Cadernos de um enviado especial ao purgatório (28)


Luís Naves,

Tal como Pedro Correia escreveu mais abaixo, o mundo contemporâneo parece autocentrado, repleto de frivolidade e niilismo. E, no entanto, nunca houve tanta abundância, nem tal sensação de infelicidade. Nas sociedades industrializadas, toda a gente vive na angústia de cair para a base da pirâmide social, onde existe a minoria do gueto e a discriminação silenciosa.

Os ciclos políticos são cada vez mais efémeros, os casamentos mais curtos, há também a ideia de que a vida passa depressa, comprimida de forma frenética em dias que deixam poucas recordações.

Depois, há tantos objectos nas lojas, que nenhum deles se torna especial. As interrupções sistemáticas de aparelhos de comunicação não deixam tempo para pensar. De certa forma, estes aparelhos dificultam a comunicação humana: vivemos em rede, como as abelhas; e, paradoxalmente, o espaço em que nos movemos é cada vez menos público. Nas cidades, cada pessoa habita a sua solidão, o seu carro, a sua música, a sua minúscula casa. Não há tempo e não se conversa (aliás, ninguém o deseja).

Temos uma ideia mítica sobre o passado, que parece ter sido mais glorioso do que foi na verdade, e já não existe o povo de antigamente, pois também temos uma ideia falsa sobre o que somos. Agora, a vida é superficial e veloz, pessimista e obcecada com a beleza do corpo (que devia ser mera questão estatística).

O mundo tornou-se ruidoso, impaciente, e acima de tudo insatisfatório: obsceno nos seus desperdícios, decadente na sua arte, capaz de oferecer a abundância mais sufocante e o inverso, o sufoco da escassez para todos os que tombarem da horrível mediania.

 

3 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (28)”

  1. É verdade o que diz. Mas também não o é, pois neste mundo insatisfatório (quando não o foi?) é possível cada um de nós fazer a sua história e as suas escolhas, utilizar a rede das abelhas (ou das aranhas…) para nela “apanhar” amigos de verdade, pessoas como nós que afinal até gostam (e precisam!) de conversar, descobertas preciosas que nos extasiam de tanta humanidade e sabedoria. E com isso construir um mundo mais coeso.
    Em cada dia, tanto mais quanto mais enveredo por caminhos alternativos à tal mediania (de facto horrível se significar sítios do costume, palavras do costume, pré-conceitos do costume), encontro oportunidades que se me oferecem a cada passo – num livro antigo, numa conversa inesperada, nalguma pequena-grande heroicidade de algum “outro” que tantas vezes encontro e sempre me devolve a esperança.

  2. Apenas, caro Naves, para secundar a sua percepção – aliás, ninguém o deseja. Há, nos olhos de todos, ironias e cansaços. Mais das vezes, cansaços. Um esgotamento que nem o verão retempera.

  3. São questões que me parecem cada vez mais relevantes, Luís. Que sociedade egocêntrica, idolátrica e narcísica estamos a legar às gerações mais jovens? Que valores e prioridades? Como resgatar a noção de colectivo que parece tão fora de moda em contraponto a esta passarela de egos exacerbados fomentada pela cultura dominante?
    A febre de tudo revelar conduz ao desinteresse pela notícia digna desse nome. E ao nivelarmos (por baixo) a informação perdemos a noção de hierarquia. De caminho, vai-se diluindo o direito à privacidade, à reserva da vida íntima: tudo se escancara por igual em nome de um certo conceito de “transparência” que nada tem a ver com democracia.
    Tudo se banaliza, tudo se equivale – o bom e o mau, o certo e o errado.
    Nada de bom podemos esperar disto.

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