas diferenças ortográficas com a escrita brasileira (em palavras como recepção e percepção).

 

Como justamente escrevia ontem a professora Maria do Carmo Vieira, em artigo publicado no diário i, «da aliança entre prepotência e ignorância resulta o caos». Bem patente no ensino actual da língua portuguesa, «com os professores coagidos a usar o acordo e deparando-se com múltiplos problemas suscitados pela análise de textos cuja escrita foi adulterada (estações do ano com minúscula, perdendo o seu carácter simbólico, confusão de sentido no uso do pretérito perfeito, 1ª pessoa do plural sem acento como se fosse um presente, perda de acento em ‘pára’ que transforma a frase de Bernardo Soares em ‘Quem simpatiza para’»).

Estou com ela no diagnóstico. E também na conclusão: «Forçar o cumprimento de um acordo estúpio e cheio de incongruências e penalizar os alunos, nos próximos exames, caso errem a sua aplicação, é uma decisão intolerável que exige a desobediência dos professores e a intervenção dos encarregados de educação.»

0 comentários em “Ignorância aliada à prepotência”

  1. atiram-se furiosamente contra as consoantes bem sonoras

    O problema é que não se sabe bem que consoantes são sonoras. As consoantes que uns pronunciam, outros não pronunciam.

    Por exemplo, a palavra “caraterística”. Eu escrevo-a e digo-a desta forma. Mas parece que, mesmo depois do acordo, ela é suposta escrever-se “característica”. Ora, para mim é evidente que o c antes do t não se lê nesta palavra!

    Também já tenho visto, tanto antes como após o acordo, pessoas a escreverem “contracto” quando a forma correta de escrever sempre foi “contrato”. Ou seja, há montes de gente que coloca cs antes de ts quando eles nunca lá estiveram!

    1. A ortografia, como é pacificamente aceite na linguística moderna não é uma transcrição fonética.
      Isso é uma ideia do séc. XVIII, totalmente ultrapassada e que apenas existirá no Brasil e em Portugal, por ter sido proposta por Verney (que copiou uma moda breve daquele tempo) – e que, mação, viu as suas ideias postas em lei em 1911, numa comissão composta por membros da maçonaria, e com a desculpa de que a etimologia dificultava a aprendizagem! – ideia ainda hoje repetida po alguns defensores do acordo (que pertencem à mesma agremiação conservadora de Verney) embora a becharal criatura tenha desmentido essa ideia da facilitação da aprendizagem em declarações no congresso brasileiro há dois ou três meses – e em contradição directa com o que diz o “anexo II” ao dito acordo – que, diga-se, não tem qualquer condição legal para vigorar.
      A ideia, já em 1911 um boçal anacronismo, teve a oposição de Fernando Pessoa – que fez mais por Portugal, pela língua e culturas portuguesas do que todos os acordistas juntos. Mas, na altura, o país tinha 75% de analfabetos (a mesma percentagem do analfabetismo funcional no Brasil, hoje em dia) e milhões de pessoas podiam passar anos sem lerem ou escreverem e a mutilação foi imposta. Não é o caso de hoje, em que vivemos num mundo grafocêntrico.
      Aliás, seria bom que os “linguistas” acordistas tivessem noção das novas aquisições da teoria da informação e das ciências cognitivas.
      É que não há ortografias “melhores” ou “piores”, e uma “reforma” torna-se impossível, porque teria de conciliar dois actos que implicam necessidades diferentes: escrever e ler. Se se mutila ou abrevia ou ao escrever retiro informação ao leitor…
      Quem quiser ler a Prof. Uta Frith ficará com uma ideia do estado da pesquisa científica das ciências cognitivas e do processo de aprendizagem no actual século. Pode começar por aqui. A ortografia é a última das etapas da aquisição da escrita – http://esol.britishcouncil.org/sites/default/files/attachments/informational-page/Frith%27s%20model%20of%20reading%20acquisition.pdf

    2. Tu e o Malaca estão na minha lista de golpes de Karaté. Tamanha desonestidade intelectual só vai ao sítio com muita carga de pancada.

    3. Este diz exactamente o contrário do que está escrito no texto do acordo. O acordismo não diz coisa com coisa, entre o nacionalismo brasileiro e a subserviência dos aventais portugueses – que se apossaram do estado.
      https://www.facebook.com/video.php?v=843334345728355&set=vb.435046346557159&type=2&theater

  2. perda de acento em ‘pára’

    Esse acento não faz sentido nenhum.

    Há montes de palavras em que não se sabe bem se as vogais são abertas ou fechadas, e não é por isso que se coloca acento nelas.

    Por exemplo, “tamanco”. Eu leio “tâmanco”, que é como sempre ouvi dizer. Mas há montes de gente que pronuncia “támanco”. Não é por causa disso que se vai colocar acento na palavra.

    Ou o nome da terra “Leça do Balio”. Pronuncia-se “Bálio”, com a aberto, mas há montes de gente que não sabe desse facto e pronuncia “Bâlio”. Não é por causa disso que se deve passar a pôr acento.

    Da mesma forma, “para” pode-se ler com a aberto ou fechado, tendo sentidos diferentes consoante os casos – mas não é por isso que se vai colocar um acento.

    1. Ó Luís, pensa lá um bocadinho no que escreveste.
      Achas mesmo que os exemplos que deste são semelhantes ao descrito no post? Não consegues ver a diferença, mesmo que involuntariamente a tenhas assinalado?
      Ai, essa cabeça…

    2. Caro Luis Lavoura:
      Poço qonqluir do ceu qomentario que e a favor do A(borto) O(rtografico).
      Pesso desculpa ce me esqeci de algun assento a menos ou dei algun erro.
      Afinal, aposto que o qaro perssebeu tudo o cue quiz diser.
      Regras para que ce cada un le como lhe aprouver?
      —————————————-——————–
      P. S. So nao perssebo porque quizeram uniformisar mas qriaram mais de 2 mil diçonancias. Mas iço e porcue çou burro.

  3. O problema é que muitos professores terão medo das consequências da sua desobediência, perante um patrão – o estado – apostado em impor a iniquidade custe o custar e contra tudo e contra todos, por razões que já só podem ser as inconfessáveis. Além de que uma grossa parte dos encarregados de educação é ela própria a primeira a incentivar o facilitismo. Sem hábitos de leitura ou escrita, vendo a língua como mera ferramenta, vendo eles próprios a escola como uma maçada e não uma descoberta, com a “cultura” dos jornais de futebol, das revistas de telenovelas e da leitura de tablóides – os que chegam a tanto – acha muito bem que se “simplifique”, aplaude o que toma como bem-vinda modernidade (entre nós tudo envelhece muito depressa e ao “envelhecer” suscita o horror), e quer é que os seus rebentos passem de ano e com boas médias.

    Quanto mais simples, quanto mais caótico (donde sendo tudo e o seu contrário – menos, afinal a boa ortografia escorreita – igualmente defensável), melhor.

    Se necessário, para tanto, entram escola dentro e dão um par de tabefes, ou pior, no professor ou professora que, assim, ganha também uma razão não hierárquica para ter ainda mais medo (embora admita que neste caso até talvez nada houvesse a temer por essa via; mas, invocada em abstracto, ilustra o tempo que se vive nas escolas).

    Em suma: professores com medo e pais estúpidos. E quantidade apreciável de Lavouras…

    Nada se bom se pode augurar.

    Costa

  4. Uma pergunta, por curiosidade: aquele tal número de 2000 novas diferenças inclui já o desconto das diferenças eliminadas?

      1. Quem escrever directamente em francês (coisa apenas ao alcance de grandes filósofos) está safo: não tem de se preocupar com essas tretas. Até pode (e deve) escrever “directement” e não “diretement”.

  5. Lá no Brasil dizem abissoluto, por exemplo. Como é que deverão escrever a palavra, segundo o NAO? Abissoluto ou abiçoluto?

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