O comentário da semana


Pedro Correia,

«É lamentável verificar como isto se torna aqui nos comentários um debate entre esquerda e direita sobre quem mata mais gente. Não deixa de ser um bocado infantil. Sim, já sabemos que o Hitler e o Estaline mataram muita gente.
É evidente que há uma grande hipocrisia na forma como parte da esquerda lidou com tudo isto que se passou nos últimos meses. Parte da direita também, a direita do “a liberdade de expressão só é boa quando é para atacar quem nós não gostamos” ou a direita à lá D. Duarte Pio “respeitinho, respeitinho.”

A esquerda, penso eu, enfrenta vários problemas porque a sociedade civil mudou bastante no mundo ocidental e as lutas de “justiça social” tiveram também de mudar, só que a esquerda falhou em adaptar-se e desta falta de adaptação apareceram diversos paradoxos. O paradoxo, por exemplo, do anti-semitismo por causa de Israel. O paradoxo do feminismo que diz que as burqas são libertadoras (não pondo eu em causa que há mulheres que usam véu porque querem e têm todo o direito a isso) mesmo quando mulheres no Irão dizem que são obrigadas a usar. O paradoxo de estarem calados quando um blogger na Arábia Saudita é condenado à morte, o paradoxo de não criticarem ditaduras só porque essas ditaduras apresentam-se como sendo anti-americanas. O refúgio no relativismo cultural ou num passado colonial (que certamente explicará muita coisa em relação a África e ao Médio Oriente, por exemplo, mas não explicará tudo nem significa que não se possa condenar diversos casos e movimentos). O paradoxo de achar que a opressão é insuportável nos países ocidentais (onde sem dúvida há discriminação contra minorias) mas ignorar a muito maior opressão e falta de liberdade existentes em países como a Índia, Síria, Myamnar, Paquistão, Arábia Saudita, Turquia, etc.

O melhor comentário que li sobre isto foi um artigo no Huffington Post em que o autor (Karthick Manoharan) criticava Richard Seymour (que escreve na revista americana Jacobin) que logo a seguir ao massacre do Charlie Hebdo escreveu um artigo com as balelas do costume: “Ah porque eles eram racistas, ah porque eles desrespeitaram os muçulmanos e contribuiram para a opressão, isto está tudo no Said.”

O artigo do Huffington Post escrito por Manoharan terminava assim:

“A true leftist would realize that the attack on Charlie Hebdo is not merely an attack on a liberal freedom of press – it is an attack of a core Marxist value, namely, the ethical imperative to critically examine every ideology under the sun, and Islam is no special exception. For a leftist to ignore that is imbecility at its worst.
As far Islamist terrorism goes, maybe the Left should remember what Robespierre, the patriarch of modern day revolutionaries, said – “To punish the oppressors of humanity is benevolence; to be benevolent to them is barbarism.” This, and this alone, is real Jacobinism”.»

 

Da nossa leitora Daniela Major. A propósito deste texto do Rui Rocha.

0 comentários em “O comentário da semana”

  1. Asneira.

    “it is an attack of a core Marxist value, namely, the ethical imperative to critically examine every ideology under the sun”

    O Marxismo não tem nada disto. E o falsário que o escreveu chama para sua defesa Robespierre um dos pais do Terror, do Totalitarismo e do primeiro genocídio feito pela Esquerda Moderna na Europa: Vendeia.

    1. Luckyluck,

      Há um livro do Marc Belissa e do Bosc sobre Robespierre chamado: la fabrication d’un mythe. Devia ler. De resto linguagem e conceitos do século XX aplicada ao século XVIII é coisa que me passa ao lado, especialmente quando usada com o objectivo de simplificar determinados eventos históricos.

      1. “De resto linguagem e conceitos do século XX aplicada ao século XVIII é coisa que me passa ao lado, especialmente quando usada com o objectivo de simplificar determinados eventos históricos.”

        Totalitarismo é Totalitarismo em qualquer época.

        E porque foi buscar uma citação de Robespierre que se vale do que em sua opinião é o seu “Mito” – “Pai dos revolucionários” que agora à posteriori critica?
        E o Jacobinismo é o quê? Não é intolerância revolucionária elogiada na sua citação bem próxima do modus operandi do Estado Islâmico?

  2. Sugiro que se acrescente as narrativas já em carteira, e que alguns quase exclusivamente acham a prioridade(esquerda?) que acrescentem á da austeridade/crescimento, a muito importante da competição e estrategia para enfrentar a sociedade global; quando as novas sociedades India, China, Brasil.. começarem a poder falar com voz grossa, tirando a Alemanha, que ferramentas têm os países menos eficientes? Continuar a discutir o (sexo dos anjos) da esquerda/direita ou investimento de estado e redução na escola publica e na saude?
    Direi que me parece uma brincadeira de crianças, boa para entreter mas pobre de resultados.

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