O Munique ucraniano.


Luís Menezes Leitão,

Se há uma coisa que me deixa estupefacto é que como é que na União Europeia ninguém é responsabilizado pelo desastre a que conduzem políticas completamente disparatadas que os órgãos da União seguem acriticamente por pressão alemã com os resultados que estão à vista. Basta pensar que em Novembro de 2013 a Ucrânia era um estado democrático, que servia de tampão entre a Rússia e a União Europeia. Dividido entre uma zona ocidental, pró-europeia, e uma zona oriental, russófona, por vezes as eleições eram ganhas por um lado e outras vezes pelo outro, coisa que não perturbava o país, uma vez que os derrotados nessa eleição podiam calmamente esperar pela eleição seguinte.

 

A coisa mudou brutalmente em Novembro de 2013 quando uma manifestação ultra-nacionalista na Praça Maidan decidiu contestar a política do Presidente Ianukovich, eleito pelo Leste, e a sua recusa em assinar um acordo de associação com a União Europeia. Estranhamente a manifestação foi prontamente apoiada pela União Europeia, que não descansou enquanto não viu Ianukovich derrubado e em fuga, tendo rapidamente assinado o acordo de associação com o governo surgido da praça, cujo primeiro acto tinha sido proibir a língua russa no país. Acho que nenhum político europeu no seu juízo perfeito seria capaz de um disparate destes, mas na União Europeia há muito que o juízo anda a faltar

 

Como é óbvio, a Rússia não se ficou e anexou a Crimeia, vital para a sua frota do Mar Negro, e com uma esmagadora maioria de russos, e deu claro apoio às pretensões independentistas de Donetsk e Lugansk. O resultado foi uma violenta guerra civil na Ucrânia, e que nem uma tentativa de retorno à ordem constitucional, com a eleição de Poroshenko, conseguiu travar. Na verdade o Leste já não conseguiu participar nessa eleição e a tentativa de Poroshenko de submeter os rebeldes pela força das armas saudou-se num evidente fiasco para o desmoralizado exército.

 

O resultado foi este novo “acordo de Munique”, agora em Minsk, que Merkel e Hollande, juntamente com Poroshenko, celebraram com Putin. Putin vence em toda a linha. A Ucrânia é obrigada a reconhecer a autonomia de Donetsk e Lugansk, incluindo a possibilidade de as mesmas terem relações directas com a Rússia. Estas regiões conservam os seus exércitos, já que só os combatentes estrangeiros devem abandonar a Ucrânia. E o exército ucraniano só voltará a ter controlo das suas fronteiras quando a Ucrânia alterar a sua constituição, reconhecendo a autonomia dessas regiões. Donetsk e Lugansk passaram assim a ter o mesmo estatuto da Ossétia do Sul e da Abkházia na Geórgia, sabendo-se que qualquer tentativa da Ucrânia para alterar o seu estatuto desencadeará uma intervenção semelhante à que a Rússia teve na Geórgia em 2008. Confesso que não acredito que Poroshenko consiga impor este acordo ao Parlamento ucraniano, pelo que só com uma ditadura na Ucrânia o acordo será respeitado. E duvido ainda mais que os rebeldes russófonos se fiquem, depois da vitória colossal que agora obtiveram, sabendo-se que agora basta um pequeno passo para ligar a sua região à Crimeia anexada pela Rússia. 

Em Munique Chamberlain também voltou para casa com um pedaço de papel que representava uma derrota colossal face a Hitler. Quando se viu o disparate que isso tinha sido, foi rapidamente substituído por Churchill. Merkel e Hollande também foram a Minsk, não sabe com que estatuto, mas obviamente em representação da União Europeia. Depois do resultado desastroso que trouxeram, não haverá condições para a União Europeia mudar estes protagonistas?

0 comentários em “O Munique ucraniano.”

  1. Tenho a ideia que a informação que nos chega é muito escrutinada, mas mesmo assim penso não estar a errar ao lembrar os vários mil milhões que os serviços secretos dos EUA(não é da UE) foram investidos na “praça Maidan”.Nem das varias medidas que os novos governantes de Kiev tomaram(pouco sensatamente diziam vários analistas na altura) por exemplo excluindo a língua russa. Para um país que tem regiões onde predominam povos russos parece-me no mínimo suicida. Agora na ausência de estadistas nos outros países “amigos” dos EUA lá foi a sra Merkl, com o contrapeso, tentar travar a escalada duma guerra bem assoprada pelos anglosaxonicos só que vergonhosamente na Europa ninguém fez muito para a travar até agora. Se não fizermos nada para dar valor ao facto de seguirmos um caminho desinvestindo no armamento ninguém o fará por nós.Aí é que somos melhores que o resto do mundo.(Basta analisar os cacos que ficam da geoestrategia de alto gabarito dos americanos e ingleses).

  2. Merkel e Hollande foram a Minsk em representação dos seus países e não da UE, que, que eu saiba, não lhes passou procuração.

    A ânsia expansionista da UE é que está na origem desta crise, e não os “anglo-saxónicos” (embora seja credível a informação de que a CIA andou a soprar nas brazas na Praça de Maidan – com que objectivo, ignoro, mas o Nobel da Paz de Pennsylvania Ave. que esclareça).

    Os EUA não têm nenhum interesse estratégico na Ucrânia. Já os “pacíficos” “europeus” têm, mas não contavam com esta reacção do Putin.

    Chamberlain não foi “rapidamente” substituído por Churchill. Isso levou dois anos, já bem depois do início da Guerra.

  3. Na altura da queda do muro, lembro-me perfeitamente de uma conversa com uma amiga alemã. Disse-lhe então que a Alemanha podia finalmente descansar pois unira o seu território.
    Ainda que por brincadeira, ela respondeu-me que não… Não era bem assim! Faltavam os territórios da velha Prússia.

    Ora, a abertura das fronteiras da UE a Leste corresponderam a um prato estendido a quem tinha vontade de o comer. O equilíbrio entre França e Alemanha, nas suas eternas aspirações imperiais europeias, desapareceu quando se abriram as fronteiras orientais.
    A França ficou periférica, o centro estratégico deslocou-se para oriente… e se a Alemanha convida a França para estas coisas é por uma mera questão de salvaguardar aparências.
    A UE ter pretensões imperiais não parece mal, esquecendo que a UE pouco mais é do que as pretensões imperiais de uma Alemanha cada vez mais nacionalista.

    Assim, estas negociações são especialmente caricatas porque mostraram um renascer das pretensões imperiais dos múltiplos principados alemães, hoje príncipes de indústrias, usando a França como muleta coxa.

    Portugal, em vez de ter alinhado pela sua posição geoestratégica natural – ou seja, o interesse atlântico inglês, foi mergulhar com a Espanha numa submissão idiota a um Sacro-Império Carolíngio, a que se chama hoje “zona euro”.
    Pior, caiu-se na ideia de que os estados ibéricos serviriam a ligação da UE à zona ibero-americana, como se isso não fosse um simples interesse do centralismo europeu, do qual os estados ibéricos, periféricos na UE, retirariam pouco mais que nada.

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