Cadernos de um enviado especial ao purgatório (51)


Luís Naves,

O mundo em que vivemos será talvez lembrado daqui a meio século como uma época particularmente feliz: o tempo da terceira globalização, da segunda revolução industrial, uma espécie de renascimento que abriu os horizontes do saber e da cultura, a perspectiva da paz e do progresso. E, no entanto, o que acabei de escrever produzirá na maior parte dos leitores uma rejeição imediata.

A terceira globalização significa que as distâncias voltaram a encurtar e que sabemos agora o que se passa no outro lado do planeta. A troca de produtos, de dinheiro, de ideias ou de pessoas entre as diferentes sociedades nunca atingiu as actuais proporções. Também assistimos à criação de uma nova economia, com uma tremenda redução nos custos da comunicação e a mudança na forma de trabalhar. Vivemos numa espécie de paz prolongada. Somos bombardeados por notícias de conflitos, mas uma observação atenta permite perceber que se trata de guerras limitadas, com número de vítimas relativamente baixo. Tendo em conta as tecnologias disponíveis para os beligerantes, essas baixas deviam ser aos milhões. Na origem da maioria dos conflitos contemporâneos há geralmente interesses económicos mais ou menos disfarçados de questões nacionais e religiosas. O facto é que as maiores potências não se enfrentam directamente desde 1945 e não se vislumbra um confronto desses.

O enriquecimento dos países ricos tem tido soluços ocasionais, mas foi constante nas últimas duas gerações. A humanidade nunca foi tão numerosa, tão saudável e tão próspera como agora. Apesar disso, vivemos na ansiedade. Só vemos desigualdades, violência, ameaças, injustiças e ignorância. Identificamos um declínio na civilização que não é de todo evidente. Segundo a ideia comum, os seres humanos têm cada vez mais talento para a destruição, mas acontece o oposto: a humanidade tornou-se menos violenta e as forças da evolução parecem favorecer a generosidade e o diálogo. Sobre a política dizemos que tudo é cinismo e hipocrisia, mas a opinião pública nunca foi tão influente e tão esclarecida. Nos países industrializados, os cidadãos são prósperos e livres, as democracias são indiscutíveis e os direitos humanos universais.

19 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (51)”

      1. Extintos? Acho que não, infelizmente não.

        O capitalismo, valha a verdade, causou muito menos mortes do que o comunismo; doze ditaduras de direita sul-americanas, apoiadas pelos Estados Unidos, não conseguiriam somar tantos mortos como o Khmer Rouge no Comboja num ano. O que é belo no capitalismo, e o torna tão difícil de criticar, é que ele não mata, vai matando, aos poucos: acaba com empregos, empobrece nações, retira soberania nacional que entrega a empresas multinacionais através de acordos como o infame MAI, apaga direitos, extermina os progressos das condições laborais, torna inexequíveis os sindicatos, põe em marcha um retrocesso civilizacional que nos devolverá ao século XIX, habitua as pessoas a olharem apenas para o umbigo, elimina a coesão social, estimula o consumismo desnecessário, leva as pessoas a darem mais importância à marca de um produto do que à história e cultura do próprio país, distrai-as com mil e um entretenimentos, arrasa-lhes as faculdades críticas, e incute nelas a importância do dinheiro, o dinheiro, o dinheiro, por todos os meios o dinheiro.

        Realmente o capitalismo não mata porque precisa de consumidores para comprarem produtos enjorcados da China, que avariam ao fim de dois dias e depois têm de ser recomprados, provavelmente eliminado a longo prazo a vantagem de comprar aos chineses o que podia ter sido comprado, mais caro mas melhor, a outros produtores, que já não existem graças à ganância a que o capitalismo habituou os empresários, por isso a China é tudo o que temos; e fomos convencidos de que isto é o melhor a que podemos aspirar.

        O capitalismo é o apanágio do fruste e do medíocre, do facilitismo e da indiferença. Francamente preferia que andássemos a matar-nos uns aos outros, isso pelo menos significaria que ainda temos algo dentro de nós, que ainda somos humanos, em vez deste deserto de anemia que é a moderna condição humana e nos tornou todos autómatos programados para saber mais sobre o iPhone six plus do que dos heterónimos de Pessoa.

        1. Em resumo: o Miguel nunca esteve desempregado e nasceu, cresceu e viveu num meio que sempre lhe proporcionou um mínimo de conforto e o acesso a algumas coisas boas da vida .

          Entendido!!!

          1. Já estive desempregado, sim, se calhar em breve voltarei a estar, se a PT sempre vier ao fundo, e o conforto que tenho deve-se ao facto de ainda viver com os meus pais, que têm salários que a minha geração nunca terá; se eu vivesse sozinho, com a bagatela que ganho no meu emprego precário de contratos mensalmente renovados, viveria num quarto alugado, a feder a bolor e todo estragado, e teria de andar a controlar os euros para a luz, comida, gás, água, renda, privando-me de qualquer coisa para mim ao fim do mês; talvez tivesse de arranjar um segundo emprego, como alguns o fazem, caso contrário estaria apenas a trabalhar para subsistir para continuar a trabalhar, sem usufruir da vida de qualquer forma. É assim que vivem os meus colegas que optaram por sair de casa dos pais e agora têm cada passo da vida controlado pelo dinheiro; esta situação, de resto, é a vida como Henry Mayhew a descreveu no seu clássico de 1840, “London Labour and the London Poor;” é por isso que estamos num retrocesso civilizacional, estamos todos a regressar às condições dos século XIX. Felizmente não sei o que é isso, ainda, não sei o que é ser um dos meus colegas, por que não tenho a coragem deles, por outro lado tenho de viver com a vergonha de a) ser um parasita dos meus pais; e b) não ter os meios para viver bem sozinho.

            Portanto não me fale de confortos mínimos; isso, hoje em dia, não significa mais do que manter os básicos para se ir vivendo de dia a dia, para continuar a produzir a riqueza das empresas que depois fogem com todo o dinheiro para offshores e pagam impostos noutros países. Talvez para si isso seja suficiente e o melhor a que o ser humano pode aspirar, mas para mim é muito redutor.

          2. Foi muito decente da sua parte ter tido o cuidado de me responder e isso eu agradeço-lhe.

            Mas não lhe vou responder porque eu não tenho jeito para me chorar e muito menos para explicar a quem vive com os pais e não tem filhos (suponho) que se calhar sei o que é não ter pais com quem viver e sei o que é ficar desempregado aos 45 com 3 filhos a estudar e ter que começar tudo do zero absoluto a umas boas centenas de quilómetros da família (já se emigrava em 1990, talvez não se lembre, mas eu queria ver os filhos crescer).
            Usufruír da vida não sei o que é para si, para cada um de nós é uma coisa diferente.

            Portanto permita-me um conselho: lute mais e perca menos tempo a pensar no que é e não no que devia ser.
            Foi o que os meus filhos fizeram quando eu não lhes continuei a pagar a vida a que estavam habituados, dois deles ainda acabaram depois os cursos em horários pós-laborais.

            Toda a gente sempre teve todos os passos da vida controlados pelo dinheiro: alguém não lhe tem andado a contar a história toda…

          3. Parece-me mais que toda as conquistas de melhorias de condições laborais, sociais e materiais do século XX lhe passaram ao lado, por isso não repara no que se está a perder à sua volta, e não consegue por isso empatizar com os que sabem.

            Lamento que a sua vida tenha sido difícil, mas garanto-lhe que não foi pior do que as dos trabalhadores no século XIX; e se se preocupa com os seus filhos, não deveria ter tão displicente atitude, uma vez que eles vão ter de viver num mundo cada vez mais semelhante ao dele, onde é cada um por si, sem leis laborais nem sindicatos, sem contratos a tempo certo nem postos efectivos, de salários baixos que dão apenas para a subsistência, e quem sabe se não voltarão os turnos de 10 horas e 1 folga por semana.

          4. Eu tentei ser educado consigo mas não adianta quando se está a dialogar com alguém que se acha o máximo sentado em frente ao computador ao mesmo tempo que demonstra que não tem nada de máximo a enfrentar a vida.

            Deve achar que aqui pela net só andam pobres coitados a quem o Miguel prodiga migalhas do seu imenso saber e extensa experiência de vida.

            Portanto não sei o que é que me passou ao lado porque tenho duas licenciaturas “técnicas” (uma tirada mais tarde para ocupar os tempos longe da família) e usei as duas , fui director de várias empresas de média dimensão aí pelo país fora entre os 50 e os 65 anos, precisamente porque não perdi um momento a lamentar-me nem me acomodei a posto nenhum.

            Lamento assim desiludi-lo quando achou que eu era um operário mais ou menos indiferenciado à procura de uns biscates, isso só confirma a visão distorcida da vida que tem, defeito comum a quem não cresceu.

            Eu nunca disse que a minha vida tinha sido difícil, disse que tive que resolver assuntos em condições que V. não imagina sequer, o que é diferente, tanto que ao chegar aos 70 vivo sem dificuldades financeiras mas passei por muitas.

            E expliquei-lhe que nasci 30 anos antes do 25A na margem sul do Tejo: se não sabe o que isso quer dizer é porque não sabe nada.

            Sou além de outras coisas profundo conhecedor da história europeia da 2ª metade do século XX e escrevo sobre o assunto, pelo que as suas banalidades sobre História me deixaram “impressionadíssimo”.

            Os meus filhos têm todos mais de 40 anos e um deles até podia ser seu pai dado que V. só tem 30, todos eles emigraram quando ainda ninguém pensava nisso, voltaram, trabalharam aqui ou ali, um deles começou a entregar pizzas aos 18 anos para ajudar a família e hoje é director de uma companhia a sério e nenhum deles me parece preocupado porque amanhã faz as malas e parte outra vez, apesar de eles próprios terem filhos adolescentes, já em bébés os levaram.

            É claro que se eu os sustentasse nada disto era possível, continuavam “ad eternum” os meninos da mamã e do papá.
            Portanto ainda bem que houve uma altura em que eu não os pude sustentar, eles próprios dizem “ainda andávamos por aí a roçar o cú pelas esplanadas”(sic).

            É que nunca estiveram à espera que alguém lhes oferecesse um emprego garantido, os pais deles nunca os tiveram, a mãe até ficou “pendurada definitivamente” aos 50.

            Portanto pense bem no ridículo da sua figura ao fazer considerações sobre a educação dos meus filhos quando o Miguel ainda nem dos pais se libertou.
            Só lhe faltou falar-me com ar preocupado no mundo que vamos deixar aos netos, que essa é a suprema hipocrisia dos que nem filhos pensam ter…

          5. “nunca esteve desempregado e nasceu, cresceu e viveu num meio que sempre lhe proporcionou um mínimo de conforto e o acesso a algumas coisas boas da vida.”

            Há muitas ditaduras que também podem ser descritas assim; os meus pais sempre me disseram que no tempo de Salazar, quem se despedisse num dia, no outro arranjava logo emprego se quisesse.

            E um mínimo de conforto, até isso havia sob Pinochet e Estaline, quer dizer, não andava toda a gente na prisão a toda a hora; havia casas, havia roupa no corpo e sapatos nos pés, havia comida e transportes públicos e luz e gás e água potável. Havia cinemas e revistas e festas. E até um copo ao final do dia, no bar da esquina, depois de um turno de 12 horas, pode ser uma coisa boa da vida sob uma ditadura.

            Triste é que pense que as democracias ocidentais não deviam aspirar a mais do que qualquer ditadura consegue providenciar aos cidadãos, contanto eles não andem a conspirar contra o poder. É a isso a que nós chegámos? Damo-nos por satisfeitos com tão pouco? Um mínimo de conforto, um mínimo de segurança? A isso se resume esta era de ouro?

          6. Não, não há ditadura nenhuma que se possa descrever assim.
            Os livros são uma coisa e a vida vivida é outra e os anacronismos são ainda outra – e bem perigosa!

            Você ouviu falar da ditadura e leu umas coisas : eu nasci na outra margem do Tejo em meados dos anos 40.
            Portanto desculpe lá mas não discuto estes assuntos consigo.

            Os seus pais disseram-lhe isso mas não é bem assim.
            Como eu devo ser mais velho que os seus pais, vá por mim.

            Mas qual era de ouro?
            Em que planeta é que V. está?
            Os meus netos já andam a aprender mandarim, quase “imposição” minha …

          7. “Não, não há ditadura nenhuma que se possa descrever assim.”

            A sério?

            No Estado Novo não havia livros, música, festas de aniversário, namoros, casamentos, passatempos, cinemas, bares, encontros de amigos, passeios ao domingo, viagens ao estrangeiro, folgas, piadas e anedotas – era tudo um longo lusco-fusco de tristeza contínua, sem momentos de alento…

            Por favor! Quer mesmo que eu acredite que no Estado Novo, por exemplo, não havia um “mínimo de conforto” e “acesso a algumas coisas boas da vida?” Mas vivia em alguma caverna sem luz, comia bagas silvestres, tinha de ir defecar e urinar ao Tejo, tinha de ir buscar água ao mesmo, andava despido e descalço, nunca riu uma única vez no Estado Novo, não teve um único amigo durante o regime, um único momento de alegria em toda aquela cinzenta miséria?

            A sério?

  1. Esse mundo que enaltece foi em grande parte criado por uma mentalidade (política, económica, social) que os tempos actuais colocam em causa, e que os actuais lideres foram ensinados a odiar.
    Se as pessoas estão pessimistas é precisamente porque sentem que estão a ser colocadas de fora de uma riqueza que ajudaram a criar.

      1. Caro Luis Naves, vivemos um tempo de falta de memória.
        Os políticos, estadistas, e uma boa parte daqueles que os deviam aconselhar tecnicamente, esqueceram as lições da Grande Depressão.
        E não querem saber do que concluiu quem estudou a “Década Perdida” do Japão. Por causa disto estamos a incorrer em sofrimento desnecessário, e sob a capa do “rigor” faz-se um desmantelamento ideologicamente motivado de algumas importantes conquistas civilizacionais.

        Os aumentos de produtividade que as novas tecnologias proporcionam servem apenas para tornar redundante uma grande parte da população, em vez de servir para com uma melhor distribuição dos seus proventos, dirigir as economias mais avançadas para um modelo de sociedade com mais tempo para a criatividade, o lazer, a família, etc.

        O futuro poderá dizer que esta foi uma época de extraordinária mudança, isso concordo, mas apenas se este contra movimento de regresso a uma espécie de feudalismo for atempadamente parado.

        1. Uma visão de europeu acomodado no ócio e apesar de tudo rico.

          E de europeu que comeu todos os dias desde que nasceu e continua a comer.

          Os milhões de chineses, indianos e outros desgraçados variados que deixaram de ser redundantes e passaram a comer todos os dias estão lá bem longe, são estatística e paisagem, não é?

          O que interessa é “dirigir as economias mais avançadas para um modelo de sociedade com mais tempo para a criatividade, o lazer, a família, etc.”.

          Coisa fácil de fazer tendo em conta a evolução demográfica…

          1. “O que interessa é “dirigir as economias mais avançadas para um modelo de sociedade com mais tempo para a criatividade, o lazer, a família, etc.”.”

            Como é que isso vai acontecer? Antigamente acreditava-se que a ciência ia criar máquinas que fariam tudo por nós, libertando-nos para tarefas mais nobres; esqueceram-se de que a riqueza produzida por elas não ia ser partilhada com os que haviam perdido os empregos por causa das mesmas. Cada vez mais produz-se mais com menos pessoas, mas os lucros ficam nas empresas.

            Há mais desempregados do que nunca, de facto essas pessoas terão mais tempo para o lazer, a família e a criatividade, mas será um tempo de fome, de incerteza, de medo, pelo que lazer não haverá, a família provavelmente será o alvo da frustração, e a criatividade só será do tipo artista torturado, faminto, cínico e sem esperança.

  2. Um texto visionário que, como todos os textos visionários, é facilmente classificado de ridículo.
    A estatística nega a percepção leviana e mediática da actualidade. Basta ver quantos milhões de ser humanos lutavam há vinte anos pela sobrevivência (no ocidente enchiam-se jornais a debater o perdão da dívida dos seus países) e que agora pertencem à classe média das potências emergentes, potências essas que são agora detentores preocupados de títulos de dívida publica dos países ocidentais…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *