Os quadros das nossas vidas (7)


Teresa Ribeiro,

Há mais de um ano que tentava convencer a minha mãe a remover do quarto todos os resíduos daquela existência larvar a cheirar a pó de talco que eu queria esquecer. Tinha 15 anos, quase 16. Os laços rosa pálido do papel de parede atentavam contra a minha dignidade. As bonecas não combinavam com os Eças, Jorge Amados e Steinbecks que começava a alinhar nas prateleiras.

Até que um dia ela cedeu. Radiante, meti as bonecas na arca, fiz o escalpe das paredes e rumei à Dargil, na 5 de Outubro, onde de vez em quando entrava para namorar discos e os posters que um dia haveria de comprar para pôr no quarto.

Foi então que tive aquela epifania. Entre bandas metálicas e ícones do cinema descobri O Jardim das Delícias de Hieronymus Bosch, o holandês nascido em 1450 que viria a influenciar pintores do século XX como Salvador Dali. Não, jamais me passou pela cabeça levá-lo para pendurar à cabeceira da cama. Não era uma gótica, nem sequer andava lá perto. Mas a verdade é que não conseguia desviar os olhos daquelas criaturas grotescas que estranhamente me ameaçavam, sobretudo as da banda direita do tríptico, que representa o Inferno.

 Jung chamou a Hieronymus Bosch "o mestre do monstruoso". Com efeito nunca, desde que interiorizara a ideia de Inferno, alguém mo conseguira sugerir de forma tão avassaladora. As imagens de pesadelo deste mestre holandês pareciam imbuídas de um poder maléfico que, ao contrário de qualquer expressão artística de inspiração satânica, não me excluía mas implicava.

A força de Bosch está nesta sua estranha capacidade de nos convocar a contragosto para as cenas que pinta, como se recusasse deixar-nos ficar simplesmente a contemplá-las. Neste sentido podemos mesmo considerá-lo um artista de intervenção, embora esse epíteto aplicado a quem viveu no século XV seja, no mínimo, insólito.

Pouco se sabe acerca de Hieronymus Bosch, como convém, de resto, ao autor de uma obra tão enigmática. Especula-se que poderá ter pertencido a uma comunidade herética que defendia o amor livre, o que explicaria a sua forma desassombrada de representar cenas de sexo explícito numa época de profunda repressão moral e sexual. Mais crível é, porém, a versão que o identifica como membro de uma seita ultra-religiosa denominada Irmandade de Maria. Nesse contexto a sua obra terá emergido como uma catarse através da qual expiou os demónios que mais ameaçavam a sua integridade cristã. Não é difícil imaginá-lo. A catarse é o mais clássico indutor da actividade artística, porém na época ninguém ousou fazê-lo com tamanho arrojo, permitindo-se representar, sem qualquer subtileza, o material não editado que provém do inconsciente.

Não por acaso Jung chamou-lhe também "descobridor do inconsciente". E com esta afirmação não pretendia referir-se  apenas ao inconsciente do artista. Foi nesse papel de descobridor que o reconheci, por instinto, naquela longínqua tarde na Dargil. Como não é impunemente que nos mexem no inconsciente, depois disso voltei lá uma e outra vez, sob os mais variados pretextos. Nunca assumia que era para o ver. Mas era. 

20 comentários em “Os quadros das nossas vidas (7)”

  1. Belo pedaço de prosa! Sem desprimor, muito bem se escreve no feminino neste blog 🙂
    Bosch é um um espanto, ou não fosse flamengo.
    Vi este quadro no Prado, na altura estava numa das primeiras salas. Não há horas que cheguem para observar tudo quanto há para perceber aqui (digo eu).
    Só que realmente o meu quadro preferido continua a ser o nosso “Tentações de Sto. Antão”(sem ponta de nacionalismo…)
    – Mas afinal o que era isto, quem era este homem, a pintar assim em pleno séc. XV?
    Pré-simbolista? Pré-surrealista?
    Nos meus classificadores mentais, empíricos e impressivos, arrumo-o na categoria incomparável dos pintores “psicológicos”. E basta para ser alimento.

    1. Obrigada, Chloé. Também gosto muito de A Tentação de Santo Antão. Como gosto de A Nave dos Loucos, O Juízo Final, a Morte do Avarento, os Sete Pecados Mortais. Acho a classificação de pintor psicológico muito apropriada, embora seja consensual atribuir-lhe a categoria de pintor gótico da escola flamenga:)

  2. Não sou entendida. Só gosto ou não gosto. Só me sinto ou não interpelada. Bosch é dos pintores que me interpela. intriga e faz olhar mais e mais. Com os meus olhos, somente. Alcanço o que sou capaz. Teresa também este seu texto é muito estimulante. Porque a um tempo muito estrurado e sentido. Com a leveza da profundidade vivida. Levou-me a voltar ao quadro. E a recordar outros do mesmo autor.
    :))))

  3. Concordo com o João Carvalho e gosto de Bosch. A Teresa não foi gótica, creio que não pertence a nenhuma ceita, mas, está visto, assume-se como voyeur. (risada)

  4. Clap, clap, clap, Teresa. Parabéns. Belíssimo texto para um belíssimo quadro, que merece sem quaisquer dúvidas estar nesta galeria dos quadros das nossas vidas. Toda a obra de Bosch é de um arrojo sem precedentes, basta enquadrá-la na época tenebrosa em que viu a luz do dia. Catarse pessoal ou não, convoca todos os demónios que há em nós e faz-nos questionar o mundo e a nós próprios, e essa é uma das grandes vocações da Arte. Ainda hoje Bosh é desafiante como poucos, vários séculos depois. Isto diz tudo sobre a qualidade de um artista.

    1. Grazie 🙂 Concordo contigo, Ana: ainda hoje “ele é desafiante como poucos” apesar de ter vivido numa época de atrofia. E o seu estilo não se deixou ultrapassar. Só um génio consegue esta proeza.

  5. Muito bem, Teresa. Excelente estreia nesta nossa rubrica colectiva que vai prosseguir com outros textos. O Bosch está longe de ser um dos meus pintores favoritos, mas percebo bem as palavras do Jung e o fascínio que a obra dele exerce em tanta gente. É talvez o mais moderno dos pintores antigos.

  6. Obrigada, Leonor e Pedro. Entendo a rejeição que Bosch desperta em muita gente. É incómodo, perturbador. Mas o cliché aplica-se nele na perfeição: impossível ser-lhe indiferente.

  7. Excelente texto Teresa. Pessoalmente prefiro as Tentações de Santo Antão. A luminosidade deste quadro conjugado com o tema não me suscita tanta adesão como as Tentações, que me parece bem mais intenso. Advirto deste já que não percebo nada de pintura. Ou adiro ou não adiro. O exemplo da influência em Dali, poderão poderá ser visto aqui em Oeiras ao Palácio do Egito está cá uma exposição de esculturas e litografias de Dali, directamente inspiradas em Bosch .

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