O poder do Sol (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Em Março de 1951, o presidente da Argentina, general Juan Perón, anunciou ao mundo que o seu país conseguira o extraordinário feito tecnológico de obter “libertação controlada de energia atómica”, o que significava o domínio da mesma energia produzida no interior do Sol. Perón era um dos líderes mais admirados no mundo, um populista que fazia uma equipa imbatível com a sua mulher, Eva, mais conhecida por Evita Perón, actriz que, seis anos antes, salvara a carreira política do marido convocando um protesto popular que lhe abriu caminho à presidência. O casal tinha carisma invulgar e tentava criar uma potência sul-americana, rival dos dois grandes, misturando políticas sociais, independência económica, nacionalizações, corporações, acções de massas e uma boa dose de autocracia.

Quando o general anunciou que o seu país domara a energia das estrelas, a notícia era credível, pois se havia alguém capaz desse milagre era mesmo Perón. A Argentina teria acesso a energia barata e abundante, seria uma potência industrial, mas infelizmente o anúncio foi prematuro e a notícia era falsa: em vez de conseguir a fusão termonuclear, Perón embarcara num dos episódios mais bizarros e dispendiosos da história da ciência.

 

 

A quimera nuclear argentina teve uma personagem principal, Ronald Richter, o austríaco a quem chamavam ‘El Alemán’ e que montou um ambicioso programa de investigação atómica na ilha de Huemul, no lago Huapi, perto de Bariloche, local paradisíaco que o próprio Richter escolhera em 1948, após ter convencido Perón de que seria possível obter energia termonuclear barata. Richter, de 39 anos, estudara física em Praga. Fora apresentado a Perón por um dos refugiados nazis que a Argentina acolheu por esta altura, o engenheiro aeronáutico Kurt Turk, que viria a desenhar o primeiro jacto de caça de concepção argentina e que nunca chegou à produção.

Embora não tivesse trabalho científico publicado, Richter passava por génio da física: os relatos que existem sobre a sua personalidade sugerem um homem calado e pensativo, capaz de dizer de súbito coisas espantosas, que entusiasmavam qualquer interlocutor. A sua ideia era produzir energia a partir da fonte inesgotável do hidrogénio, usando fusão nuclear, através de um processo teorizado por cientistas alemães, com base na concentração de ondas de choque e que, segundo pensavam erradamente estes teóricos, poderia ocorrer a temperaturas e pressões acessíveis à tecnologia existente. 

 

Provavelmente, foi desta forma que Richter convenceu o líder argentino e o seu núcleo restrito de militares, fazendo aprovar um projecto nuclear de onde estavam à partida excluídos os cientistas do próprio país, que teriam desacreditado facilmente os planos do austríaco, caso os pudessem ter estudado. A fusão nuclear necessitava de temperaturas e pressões elevadíssimas, que não podiam ser obtidas com a metodologia indicada, mas esta possibilidade coincidia com os planos de Perón, que procurava levar a Argentina por uma via alternativa aos dois lados da Guerra Fria. O general pretendia autonomia económica, criando uma sociedade com mais justiça social e amplo apoio popular.

Com este contexto, o projecto de Huemul foi envolvido numa atmosfera de conspiração e paranóia. Os contratempos eram atribuídos a sabotagem e o trabalho tornou-se progressivamente mais secreto e restrito, devido ao medo dos espiões. Talvez para ganhar tempo, Richter mandou desfazer o sarcófago de betão do reactor, para poder recolocar tubagens que considerou mal executadas. Os equipamentos eram caros e os custos não paravam de aumentar. Para os recursos do país, o projecto estava a ficar demasiado dispendioso.

Quando finalmente se realizou a primeira experiência, houve uma forte explosão que afectou a própria estrutura do reactor. Richter reclamou imediatamente ter atingido o objectivo e o próprio Perón fez um sensacional anúncio público, com repercussão mundial. Finalmente, concretizava-se o sonho da energia barata e virtualmente ilimitada.

Em 1951, ainda havia apenas três potências atómicas (EUA, URSS e Grã-Bretanha) e os próprios Estados Unidos estavam a dois anos de conseguir detonar a sua primeira bomba termonuclear. Aparentemente, a Argentina conseguira uma ruptura tecnológica que a colocava décadas à frente dos países mais poderosos do mundo.

Embora fosse notícia de primeira página, o anúncio da fusão termonuclear controlada foi recebido com cepticismo pela comunidade científica, incluindo pelos mais destacados cientistas argentinos. A experiência parecia ter falhas e, acima de tudo, não havia provas concludentes do resultado. O triunfalismo transformou-se em preocupação e o governo formou uma comissão científica independente para analisar o projecto.

Logo após a primeira inspecção, Richter caiu em desgraça. A sua reclamação não passava de uma fraude científica. As condições de temperatura eram milhões de graus inferiores às necessárias. Fora gasta uma fortuna e os militares livraram-se do embaraçoso cientista. Não se sabe por onde andou nos anos seguintes, havendo rumores de que passou pela Líbia. Tendo regressado à Argentina, Ronald Richter faleceu em 1991, praticamente esquecido.

 

Juan Perón, que estivera nos píncaros do poder, foi reeleito com facilidade, mas o projecto da fusão coincidiu com o início do seu declínio político. Evita estava debilitada por um cancro e morreria em 1952. O general era um político hábil, mas foi perdendo o controlo, sempre muito contestado pelos conservadores. Em 1955, seria derrubado, num golpe com episódios de grande violência. Perón escapou com dificuldade e passou os 18 anos seguintes no exílio, tendo regressado à Argentina em 1973, fazendo-se eleger para um terceiro mandato, que durou apenas dez meses. O general morreu na presidência, em 1974, e foi substituído pela mulher, Isabel, por sua vez derrubada dois anos mais tarde num novo golpe militar que deu origem a um período de terror, ‘a guerra suja’, durante a qual os militares tentaram decapitar os movimentos da esquerda peronista e comunista, fazendo mais de 30 mil vítimas.  O peronismo sobreviveu à ditadura militar e domina ainda hoje a política argentina, mantendo a sua forma populista, com elementos de socialismo e doutrina social católica.

Huemul deu origem a projectos de investigação séria, mas permanece como um símbolo das quimeras pseudo-científicas e um aviso para os perigos de confundir a política com os desejos mais profundos.

 

Passados 60 anos, o sonho da energia barata e abundante não desapareceu. No sul de França está em construção um protótipo de central de fusão termonuclear, o projecto ITER, que junta as maiores potências mundiais.

O objectivo é criar uma máquina complexa, usando ideias apenas testadas em escalas muito menores. No centro, está uma câmara (Tokamak) onde o combustível é aquecido a 150 milhões de graus centígrados, transformando-se em plasma, que não poderá tocar nas paredes da máquina. Para se ter um termo de comparação, as temperaturas atingidas por Richter, na sua experiência em Huemul, foram 1500 vezes inferiores. O ITER tem custo de 13 mil milhões de euros e visa provar a viabilidade desta tecnologia, que será então desenvolvida numa nova geração de centrais, capazes de multiplicar por dez a energia necessária para conseguir a fusão controlada. Se isto será possível, só saberemos na próxima década. 

  

 

   

 

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