Mário Soares (com Salgado Zenha e Manuel Serra) no I Congresso do PS, em 1974
Já não há paciência para o uso e abuso de certos chavões na política portuguesa. Um deles – que escuto desde miúdo, há 40 anos – é a necessidade de “virar o PS à esquerda”.
Isto encerra dois equívocos.
Primeiro: desautoriza a identidade dos socialistas como força política de esquerda, por sinal aquela que é desde sempre a mais votada neste segmento.
Segundo: pretende arrastar o PS para fora do eixo governativo, tornando-o um partido inútil.
A verdade é que, em quatro décadas de democracia, os socialistas sempre governaram ao centro – ou não governaram de todo. Todas as cisões “pela esquerda” ocorridas no partido – desde a primeira, com Manuel Serra, logo após o congresso inaugural, em 1974 – não conduziram a lugar algum.
Mário Soares sabia disto como ninguém: nas duas ocasiões em que chefiou o Governo, nas décadas de 70 e 80, concretizou este objectivo aliando-se à direita – primeiro com o CDS, depois com o PSD.
António Guterres, que nunca obteve maioria no Parlamento, viu os seus orçamentos viabilizados não pela esquerda mas pelo centro-direita, alternadamente, com Manuel Monteiro ou Marcelo Rebelo de Sousa.
E José Sócrates, fiel à letra e ao espírito do Tratado Orçamental, nunca deixou de ser um dos políticos predilectos de Angela Merkel – facto que alguns dos seus mais abnegados discípulos tentam fazer esquecer por estes dias. De resto, na segunda legislatura sob o seu comando, o ex-primeiro-ministro socialista só conseguiu governar porque o PSD, com Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho, lhe viabilizou dois orçamentos do Estado.
A auto-intitulada “verdadeira esquerda” fechou-lhe a porta com o estribilho de sempre: o PS “pratica políticas de direita” .
Francisco Assis: o rei vai nu
Esquecer tudo isto é ignorar deliberadamente a contínua obstrução que as forças colocadas à esquerda dos socialistas sempre fizeram à acção governativa do PS, erigido em permanente adversário principal. Não deixa de ser irónico, portanto, que Francisco Assis seja agora o maior alvo das críticas internas no partido que acaba de sufragar a orientação política de António Costa por um voto quase unânime.
Qual é o seu delito de opinião?
Defender, como prioridade para o PS, aquilo que Soares sempre praticou: o bloco central revisitado. Algo que alguns actuais expoentes da “ala esquerda” do PS, como Ferro Rodrigues – e outros, como Vera Jardim, Vítor Ramalho ou o ex-presidente Jorge Sampaio -, defenderam no passado.
Assis – dotado de visão estratégica – revelou para já o mérito de ter sido o único socialista de primeiro plano a anunciar que o rei vai nu. Por outras palavras, a dizer algo óbvio mas que agora quase todos recusam reconhecer: que a “viragem à esquerda” levará o PS a esbarrar contra a parede.

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Mas então não se está mesmo a ver que uma coligação do PS com o Livre, o Forum Manifesto (raio de nome), a Renovação Comunista, e mais uns poucos, vai ter maioria absoluta?
Convém não esquecer o Movimento Alternativa Socialista, o Partido Operário de Unidade Socialista e o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado – Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses. Mais esse gambuzino político que dá pelo nome de Partido pelos Animais e pela Natureza.
Só o Partido Ecologista Os Verdes não adere à “frente de esquerda” porque o camarada Jerónimo ia sentir-se muito triste sem a foice e o martelo a roçar no girassol.
Não compreendo o post.
Os anteriores governos do PS seguiram as mesmas políticas que o atual está a seguir. Mesmo as diferenças de grau são mais facilmente explicadas pela conjuntura do que por diferenças ideológicas.
Para quem constata que este caminho leva ao desastre o PS e o PSD são indistinguíveis, mais escândalo menos escândalo.
Ora o que se pretende da oposição é que tenha ideias novas e proponha novas soluções, não que siga acriticamente a corrente dominante.
Os partidos não são donos dos votos, não é sério nem honesto propor um tipo de governação e após as eleições fazer acordos trocando as promessas eleitorais por cargos de governo.
O que diz são muito boas manobras táticas, mas se o que se pretende é governar a qualquer custo, então os que lá estão servem tanto como os outros.
Apesar de tudo ainda deve haver uma diferença entre eleições e um campeonato de futebol em que todas as equipas são iguais e só interessa que a nossa camisola ganhe.
Governar “à direita”, se bem entendi a sua lógica, será:
– Rasgar unilateralmente o Tratado Orçamental a que o Estado português está vinculado?
– Rejeitar todos os compromissos inerentes à nossa integração no sistema monetário europeu?
– Abandonar a União Europeia?
(corrija-me se estiver enganado)
Governar à direita neste momento significa:
praticar uma política económica que está a parar o tecido produtivo,
usar as consequências dessa política para justificar a diminuição de ordenados, o desemprego e o desmantelamento do Estado social (chegámos ao ponto de ouvir dizer que o problema da Segurança Social é a baixa natalidade, quando temos 30% dos jovens desempregados),
controlar através do capital financeiro cada vez mais os órgãos de comunicação social,
promover uma rotação entre cargos de poder político e cargos económicos (em que os governantes fazem negócios ruinosos para o Estado a favor dos grupos financeiros onde vão trabalhar depois de saírem do governo),
pedir consensos onde o que se pretende é que a outra parte continue a mesmas políticas não aceitando alternativas,
ter a desonestidade intelectual de não aceitar sequer que se discutam certos assuntos.
Não me lembro de o Tratado Orçamental ou os tratados da União Europeia terem sido alguma vez referendados pelo povo português, também não creio que tenham sido escritos na pedra no monte Sinai por nenhuma entidade divina. Eu sei que o povo é formado por simples que não frequentam os Passos Perdidos, mas talvez o governo pelo povo e para o povo não seja um ideal de estrema esquerda.
E “governar à esquerda” é… ?
O Pedro Correia está a ver mal a questão.
Isto não é um Sporting-Benfica em que o que interessa é a cor da camisola.
Só no futebol é que a definição da equipa define imediatamente a qualidade do trabalho (e só para adeptos fanáticos). Na política é bastante mais complicado, não basta dizer que é esquerda ou direita para dizer se é bom ou mau.
Aliás no caso do nosso centro esquerda e do nosso centro direita, só têm mudado as moscas porque a substância é igual.
O problema é que a “verdadeira esquerda” foge como o diabo da cruz de assumir responsabilidades governativas: prefere protestar contra o que há em vez de criar algo de novo.
Talvez a esquerda pense que se não ganhou eleições não deve governar com o programa dos outros.
Acusou a esquerda de não ser coerente, quando a única coerência que define é a “ida ao pote” seja com que pretexto for.
Aceitar como linha programática qualquer coisa desde que se possa colocar ministros é mais característico de um partido de “irrevogáveis às vezes”.
A questão que se põe é que se o PS quer governar com a Esquerda, está disposto a seguir uma política de esquerda?
Ou quer governar com os votos dos deputados de esquerda e com o programa de Passos Coelho?
Ou é lhe indiferente o programa que segue, porque o que interessa é controlar a máquina do estado que dá muito dinheiro?
A “verdadeira esquerda” não quer ganhar eleições. Porque isso a obrigaria a governar.
Não quer ganhar eleições mas quer impor o seu programa maioritário aos partidos vencedores. E quer sobretudo impor as suas teses ao PS que em todas as eleições realizadas em 40 anos de democracia foi sempre o partido vencedor à esquerda.
Há uma regra de ouro em democracia: governa quem ganha. Não quem perde.
Aliás, onde governa, a “verdadeira esquerda” chegou ao poder sem eleições e fazendo tábua-rasa da democracia. Na China, na Coreia do Norte, em Cuba.
Se governa quem ganha e a esquerda não ganha, não percebo o seu problema.
O PS quer ganhar dizendo o que agrada às massas (e começa a haver muita gente a gostar do que diz a esquerda), por isso quer o apoio da esquerda.
Mas depois quer seguir o que acha realista e pensa que a esquerda não tem direito a condicionar a sua política.
Não seria mau que o PS em vez de andar a propor “Socráticos”, “Seguristas”, “Costistas” e “Assisistas”, apresentasse uma ideia que fosse para variar.
Mas não considera que o PS seja um partido de esquerda?
É política, não é futebol. Isto não é coisa de apoiar a equipa lá da terra, faça ela o que fizer, é mais complicado.
Não sei se reparou que esquerda e direita são relativos. Pode-se estar à esquerda de uma pessoa e à direita doutra ao mesmo tempo.
Preocupa-me muito mais o que os partidos fazem ou o que pretendem fazer do que saber que lateralidade têm.
Se me conseguir apresentar as ideias que o PS e PSD têm sobre governo, sem ser o “deixem-ir para lá” ou treta de circunstância, agradeço.
Revejo-me afinal em várias das suas palavras. Estas, por exemplo: «Esquerda e direita são relativos. Pode-se estar à esquerda de uma pessoa e à direita doutra ao mesmo tempo.»
É verdade.
Hoje estou mais virado para o lado musical:
https://www.youtube.com/watch?v=YR5ApYxk U-U
Eheheh. Vem a propósito.
Apesar de subscrever o que foi dito lembro o ultimo programa do Santos Silva ; as sua observações parecem-me muito ajuizadas.
Gosto de ouvir ASS. Não o ouvi esta semana. Mas ainda estou a tempo. Obrigado por me ter chamado a atenção.
‘E um facto que o PS tem governado sempre, e principalmente desde 1995, com uma agenda ao centro, Guterres chegou até a dizer quando chegou ao governo, e eu vi estas declarações num telejornal, que “as politicas do governo (do PS) não são muito diferentes das politicas do PSD; a diferença é que nós governamos melhor”! Viu-se; o PS só sabe governar atirando dinheiro emprestado para cima dos problemas, pretendendo dar uma falsa imagem de governar com preocupações sociais.
Apesar de estar no campo oposto, sempre defendi, até aqui no Delito de Opinião, que o PS devia procurar entendimentos à esquerda para governar. Portugal e os portugueses precisam de um governo de esquerda que aplique as receitas da esquerda, porque aparentemente e tendo em conta as mais recentes sondagens, a maioria dos portugueses não aprendeu nada com o que se passou nos últimos anos.
Precisamos de uma vacina em “dose de cavalo”, para que de uma vez por todas este país possa ter um futuro decente reconstruído a partir dos escombros deixados pela maioria de esquerda.
Costa bem pode procurar “parceiros de esquerda” com a lanterna de Diógenes. Resta-lhe, no melhor dos cenários, ser o Manuel Valls português.
vê-se que o pc conhece a história da carochinha e do joão ratão, em que ambos os dois eram dotados de visão estratégia “assis”tida e deu no que deu.
este assis já está nu convento.
Noutra versão o joão ratão é papado por um animal feroz. História da carochinha também.
Em Outubro se verá quem tinha razão, Pedro.
A última “viragem à esquerda” foi na Câmara de Lisboa. Valeu a vitória e pela primeira vez a maioria na Assembleia Municipal. O problema de Assis é outro. “Virar à esquerda” é uma expressão ilusória e com pano para mangas, mas a seu tempo direi alguma coisa sobre isso. Aqui recordo que a moção de Costa fala em “grande espaço político da esquerda democrática e do centro-esquerda em Portugal”. É discutível, em especial porque se fala na confluência da “tradição da social-democracia, do trabalhismo e da esquerda socialista”. Mas não me lembro de alguma vez o PS se ter definido como partido do “centro-esquerda”.
Caro Sérgio, teremos ocasião de ir debatendo um pouco tudo isto ao longo dos próximos meses pois, à velocidade a que se processa a torrente dos acontecimentos políticos, não faltarão pretextos para isso.
A minha tese é que Assis se limita a proclamar agora (na linha, aliás, de um Valls em França ou de um Sigmar Gabriel na Alemanha – e já nem falo do “novo trabalhismo” britânico) aquilo que o PS sempre praticou quando foi governo em Portugal. Não desde os tempos do tão mal-amado Guterres (naqueles anos testemunhei de perto a fúria que tantos barões socialistas votavam ao “católico” e “moderadíssimo” líder do PS), mas do próprio Soares – que sempre governou aliado à direita e sob uma permanente chuva de críticas e até insultos da “verdadeira esquerda”. A que se esgota no protesto, esteja o governo que estiver.
Não interessa qual o rótulo que o PS utiliza em matéria de geografia política: interessa reconhecer que ou governa ao centro (vincando as suas características de “centro-esquerda”) ou não governa. Porque a verdade é esta: com Guterres ou Sócrates minoritário foi sempre a tenebrosa “direita” que lhes viabilizou os orçamentos do Estado.
No fundo, Assis defende hoje o que Soares já disse e praticou no passado. Ou o que já defendeu Sampaio. Ou Ferro. Ou Vera Jardim. Ou Vítor Ramalho. O espaço de expansão natural de um PS com ambições de Governo é o centro. Porque à sua esquerda só encontra intransigência sectária e hostilidade radical daqueles partidos que não querem assumir responsabilidades governativas de qualquer tipo e encaram os socialistas como adversário principal.
Nada de novo debaixo do sol.
Pois, Pedro, mas foi esse caminho que nos trouxe até aqui… (refiro-me a Portugal, não ao PS). Há outros caminhos, e não só para o PS.
O caminho era muito estreito, Sérgio. E havia um precipício na berma da estrada.
Mas não faltarão ocasiões para irmos comentando e até antecipando os acontecimentos. Embora eu me sinta cada vez me sinto menos capacitado para futurologia. Raciocinar a mais de seis meses de distância já é um raciocínio demasiado arriscado.
Repara nisto, por exemplo: no congresso do passado fim de semana o António Costa fez um elogio especial ao novo primeiro-ministro sueco, pertencente à família política do PS. Hoje mesmo fomos informados que o Governo sueco afinal caiu, por ter visto o orçamento chumbado, e haverá novas eleições.
Mas qual viragem à esquerda? O anúncio de um acordo com um partido que não existe, o Livre? Deixem lá o Costa ganhar as eleições e verão que isto é tudo conversa da treta.
“Virar 360 graus” à esquerda. Sem sair do mesmo sítio, portanto.