O que resta


escafandro,

Tem vinte e poucos anos. Ainda que apenas se dirija à janela para ver se chove, tende a caminhar em passo rápido, ligeiramente inclinada para a frente, como que guiada por uma ideia súbita que receia ter tido demasiado tarde. Pergunto-lhe: «Alguma vez viste um filme de Jacques Tati? Monsieur Hulot?» Reage com uma expressão de espanto. Desconhece os nomes. «Era muito mais velho, muito menos bonito e muito mais desastrado do que tu mas lembrei-me dele, ao ver-te caminhar.» A expressão de confusão no rosto dela intensifica-se. Está desconfiada. Sorrio. Digo: «Hei-de trazer-te o ‘Mon Oncle’.»

Quando já não se tem idade para acalentar esperanças de desempenhar outros papéis, resta o de Pigmalião. Ou parte dele. A parte, ligeiramente inglória, ligeiramente ridícula, que exclui a recompensa final.

8 comentários em “O que resta”

  1. E talvez aprecie “O Mágico”, de Silvain Chomet, baseado num argumento de Jacques Tati, filme de 2010. Permito-me recomendar.

    1. Ah, oui, grande filme. Merci pela sugestão. E até tenho o DVD algures (tive uma mudança de casa e muita coisa que tinha desorganizada está agora desorganizada de forma completamente distinta). Mas acho que vou mesmo levar primeiro o ‘Mon Oncle’ – sempre é Tati ao vivo e sei onde está. 🙂

  2. Ando há muito tempo com vontade de lançar uma série aqui no Delito sobre “filmes invisíveis”. Filmes que me marcaram muito, de que gostei imenso, e que nunca revi e que hoje praticamente ninguém vê.
    Este teu excelente apontamento sobre ‘Mon Oncle’ (obra-prima do cinema, um dos filmes mais inimitáveis que já vi) dá-me ainda mais vontade de lançar essa série.

    1. Boa ideia, Pedro. O estilo do Tati não é para todos (e talvez quase nada para os tempos actuais) mas os filmes dele são obras-primas de subtileza e ironia. Há quem considere o “Playtime” como o seu melhor filme (é o mais ambicioso, ao ponto de o ter levado à bancarrota) mas “Mon Oncle” acaba por ser o meu preferido, por me parecer demonstrar mais ternura pelas personagens.

      Agora há uma edição especial em Blu-ray com todos os filmes dele por cerca de 50 euros (preço actual na Amazon):
      http://www.amazon.co.uk/Tati-Collection-Blu-ray-Jacques/dp/B00GDEZNTK/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1413703936&sr=8-1&keywords=jacques+tati
      Eu tenho apenas quatro (“Jour de Fête”, “Les Vacances de M. Hulot”, “Mon Oncle” e “Playtime”), em edições mais antigas do British Film Institute. Considerando que paguei sensivelmente o mesmo, é um bocadinho irritante. Mas pelo menos têm capas mais bonitas; veja-se a do “Mon Oncle”:
      http://www.amazon.co.uk/Mon-Oncle-Blu-ray-Jacques-Tati/dp/B009120P7G/ref=sr_1_10?s=dvd&ie=UTF8&qid=1413709018&sr=1-10&keywords=jacques+tati+bfi)

      1. Também tenho esses 4 filmes, a certa altura houve por aí uma edição portuguesa da “Atalanta Filmes”.

        Terá começado pelos 50€ e acabado em quiosques e tabacarias a 25€, lembro-me de os ver na tabacaria do Continente de Évora (na altura Modelo) em 2004 ou 2005, trabalhei por ali algum tempo.

        “Playtime” foi muito ambicioso em termos de cenários construídos, não sei porque não o fez em cenários reais mas Tati era um terrível perfeccionista.

        Todos estes filmes trazem como bónus curtas-metragens anteriores e “L’École des facteurs”,que serviu depois de inspiração a “Jour de Fête” e “Soigne ton gauche” são pequenas grandes obras.

        Meu Pai tinha uma máquina de projectar e teria eu 14 anos (portanto aí por 1960) trouxe “Soigne ton gauche” de França, imagina-se o êxito junto da miudagem da época que lá ía a casa, ainda hoje há quem me fale nisso.

        De qualquer modo “Les vacances de Mr. Hulot” são o meu preferido mas isso tem a ver com o facto de eu ter 7 anos em 1953, ano em que foi realizado: eu “vivi” aquelas situações.

        Há 5 anos atrás o “políticamente correcto” fez esta barbaridade:

        http://www.lepoint.fr/culture/2009-04-17/tati-ampute-de-sa-pipe-au-nom-de-l-application-de-la-loi-evin/249/0/335802

        1. Não me lembro das edições da Atalanta. Nos últimos anos tenho privilegiado os blu-ray – na Amazon são muitas vezes quase ao mesmo preço e com o Ultra HD a caminho o DVD começa-me a parecer curto. (Não é que actualmente tenha um ecrã tão grande quanto isso mas sabe-se lá se o Costa nos põe a crescer a 7% ou 8% ao ano, o que nos permitirá a todos comprar Oleds UltraHD do tamanho de balizas de futebol…)

          Eu também gosto imenso do “Les Vacances de M. Hulot” – é só que o “Mon Oncle” me parece mais polido e com situações mais originais sem perder a espontaneidade e o carinho pelas personagens.

          Quanto às aberrações do politicamente correcto, já não há pachorra.

          1. A 1ª edição foi em Novembro de 2004, como pode ver aqui e é esta que eu tenho:

            http://www.ruadebaixo.com/jacques-tati.html

            Depois foi feita outra que pelos vistos ainda não esgotou, mas as capas são diferentes, muito no caso de “Há festa na aldeia” e “As férias do sr. Hulot”, quase nada nos outros dois:

            http://www.wook.pt/authors/detail/id/939107

            Claro que o DVD clássico já é um pouco curto mesmo que não sejamos dos que querem ver se a actriz X tem uma pontinha de buço, nisso concordo inteiramente.
            Mas há sempre muita coisa que não vamos comprar outra vez imaginando que se calhar só a voltamos a ver 1 ou 2 vezes na vida (ou nenhuma!), os “filmes da nossa vida” compram-se sempre outra vez com a melhor qualidade disponível, mesmo que seja só para saber que estão ali à mão.

            O crescimento prometido não irá decerto falhar, há coisas que bastam ser ditas por determinadas pessoas para serem certas, as sondagens aí estão para o provar , o povo tem sempre razão (e eu até voto PS, como ainda há dias aqui disse noutro post).
            Fico na dúvida é onde vou pôr esse ecrã, talvez na varanda e monto umas cadeirinhas na varanda do vizinho da frente.

            Eu percebi a leitura que fez do “Mon oncle” e estive quase para vir aqui fazer uma adenda no mesmo sentido do seu pois é de facto um filme “irrepetível” na simplicidade dos sentimentos, é o que está ali, sem máscaras.

            Tem toda a razão e é curioso que se eu como pai fui exigente q.b. (ainda hoje os meus filhos quarentões me tratam no gozo por “O pai tirano”, só referências cinematográficas), como avô revejo-me muito no tio Tati (há netos que até acham que eu tenho pouco juízo quando ando com eles).

            PS- “Pai tirano” mas educam os filhos como foram educados, o resto é conversa!

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