A utilidade das filas


José Maria Gui Pimentel,

Volto a um tema que já aqui abordei: a estranha teimosia das filas. No caso, referia-me a filas em restaurantes, mas o mesmo fenómeno estende-se a outros estabelecimentos comerciais e parece (-me), pelo menos em Lisboa, estar mesmo a aumentar.

Voltei a ‘tropeçar’ neste tema ao ler um texto recentemente publicado no New York Times, da autoria de Tyler Cowen, um dos autores do blog de economia Marginal Revolution. Neste artigo, Cowen tenta reabilitar o estatuto da espera em filas, argumentando que estas são, em última análise, vantajosas para os consumidores (como um todo). 

Especificamente, o autor sugere que, em muitos casos, os retalhistas usam as filas para segmentar os consumidores, entre aqueles que não se importam de pagar mais (e saltar a fila) e aqueles com menos poder de compra, mas muitas vezes também com um menor custo de oportunidade do tempo, que não se importam de esperar. Em concreto, a existência de filas dispensa investimento no alargamento do espaço, o que por seu lado permite não aumentar os preços. Mesmo que esta segmentação seja pouco exequível em muitos casos (não me lembro de ver um restaurante com ‘primeira classe’, por exemplo), a existência de filas poderá continuar a ser vantajosa, uma vez que os clientes mais predispostos a esperar tenderão a ser aqueles com mais actividade nas redes sociais, sendo, portanto, muito valiosos para os retalhistas. Ora, sem a possibilidade do recurso a filas, estes consumidores ficariam fora do mercado.

Mas não é tudo. Partindo desta linha de raciocínio, Cowen aproxima-se das hipóteses já exploradas Gary Becker num paper antigo. Por um lado, a possibilidade de a existência de filas ter, em si mesma, valor para os retalhistas, por se traduzir publicidade gratuita. Por outro lado, a possibilidade de as mesmas filas conferirem também utilidade aos consumidores, a quem o serviço parecerá mais valioso e exclusivo. 

Finalmente, Cowen destaca ainda dois factos que importa ter em conta no fenómeno do (aparente) aumento do recurso a filas no mundo capitalista. Por um lado, a espera é cada vez mais tolerável, dada a profusão de smartphones e outras distracções. Por outro lado, e pelo menos por enquanto, é muito raro ver filas no acesso a bens ou serviços essenciais.

0 comentários em “A utilidade das filas”

  1. é muito raro ver filas no acesso a bens essenciais

    Como assim?! Vá a qualquer hiperemercado e veja as enormes filas que há à saída, nas caixas!

    As pessoas vão ao hipermercado comprar bens essenciais. Não fazem fila à entrada, para aceder aos bens, mas fazem fila à saída, para os pagar. Mas o efeito prático é precisamente o mesmo!

  2. a existência de filas tem, em si mesma, valor para os retalhistas, por se traduzir em publicidade gratuita

    É verdade que tem esse valor positivo, mas também tem o valor negativo de o potencial cliente ficar a saber que terá que esperar muito tempo para ser atendido e que será atendido num ambiente de stress e à pressão. Tenho dúvidas de que o valor positivo supere o negativo.

    Eu, pelo menos, quando vejo uma fila num restaurante fujo logo de lá. A perspetiva de comer com pessoas de pé na sala a olhar para mim enquanto como, ansiosos por que eu me despache, afugenta-me.

    1. As filas têm vários efeitos negativos, claro. Mas isso já se sabe. O interesse — a piada — destas análises é contrariarem esses efeitos. Parcial ou totalmente. Admito que possa ser apenas parcialmente. Dependerá do contexto. Mas é uma perspectiva interessante (pelo menos na minha opinião),

  3. Confesso que não entendo a estranheza.

    A fila é como um aperto de mão , uma partilha de uma cultura.
    É um valor ancestral, quem chega primeiro fica com mais direitos.

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