Boyhood é um filme que não vai andar nas bocas do mundo, é uma produção discreta, refinada, com orçamento baixo, condenada a não gerar grande receita de bilheteira. Mais um motivo para falar dele.
É produto do genial Richard Linklater e segue, em grande medida, o formato já adoptado na trilogia “Before Sunrise“, “Before Sunset” e “Before Midnight“, na medida em que foca o relacionamento humano com uma atenção sobre o amadurecimento das relações e o efeito do tempo. Tempo, aliás, é a palavra chave deste filme, que foi filmado em pequenos períodos ao longo de doze anos, durante os quais a evolução natural dos personagens foi acompanhando a narrativa, como retratado nesta imagem.
Não há, assim, cortes artificialmente induzidos, efeitos especiais ou máscaras. A evolução física é a evolução natural que registaram nas suas vidas e isso confere uma envergadura única ao filme. Envergadura também obtida em tudo o que é evolução do clima envolvente, a banda sonora que vai acompanhando hits dos últimos anos, passando de Sheryl Crow a Coldplay, a evolução dos computadores da Apple, começando com um dos primeiros iMacs e terminando com um MacBook, entre muitos pormenores históricos e políticos, que não vou desvendar. Nada ao acaso, garanto.
Implicou isto que, um dia, em 2002, Linklater olhasse para o pequeno Ellar Coltrane, ao tempo com seis anos, lhe adivinhasse potencial como actor, uma evolução psicológica e intelectual no sentido pretendido, falasse com os pais, e lhe colocasse nas mãos o projecto de uma vida: a realização de um filme ao longo de doze anos, até que fizesse dezoito. É fácil imaginar a incerteza e o risco que um projecto destes representou, em termos artísticos e de evolução do pequeno Ellar. O resultado, felizmente para nós, doze anos decorridos, às portas de 2015, é fantástico. Este filme é obrigatório, batendo ao pontos todos os blockbusters que vão dominar o cinema natalício.
Qual o critério para que um filme figure na história do cinema? Orçamento? Audiências? Impacto nos media? Naipe de actores? Podemos discutir isto horas a fio. Sempre me interessou mais a alma com que é realizado e interpretado, a mensagem transmitida, a forma como o drama emerge do écran e nos suga para dentro da história. Boyhood tem isto tudo, encanta ao longo de mais de duas horas e entra na galeria mais restrita de filmes que revisitarei ao longo dos anos.


E em que cinemas é que vai ser exibido? Ou como ver?
Luís,
Está em poucas salas, em Lisboa, Porto e Coimbra. Eu vi nas Amoreiras. Recomendo que vá ao Cinecartaz do site do Público e consulte. Abraço!
Intrometo-me na conversa só para informar que bastam dois cliques na barra lateral do DELITO.
Um: Informações Úteis: Outro: Filmes em Cartaz.
Nada mais simples. Feliz Natal.
Não posso estar mais de acordo consigo, André.
Vi o filme duas vezes e mesmo sendo suspeita (gosto muito dos filmes de R. Linklater) o cinema que me toca é este e não a acção e os efeitos especiais.
Totalmente de acordo, Isabel! Eu também sou suspeito. É importante que se partilhe o bom gosto… Feliz Natal! 🙂
Excelente dica, sou fã da trilogia referida se este é da mesma linha não posso perder.
Há outros campos em que não concordamos, mas quanto ao filme estou inteiramente de acordo!! Filme único, e com momentos reais. Bom comentário. Um abraço!