“Desgastava-o uma necessidade de estar sempre em dois lugares ao mesmo tempo:
no seu corpo e fora dele, na cama e no varão da cortina, na veia e no cilindro, com um olho atrás da pala e outro olhando a pala, tentando sair deste estado de observação através de um estado de inconsciência, mas sendo depois forçado a ob-servar as franjas da inconsciência e tornar visíveis as trevas; cancelando todo o esforço, mas estragando a apatia com inquietude; atraído por trocadilhos mas repelido pelo vírus da ambiguidade;inclinado a dividir frases ao meio, articulando-as com a reserva de um «mas», mas desejando desenrolar a sua língua recolhida como a de um geco e apanhar a mosca avistada à distância com uma capacidade resoluta; desesperado por escapar à autossubversão da ironia e dizer o que verdadeiramente queria dizer, sendo que o que verdadeiramente queria dizer só a ironia o poderia transmitir”
“Alguma esperança & Leite materno” de Edward St Aubyn, tradução de Daniel Jonas, Sextante Editora

Patrícia,
a ironia é sempre ambígua, na medida em que nos coloca como alvos da mesma. Só por isso, ou por isto, nem sempre a língua de geco se solta tão facilmente.
Mas continuemos a ironizar sobre a ironia.