Durante os três anos do programa de ajustamento foi criado um clima de pessimismo que será difícil desfazer. Muitos jornalistas, políticos e comentadores destruíram a auto-estima dos portugueses. As boas notícias foram sistematicamente apresentadas na sua pior vertente, quando a veracidade não era logo posta em causa. Enfim, a ideia da desgraça do País entrou nas consciências e autores de artigos de opinião que não acertaram uma única vez durante esta crise continuam tranquilamente a espalhar o derrotismo e a exercer a sua liberdade de expressão sem um mínimo de responsabilidade.
Um bom sítio para ver os efeitos deste problema é num curso para desempregados de longa duração. Sou testemunha. As pessoas deixaram de acreditar nas suas forças e dizem que é impossível o regresso ao mercado de trabalho. No grupo onde participo, há trabalhadores com excelentes qualificações, mas sobretudo trabalhadores indiferenciados, cujo desespero é evidente. Estas pessoas estão marcadas pela hipocrisia da sociedade e foram vítimas de demasiados gestos de indiferença. O pior, do seu ponto de vista, é a noção clara de não haver qualquer esperança. Segundo acreditam, a situação do País não tem saída e qualquer tentativa para incentivar o ânimo é vista como optimismo inútil.
O clima de catástrofe criado pela comunicação social vira-se também contra a própria. Os leitores perderam a confiança e recusam este massacre inesgotável, mas os autores com acesso a colunas de opinião não vão mudar, o que só prolongará a mentalidade da crise. Quem tenta sair da narrativa oficial da calamidade é imediatamente atacado pela brigada dos fatalistas, cujos membros falam sempre do alto dos seus empregos seguros e das suas opiniões superficiais.

Infelizmente, para desempregados de meia-idade (ou a caminho dela) e fracas qualificações, a viabilidade do optimismo é reduzidíssima: quanto ao mercado social de emprego, Guterres, que pretendeu lançá-lo em tempo de vacas muito menos magras, não o conseguiu, quanto mais agora (ou de futuro)… Entre os desempregados, acho que serão as maiores vítimas. Os qualificados e os jovens podem passar um mau bocado, incluindo a emigração, mas a gravidade da vicissitude não se compara, por deterem outros recursos e/ou o ânimo da juventude.
O problema é ter de escrever e aparecer para encher chouriços. Da sociedade ninguém deve esperar coisa nenhuma. Só o Presidente da República imagina lá no seu recato que os Portugueses querem viver uns com os outros. Como? Se uns apenas destroem tudo para vitórias circunstanciais?
Participa como formando ou como formador?
Sabendo isso, enquadra-se melhor o seu postal.
Fala como se a crise fosse apenas uma questão de narrativa. Como se não tivesse havido um efectivo ataque ao “factor trabalho” que traduzido para português comum é a vida das pessoas.
Desvalorizando-a em todas as suas dimensões, e colocando-a como carneiro sacrificial no altar dos mercados.
Não é só uma questão de discurso dominante, (que de resto o que domina é a afirmação contínua de que não havia e não há alternativas ao caminho escolhido, domina o pessimismo resignado, para garantir a complacência desses cujo desânimo lamenta). O pessimismo de que se queixa esteve sempre ao serviço do projecto político que defende.
A esperança só está na verdadeira alternativa: o optimismo da vontade de mudar.
Não foi só a comunicação social.
Quando um governo passa 3 anos a dizer que vêm aí sacrifícios e convida os portugueses a emigrar, não se pode esperar que, só porque há eleições, agora se acredite que afinal era mentira e está tudo bem.
Vejamos coisas noticiadas na comunicação social que aumentam o desespero, mas não por causa da comunicação social:
A segurança social vai despedir (ou por na prateleira, tanto faz) 700 trabalhadores, que estão a ser substituídos por desempregados que não têm direitos laborais.
Vai haver professores colocados na disponibilidade, apesar de o ministro ter clamado e batido no peito a dizer que tal não aconteceria (o ministro note-se, não os sindicatos).
A TAP vai ser privatizada e 50% dos seus trabalhadores são declarados publicamente aptos para o despedimento coletivo, ainda antes de se saber sequer quem é o comprador e se tenciona despedir alguém (quer dizer que nem o governo acredita que não vai haver despedimentos)
A PT vai ser vendida e provavelmente vai despedir bastante gente.
A troika já se foi embora mas continua a dizer que é preciso liberalizar despedimentos (flexibilizar o mercado de trabalho dizem eles).
Podíamos continuar por muito mais tempo,
É também importante abordar os dados realistas e não os actos paliativos que são feitos com uns para favorecer uns quantos, Luís.
Vamos aos dados: conomica-cai-09-em-dezembro-banco-de-por tugal=f807367
http://visao.sapo.pt/indice-de-atividade-e
Não me surpreendem os dados e não os uso para tornar as coisas piores que são, faço-o para revelar-lhe que a propaganda governamental faz-me compreender que a bota não bate com a perdigota.
E pretendo também ser tratado por estes governantes como a pessoa adulta que sou.