O dia 9 de Novembro de 1989 teve enorme importância simbólica. A meio do Verão desse ano, dezenas de milhares de alemães de leste aproveitaram as primeiras brechas na chamada ‘Cortina de Ferro’ para fugir do seu país e a onda de refugiados atingiu tal dimensão, que o regime comunista da Alemanha Oriental não podia resistir muito tempo. Devido ao pânico da hierarquia, tudo se precipitou a 9 de Novembro. A dissolução da fronteira entre dois sistemas políticos antagónicos teve o seu ponto culminante no derrube do muro que dividia em dois a cidade de Berlim, mas o campo socialista estava já em pleno colapso e a Rússia perdia a Guerra Fria.
O muro era uma ferida com origem na divisão que resultou da Segunda Guerra Mundial. A sua destruição permitiu a reunificação da Alemanha, que 25 anos depois se tornou a força dominante da União Europeia. O dia crucial de 9 de Novembro de 1989 corresponde a um capítulo fundamental de outra narrativa, esta mais extensa, sobre a supremacia na Europa. Nos últimos 500 anos, o assunto mais importante da política europeia tem sido a definição do controlo de uma faixa de territórios onde se concentra a riqueza, a população e o principal património do continente. Esta faixa é perfeitamente visível do espaço, sobretudo de noite, e vai desde o sul de Inglaterra e dos Países Baixos ao norte de Itália, de Paris até Varsóvia ou Budapeste. No passado, quem controlou esta região, controlou a Europa.
Durante a Guerra Fria, uma fatia substancial da zona central do Continente esteve sob controlo soviético. Esta extensão do império russo entrou em graves dificuldades nos anos 70, incapaz de prosseguir a competição económica e militar com os Estados Unidos e respectivos aliados. Moscovo não conseguiu manter sob seu controlo países mais ricos do que a Rússia e foi o descontentamento crescente das populações submetidas que levou ao colapso da Cortina de Ferro. Os oprimidos resolveram o assunto, sendo interessante observar que a Alemanha, como potência, foi a maior beneficiária de um processo que não iniciou e no qual as autoridades embarcaram, de início, com algum temor.
Passaram 25 anos sobre a Queda do Muro de Berlim e podemos observar que este foi sem dúvida um dos episódios mais felizes da História recente. Nos chamados países de leste, cem milhões de europeus vivem agora em sociedades livres e prósperas. A Alemanha reunificada é a maior potência europeia, mas está firmemente ligada à França, Holanda, Itália e Polónia, sem esquecer a NATO. Existe portanto um equilíbrio: a Alemanha não é demasiado forte nem demasiado fraca, necessita dos seus parceiros e estes necessitam dela. Pela primeira vez na sua História, não tem inimigos nas fronteiras. Em vez de um cerco de hostilidade, há um cerco de alianças. Ninguém esquece que foi nos momentos de extrema fraqueza ou de hegemonia alemã que, segundo a poderosa imagem de Edward Grey (ministro britânico em 1914), “as luzes se apagaram na Europa”. A frase foi proferida há cem anos, quando começou a I Grande Guerra, e seria necessário esperar por 1989 para que a luz tivesse de novo uma verdadeira oportunidade.


Ainda visitei a antiga RDA. Cinzenta, fria e impessoal. E vi a festa em Berlim.Uma alegria sem limites com o povo nas ruas. Fiquei vacinado.
Nem todos os começos felizes terminam igualmente bem, a queda do muro e a ascensão da Alemanha unida trouxe poderio regional à nação germânica, mas tenho muitas dúvidas que esta e os restantes Estados tenham sabido depois criar um modelo de cooperação que venha acabar de um modo feliz. Penso até que a queda do muro acelerou o declínio da Europa no mundo.