«Ah! a burguesia brasileira! Antes era tudo afrancesado, agora é tudo americanizado. Os americanos são o povo mais vulgar que existe no mundo. Eles não têm história, cultura, nada, só dinheiro.»
Rubem Fonseca, Agosto (1990), p. 115
Ed. Publicações D. Quixote, 1991. Colecção Letras do Brasil, nº 3


A afirmação tem algum fundamento, mas não apenas para o Brasil, para toda a america latina.
Sim, mas no Brasil é mais evidente. Talvez por ser maior.
Serão o que se quiser, os americanos. Por norma, consagradamente crianças grandes (no que isso tem de pejorativo), tremendamente incultos e confundindo-se com o mundo que, diz-se, militantemente ignorarão a não ser para dele tirar partido (como se alguma vez fosse outro, valha-nos Deus!, o objectivo do jogo entre potências). Ah, e evidentemente, desprovidos de história, pecado o mais terrível entre todos, por se tratar – os EUA – de um estado recente (o que dizer então, por exemplo, na tão superior Europa, do caso italiano…).
Eu olho para Portugal, o tal estado europeu com as mais antigas fronteiras estáveis, tão orgulhoso disso e tão repetidamente falido, profundamente estúpido na sua incapacidade de ao menos aprender com os erros, verdadeiramente irrelevante no jogo político mundial, objecto indefeso da arrogante galhofa dos seus antigos territórios ultramarinos – Brasil (e de que maneira) incluído -, agarrado imbecilmente à única glória, tão efémera como sempre adiada, traduzida em patéticas vitórias morais, do futebol, com um povo dolorosissimamente inculto e embrutecido, venal até à medula; olho para a Europa, incapaz de se entender, a perder rapidamente importância enquanto economia e com já quase nenhuma enquanto potência militar, cultivando militantemente o passatempo do bater no “amaricano”, que a salvou há setenta anos, mas incapaz de se defender por mais do que um punhado de dias se o pior acontecer e ele, essa besta ignorante, não aparecer, a estiolar de forma ignóbil, olho para tudo isso e imagino como o americano, que – calcule-se! – até tem pintura, arquitectura, música, literatura (o Pedro Correia recorda-nos regularmente disso), investigação científica e sei lá que mais, se deve estar nas tintas para essas tiradas demagógicas, e esgotadas de tão repetidas, na busca de culpas alheias para o que são afinal culpas próprias, da alegada “intelligentsia” europeia. E, parece, da sul-americana.
E entre as sul-americanas, a brasileira. O Brasil, esse colosso de igualdade, harmonia, prosperidade, democracia, esse bastião da rectitude na política e no governo. Logo esse…
Não me interprete mal: nem vejo nos Estados Unidos da América o Céu na Terra, nem ignoro o que por lá há de mau. Mas um módico de pudor mandaria que se olhasse para as nossas telhas de vidro, antes de apedrejar as que os outros possam ter. É que é terrivelmente frágil o nosso telhado…
Costa
Não posso deixar de concordar com muito do que escreve, caro Costa. O trecho em causa, no entanto, serve essencialmente para satirizar/caricaturar uma certa burguesia urbana brasileira, sobretudo carioca, no período em que decorre esse excelente romance que é ‘Agosto’: a década de 50.
Li-o no passado mês de outubro e acabei de ler ontem “A grande arte” do mesmo autor. Agosto mistura ficção com factos históricos associados ao suicídio de Getúlio Vargas, um documento de entretimento e informação histórica num relato vertiginoso que concordo vale a pena ler e também recomendo
O outro livro é apenas entretimento e é uma obra-prima ficcional que também é imperdível.
Carlos: quando tiver oportunidade leia também ‘Grandes Emoções e Pensamentos Imperfeitos’. Outro romance dele que recomendo muito.
A inveja, xenofobia e aristocracia deste português brasileiro.
Cada um escolhe as palavras que prefere. Eu prefiro estas: lucidez, clarividência e desassombro.