Back to basics


Pedro Correia,

Por vezes, no meio da balbúrdia comunicacional, há que fazer um ponto de ordem. É tempo de ser feito relativamente à Grécia: Syriza é um acrónimo de Coligação da Esquerda Radical. Uma esquerda situada muito à esquerda da chamada “esquerda” social-democrata ou trabalhista, a cuja família pertence o Partido Socialista português. E que nada tem a ver também com a família comunista europeia, de que um dos expoentes é o nosso PCP.

Por outras palavras: o equivalente ao PS na Grécia é o PASOK, que nas legislativas de ontem não recolheu mais de 5%. E o o Partido Comunista grego, homólogo do  PCP, quedou-se nos 5,5%.

“O sucesso tem muitos pais, mas a derrota é órfã”, dizia John F. Kennedy. Bem sabemos que é assim. Mas convém não abusar. Por muito que, por cá, socialistas de vários matizes — de Ana Gomes a Isabel Moreira, de Inês de Medeiros a Elisa Ferreira,  passando por Manuel Alegre — celebrem a vitória eleitoral do Syriza como se fosse um triunfo da sua própria família política, há que dizer com toda a clareza que isso é um enorme equívoco.

Quem venceu as legislativas na Grécia não foi a esquerda reformista: foi a esquerda radical. O que faz toda a diferença.

0 comentários em “Back to basics”

  1. Com o Syriza a mandar cá, a senhora deputada Medeiros já poderia ir passar todos os fins-de-semana a Paris viajando em executiva premium com direito a champanhe e caviar.

  2. A “canhotada” acordou hoje com uma valente bebedeira de “syriza” (bebida genuinamente grega, mas com sucedâneos por toda a europa). Em Portugal a euforia vai desde o pavão Nicolau Santos à alucinada Catarina Martins, até o comunista João Ferreira acordou com a euforia de alguns vapores (qual foi o resultado do PC grego?). Os socialistas, esses, ainda estão a reflectir sobre se esta bebida será suficientemente forte que aguente a “sua” agenda para a década (em lugar da "casca de carvalho", vão armazená-la em Évora junto do querido líder – o mártir), e o Costa está a pensar em lançar já um imposto sobre ela para autorizar a sua experiência em Lisboa, nem que tenha de fazer de "Tsipras" coração.

    Na europa, Holland e Renzi, ainda não digeriram lá muito bem a coisa, e estão com alguma azia. Mas, Vladimir Putin, já apanhou uma valente piela só com o cheiro, e já se ofereceu para importar umas litradas para aquecer o inverno russo que vai frio como o caraças (não tardarão os couraçados russos no porto do Pireu)!

    Falta saber quem pagará a conta…

  3. Se em vez de olhar a coisa como uma espécie de clubite, mas à luz do que cada um tem dito sobre a questão europeia e a sua gestão da crise, e da natureza do euro, talvez compreenda que haja pessoas de outros “clubes políticos” que vejam esta vitória como boa. No fundo, ganhou o futebol.

    1. Aprecio a ironia futebolística, mas há que dar o nome às coisas: esta não foi uma vitória do “centro esquerda”: foi uma vitória da esquerda que nada tem a ver com o centro. Compreendo que a partir de agora muitos queiram pendurar-se no carro da vitória, mas hoje é de elementar justiça sublinhar isto.

      1. Mais uma vez (já sabe que nestas coisas sou um chato), chamo a atenção para a substância e não para os nomes. Não quererá o Syriza fazer uma política social democrata? Que partido do chamado “centro-esquerda”, os da internacional socialista, se mostraram dispostos a defender a social democracia quando levaram com a troika? Se vamos dar nomes às coisas olhemos para a substância. Diria que o juri ainda está reunido quanto ao Syriza. No imediato, apenas querem que menos gregos tenham fome e falta de cuidados de saúde. Radicalíssimo.

        1. Isso já é outra questão. O meu ponto é deixar claro que, por maiores que sejam as tentativas da social-democracia europeia de vampirizar esta vitória de Tsipras, ele pertence a uma família política diferente. E portanto, em termos europeus, a vitória tem de ser creditada a esse bloco político. Que em nada se confunde com o chamado centro-esquerda. Tal como o Podemos, em Espanha, não é confundível com o PSOE. Nem o BE pode confundir-se com o PS em Portugal.
          A clareza é fundamental em política. O Syriza tem esse mérito: intitula-se de esquerda radical e não do centro reformista com umas pinceladas sociais. Neste caso (e até eventual prova em contrário) o que parece é.

        2. Lindo, para si a definição de Social Democracia é ter défice de 25% do orçamento e vender dívida que depois não é para pagar.

          Brilhante, tem de me dizer onde está essa teoria ideologica…

          1. O Syriza aposta no “consumo interno” e no “investimento público”. Um programa que tem todas as condições para ampliar o desastre grego sem resolver problema algum. Isto porque se destina a gerar uma dívida ainda mais descomunal do que a actual num país que só este ano terá de pagar 20 mil milhões de euros em serviço acumulado de dívida.

  4. Eu não vejo que a vitória do Syriza tenha muitos pais. Ela foi parida por um pai e uma mãe: Sarkozy e Merkel. Os enteados, os restantes que apoiaram os pais na feitura da criança, querendo ser mais filhos que o legítimo filho apressam-se a deitar abaixo a criança. Passos é um exemplo de como reage o filho mais velho perante o regresso e o banquete oferecido ao pródigo. Mas há mais.

    Os autores de todas as radicalizações que o mundo conhece continuam convencidos que o sinete deve manter os mesmos relevos e as mesmas iniciais até aqui usadas.

      1. “Os enteados, os restantes que apoiaram os pais na feitura da criança, querendo ser mais filhos que o legítimo filho apressam-se a deitar abaixo a criança. Passos é um exemplo de como reage o filho mais velho perante o regresso e o banquete oferecido ao pródigo. Mas há mais.”.

        Leu mal.

    1. Esse camarada, que já pode ir três vezes a Évora, não se dignou comparecer hoje na reunião do Conselho de Estado. Exemplos de m##d#.

  5. Começou ontem, com a vitória do Syriza, a purga aos partidos tradicionais.
    Não sei se me fica bem escrever a seguinte frase: começou a ruir hoje, o Muro financeiro de Berlim!

    1. Duvido muito, Fernando. As bravatas nacionalistas e populistas – de esquerda e de direita – dão sempre boas fotografias e boas manchetes na imprensa. Mas um país arruinado financeiramente, que aldrabou os parceiros europeus relativamente às suas contas públicas, “marteladas” durante anos a fio, e se viu forçado a pedir 240 mil milhões de euros ao BCE e ao FMI para não entrar em colapso, pode sangrar-se em retórica sem ver nenhum problema de fundo solucionado a menos que descubram petróleo no Monte Olimpo ou nos fundos do Mar Egeu. Não será a Grécia – que representa 2% do PIB da UE – a ditar condições aos parceiros europeus mas o contrário.
      As bravatas só são consequentes quando não estamos endividados até ao tutano.

  6. Pelo que me tenho apercebido eles comemoraram a mudança. A diferença, está entre o mais do mesmo e a mudança radical e pelo que parece, têm a noção disso mesmo. Os ressabiados que não festejaram e não gostaram nada, foram os senhores do nosso governo. Esses, destilaram ironia, hipocrisia, desilusão e quase que quiseram ignorar que algo mudou, nesta EU em decadência e a mando do capitalismo e da Alemanha

  7. Caro PC, deixe lá os nossos socialistas agarrarem-se ao Syriza. É da maneira como, daqui a uns meses, vão ao fundo com eles.

    1. Pura hipocrisia política. Aliás não deixa de ser irónico ver socialistas portugueses aplaudirem um governo que tem no seu seio um partido ferozmente anti-imigração e anti-semita. Já para não falar dos valores da “paridade”, que receberam trato de polé neste novo executivo de Atenas, onde nem uma mulher ocupa um posto ministerial.

  8. “Esta cobertura noticiosa (a de José Rodrigues dos Santos, em Atenas) acabou por valer a dura crítica do professor de Política Internacional, na Universidade de Coimbra, José Manuel Pureza (um sujeito totalmente independente, como se sabe, assim como a independentíssima especialista em direito constitucional com tatuagem no braço, de nome Isabel Moreira — aparte meu) em direto na noite de domingo, na RTP Informação, e gerar contestação nas redes sociais.”

    (DN online)

    1. Dirigentes políticos – que nada têm de isento, nem podem reclamar-se como tal – pretendem dar lições de isenção a um jornalista experimentado e consagrado, dizendo-lhe como é que ele há-de fazer as suas reportagens.
      Algo verdadeiramente espantoso. E não menos espantoso é haver quem os leve a sério.

  9. Começam bem. Os “pobres” (ignoro como lá irão definir o limiar a partir do qual uma família será considerada pobre) vão deixar de pagar a electricidade. Nada tenho contra os pobres, obviamente. Mas se eu – ou qualquer outro – não pagar electricidade, deixo completamente de me preocupar com apagar as luzes ou a televisão, ou se as lâmpadas são das que gastam muito ou das que nem tanto… O que faz que tenhamos essa preocupação é cortar no que pagamos no fim do mês. Quaisquer governantes com um mínimo de realismo e juízo na cabeçorra aplicariam aos pobres uma tarifa reduzida, nunca essa medida nefelibata.

    1. A Grécia tem uma tendência inusitada para o calote. A todos os níveis. Nas últimas semanas, na expectativa de uma vitória eleitoral do Syriza, largos milhares de gregos deixaram de pagar imposto (que, de resto, quase nunca pagaram pois este país é de há muito o campeão da evasão fiscal e da “economia informal” na Europa). Este facto somado à mais que previsível fuga de capitais torna o programa de despesa pública no valor de 11,7 mil milhões de euros da nova coligação esquerda radical-direita radical em Atenas uma autêntica quadratura do círculo. A menos que descubram potes de ouro no fundo dos arco-íris.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *