A mulher natural


escafandro,

Excerto 1

Ingrid Bergman nasceu em Estocolmo em 1915. Com 12 anos tinha perdido ambos os pais mas era forte – as pessoas espantar-se-iam com a sua força interior durante toda a sua vida – e estava determinada a fazer carreira no palco. Cresceu alta e bela, com uma energia dramática que poucos haviam encontrado antes. Começou a fazer filmes na Suécia no papel de ingénue e estava a ser considerada para um contrato na Alemanha com os estúdios Ufa. (A sua mãe era alemã.) Mas no edifício nova-iorquino onde David Selznick tinha escritórios havia uma operadora de elevador sueca a que tinham chegado notícias de casa sobre quão gloriosa era esta Ingrid Bergman. Passou a opinião (conversa de elevador) a Kay Brown, uma das pessoas que descobriam coisas para Selznick. Descobrira E Tudo o Vento Levou, Rebecca, e mais tarde repararia na rapariga que se transformaria em Jennifer Jones mas nesta altura disse: «Há esta rapariga sueca…»

Para abreviar a história, Kay Brown foi à Suécia conhecer Ingrid. Encontrou uma mulher recém-casada com um bebé. Estaria ela disposta a desistir disto para ir para a América?, perguntou Kay Brown. Oh, sim, disse Ingrid, olhos bem abertos. É uma lenda moderna que as pessoas farão o que quer que seja pelo cinema.

Ela veio. Ela atravessou a América. Ela dirigiu-se à casa de Selznick, em Summit Drive, em Hollywood, num domingo, mas David estava nos estúdios – era 1939 e trabalhava em E Tudo o Vento Levou. Por isso a sua mulher, Irene Selznick, tomou conta de Ingrid (tornar-se-iam amigas) e levou-a a jantar e a uma festa. Selznick continuava sem aparecer. Por isso Ingrid dormitou e então Selznick apareceu. Olhou para ela e disse, Oh, meu Deus, você é alta, e os seus dentes, e precisa de maquilhagem, e o seu nome é demasiado alemão. Ingrid ergueu-se até à extensão total do seu metro e setenta e oito e disse, Olhe, isto é o que eu sou; isto é o que vai ter. Selznick sorriu e disse, Okay, vendê-la-emos como a mulher natural.

Numa questão de anos tornou-se a namoradinha da América.

 

Excerto 2

De facto, não obstante o marido e a filha (já na América), Ingrid era uma consumidora de homens compulsiva. Quando os homens gostavam dela e lho diziam, sentia-se sensibilizada e generosa e dormia com eles. É uma questão de segurança: se estranhos sentem dever amar uma estrela, ela pode recompensar quem quer que encontre.

 

David Thomson, The Big Screen – The Story of the Movies.

Edição Farrar Straus and Giroux, tradução minha.

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