O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Eu só conheço a obra dele [António Lobo Antunes] até meados dos anos 90, mas não precisei de mais para o considerar um dos maiores romancistas vivos. A verdade é que muitos grandes escritores irão para a cova sem jamais terem escrito algo tão genial, divino e excelentíssimo como Fado Alexandrino.

Mas eu não percebo o que se passa com ele, como ser humano. É amargo, rancoroso, mesquinho, ensimesmado e arrogante, como se esperaria que fosse alguém a quem o mundo ignorasse o muito talento que possui. Mas ele tem excelentes críticas, tem centenas de milhares de leitores, é um dos escritores portugueses mais internacionais de sempre, tem veneras pelo mundo fora, os seus pares estrangeiros elogiam-no. O homem tem tudo para estar agradecido e ser feliz; trabalhou, esforçou-se, escreveu romances inigualáveis, foi recompensado por isso. Muitos escritores superiores a ele nunca tiveram tais sortes em vida.

Porém é de uma incrível insegurança. Não há entrevista com ele em que não se gabe do quanto os estrangeiros o lêem e admiram; em que não enumere os seus prémios; em que não se compare a um defunto nobelizado, como se vivesse traumatizado. Uma lição que muito devia aprender de José Saramago é uma chamada humildade. Das dezenas de entrevistas que já li dele, não me lembro de ele se congratular a si mesmo pelo número de traduções, leitores estrangeiros e prémios que tinha, ainda que o pudesse fazer, ele que foi o primeiro escritor português a receber doutoramentos honoris causa de certas universidades, ele que foi o primeiro recipiente do Prémio Nobel, ele que está traduzido em dezenas de línguas.

ALA também poderia aprender dele uma coisa ou duas sobre ser um embaixador da cultura e literatura portuguesas. Várias vezes me lembro de Saramago defendê-las em entrevistas e conferências estrangeiras, mas ALA só lhes tem ódio e nojo. Isto não é de agora. Se recuarmos até aos anos 90, quando Maria Luisa Blanco teve uma série de conversas com ele, já se encontrará nelas o desdém dele pelos seus conterrâneos. Com a do pigmeu, ele apenas baixou de tom, mas o asco já lhe anda a ferver por dentro há décadas. E o mais perturbador é que ele os julga mais severamente do que os próprios estrangeiros. Não sei se acredito nessa crítica demolidora de Eça num jornal inglês, o ALA tem o hábito de exagerar ou simplesmente inventar coisas, como a do livro dele que Saramago alegadamente atirou ao chão e do qual havia uma fotografia e tudo, excepto que não havia nem livro algum foi atirado ao chão, como depois uma testemunha do “incidente” veio explicar, sem um pedido de desculpas de ALA.

Pela experiência que tenho com amigos leitores anglo-americanos, o Eça é um deleite e estranham que não seja mais bem conhecido, porque acham que devia figurar entre os grandes do século XIX, e também lamentam que a barreira linguística e a falta de traduções os impeçam de conhecerem autores como Raul Brandão, Antero, Sophia, Camilo e outros.

Também acho repugnante a forma como ele desdenha a crítica literária portuguesa, e a sua mentalidade de dois pesos e duas medidas. Que chapada na cara deve ter sido para Maria Alzira Seixo e Ana Paula Arnaut descobrirem que afinal os livros que escreveram sobre ele não são crítica literária a sério. E depois cita Harold Bloom e Georges Steiner como defensores. O senhor deve ter perdido a parte em que Steiner considerou O Ano da Morte de Ricardo Reis o melhor romance português alguma vez escrito (com o que Saramago rapidamente discordou), assim como deve desconhecer o livro que Bloom organizou sobre Saramago (não há nenhum de ALA), para não mencionar que o seu Génio inclui Saramago e Eça entre os cujos. O mecanismo selectivo da sua mente é tão extraordinário quanto torpe.

O homem é patético, mas não merece pena; tem demasiado dinheiro, sucesso e admiradores para isso; do que precisa é estar calado e continuar a escrever os seus romances em linha de montagem, um por ano, em silêncio, para não exaurir a pouca boa-fé que ainda lhe oferecem.»

 

Do nosso leitor Luís Miguel Rosa. A propósito deste meu texto.

5 comentários em “O comentário da semana”

  1. O Saramago não foi à guerra. Já leu a entrevista (livro) com João Céu Silva? O homem tem problemas internos tramados talvez stress pós-traumático da guerra colonial, tanta infelicidade que causoue que se ignora.

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