Legislativas (3)


Pedro Correia,

SALAZAR VISTO POR SÓCRATES

 

"Ainda bem que houve alguém que a decidiu fazer", declarou José Sócrates na recente entrevista à SIC, referindo-se à antiga Ponte Salazar, actual Ponte 25 de Abril. O elogio, bem explícito, visava o homem que então mandava no País: António de Oliveira Salazar. Imaginem só se esta frase tivesse sido proferida por um ‘político de direita’ – de Santana a Portas, de Marcelo a Jardim, de Cavaco a Ferreira Leite: é fácil imaginar a torrente de indignação que de imediato inundaria jornais e blogues, numa sucessão ininterrupta de críticas ao ‘fascista’ que ousara enaltecer a máxima obra de engenharia do regime deposto pela Revolução dos Cravos. Sócrates, pelo contrário, passou incólume nesta nada inocente piscadela de olho a uma certa direita que ainda não desistiu de se deixar fascinar por uma certa esquerda. O homem sabe-a toda. Quem o considerar derrotado de antemão comete um profundo erro de análise: daqui até às legislativas, ele actuará com a obstinação de um comandante experimentado em campo de batalha. Está em jogo um dos combates da sua vida.

48 comentários em “Legislativas (3)”

  1. Estou aqui a pensar como é que posso acusar este post de perigosamente colaboracionista e, claro, de Passos Coelhista. O primeiro passo é fazer log out e escrever anonimamente. A inspiração aparecerá de imediato, estou certo. Em todo o caso, fique claro que só por alertar para que não subestimem o animal feroz é, desde logo, um peão da brega de Sócrates. Enfim, e mais uma catadupa de adjectivos que o anonimato seguramente me inspirará. Disse.

    1. Confesso que por momentos pensei que estava a ler o 31 da Armada e não o Delito… Tirar segundas ilações (ou sugerir que o facto de elas não terem chegado é parcial) só porque se elogiou uma obra do regime é o que se deve criticar, não o contrário…

        1. Não repito porque não alimento gozos de quem parece não saber levar adiante, nem respeitar, uma conversa contrária ao seu ponto de vista.

          1. Faça como entender. Por mim, lamento não ter entendido o que você quis dizer com isto:
            «Tirar segundas ilações (ou sugerir que o facto de elas não terem chegado é parcial) só porque se elogiou uma obra do regime é o que se deve criticar, não o contrário…»
            Se algum leitor percebeu, faça o favor de me explicar, já que a Sara não se dá ao trabalho de descodificar e eu hoje não estou virado para as entrelinhas…

          2. Eu acho que entendi, compadre. A Sara quis dizer que «tirar segundas ilações (ou sugerir que o facto de elas não terem chegado é parcial) só porque se elogiou uma obra do regime é o que se deve criticar, não o contrário…»

          3. Dado o ‘elevado’ nível da conversa, retiro-me. Bastante desiludida, porque acompanho o blog e as conversas geradas nos comentários e sempre elogiei o bom ambiente aqui gerado. As respostas que aqui vi neste post são em jeito de troça e um tanto ou quanto snobs. Fico triste…

          4. Assim vamos ficar todos tristes também. O único ‘snob’ sou eu. O Pedro apenas lhe pediu, sem sucesso, que explicasse melhor o que queria dizer.
            Apareça mais vezes ou vamos mesmo ficar tristes.

  2. Oh, Pedro,
    mas ainda não deu por o PREC ter acabado em 75 ?
    Essa argumentação, hoje, já não merece a atenção de ninguém.
    Mas se quer voltar a esse tema pergunto-lhe :
    Está a par das razões e negociações que levaram o VELHO DITADOR DE FUNESTA MEMÓRIA a aceitar a construção da referida ponte ?
    As razões são muito diferentes, são até opostas, às que Sócrates apresenta para a realização das obras públicas que agora propõe.

    1. Percebi que dá a entender que afinal não era Salazar quem mandava em Portugal em 1966, novidade absoluta para mim, e que o PREC acabou em 1975, coisa que aliás eu já sabia. Não percebi mais nada.

      1. Pelos vistos não quer perceber.
        Salazar mandava como ninguém e era o responsável pelos maiores crimes contra a Liberdade, e não só, realizados em Portugal desde 1933 até à sua morte.
        Mas Salazar era também um político, embora provinciano, retrógrado, e mais uma série de epítetos que não vou mencionar com medo de ser indecoroso, e como tal sabia aquilo, que muito embora não desejasse, era necessário ser feito.
        Portanto, deixemo-nos de brincar com as palavras e com os conceitos; sejamos sérios, porque estamos a falar de uma fase negra que ainda hoje condiciona grande parte da população portuguesa.

        1. Se bem entendi desta vez, discorda portanto do elogio feito por Sócrates a Salazar: podia ter dito logo à primeira. Percebeu então por que motivo escrevi este texto.

          1. Pedro,
            eu não entro no seu jogo de “jongleur ” de palavras.
            O que disse está dito e é perceptível ao mais inculto dos portugueses.
            Não alimento o seu ego.
            Saudações.

          2. Mas é isso que é importante ?
            Quer colar Sócrates ao Salazar ?

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            Mas é isso que é importante ? <BR>Quer colar Sócrates ao Salazar ? <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Quere-me</A> colar a mim ao Sócrates ? <BR>Tenha juízo ! <BR>A frase de Sócrates nada tem de politicamente impróprio que o cole ao ditador fascista. <BR>Por isso lhe chamei "jongleur " de palavras. <BR>O que quer é por demais visível e é isso que eu procuro desmontar. O seu texto não tem nada de inocente. <BR>É bom para incautos, não para velhos como eu.
          3. Continuo sem perceber o que escreve. E você, pelos vistos, não me percebe. Eu não quis colar o Sócrates ao Salazar. Ele, Sócrates, é que elogiou o Salazar. Capice?

          4. Existem para aí uns cursos “Novas Oportunidades”, que o Sócrates promoveu, destinados a melhoria cultural básica dos cidadãos.
            Não acha melhor inscrever-se ?

          5. Eu nem o conheço, mas se quiser envio-lhe o texto para que possa endereçar-lhe um cartãozinho para S. Bento.
            Sempre às ordens.

  3. Concordo com a sua análise Pedro, também a mim não me escapou essa nuance. Mas é normal que assim seja, as concordâncias tácitas são sempre mais “fáceis” entre inimigos do que entre gente da mesma área política, que necessita constantemente de se demarcar. É vida, como dizia o engenheiro :)))

  4. Pedro:

    Tens que aturar cada um, gabo a tua paciência.
    Mas apesar de tudo fiquei com uma dúvida existencial, será que ao elogiar o Dr. Salazar, o engº se estava a ver ao espelho ou a comparar-se ao dito?

  5. Caro Pedro Correia:

    Tenho uma leitura completamente diferente daquela que faz e que, mesmo os comentários que discordam do que diz, acabam por aceitar como motivo de argumentação.
    Não acho nada que Sócrates estivesse a elogiar Salazar. Acho que Salazar lhe é relativamente indiferente, não porque seja salazarista, ou coisa que o valha, mas porque não viveu no tempo em que combatê-lo moldava a vida e o pensamento político. Para ele já era. Agora estamos noutra.
    O que para mim essa frase tem de preocupante é que encerra, de modo inequívoco, a cultura de que ‘o que é preciso é fazer!’. [Possivelmente a escala nacional nem é a melhor escala para avaliar os estragos feitos por se partir do princípio de que o importante é fazer]. Não se trata de fazer bem. Chega fazer. É claro que a cultura imobilista reinante durante muito tempo dá, inicialmente, alguns argumentos para sustentar esta posição. É preciso arrancar. Começar. Tudo bem. Mas, convém não exagerar nas pressas e no atabalhoamento do que se faz.
    No meu dia a dia profissional já desisti de combater isso. E, contudo, perde-se mais tempo a emendar o que foi mal feito porque ninguém esteve para pensar muito antes, do que se gastaria a fazer as coisas bem feitas. Com a vantagem de não serem necessários remendos. Mas é aborrecido “partir pedra”. Pensar nas várias implicações dos problemas. Em suma, a cultura do rigor anda pelas ruas da amargura.
    Isto sim, faz-me confusão.
    Da minha experiência, acho que a partir de meados da década de 80 esta coisa do “pragmatismo” (um conceito completamente distorcido) assentou arraiais. Tanto que, mais tarde, uma das críticas ao Eng. Guterres se centrava exactamente no facto de ele não agir.

    Ufa que isto já vai longo e, são palavras de leiga.
    :)))

    1. Bem, Maria do Sol, ao menos a minha cara amiga escreve com clareza. Cada um terá a sua interpretação. A minha resume-se a isto: JS tentou demonstrar a MFL que, sendo ela uma pessoa conservadora, consegue ser ainda mais ‘imobilista’ que Salazar. Ao menos este deu luz verde à ponte de Lisboa, enquanto ela é contra o aeroporto, o TGV, as novas auto-estradas… Tão simples como isto.

  6. O homem sabe-a toda, disso não há dúvida. Mas eu vou ainda mais longe na interpretação do elogio: não é só a “uma certa direita” que ele pisca o olho. Em tempos de crise generalizada, caos económico e desemprego ao rubro, o povo começa a desejar um pulso firme “à antiga portuguesa” que salve a honra do convento, e Sócrates sabe muito bem disso. A piscadela de olho é mais abrangente, parece-me, porque se dirige a todos aqueles portugueses que, em entrevistas de rua, nas mesas dos cafés ou nas barbearias, dizem convictamente (como todos já ouvimos muitas vezes) “Um Salazar é que endireitava isto!”

    Antes que comecem a bater-me, digo já que não subscrevo esse desejo. Mas já ouvi a frase muitas vezes, e Sócrates também a conhece com certeza. Elogiar subrepticiamente Salazar pode render-lhe votos nas legislativas.

    1. A Ana mostra à evidência como sou naif. Porque tenho de concordar que pode funcionar tal como diz: “A piscadela de olho é mais abrangente, parece-me, porque se dirige a todos aqueles portugueses que, em entrevistas de rua, nas mesas dos cafés ou nas barbearias, dizem convictamente (como todos já ouvimos muitas vezes) “Um Salazar é que endireitava isto!” E como esta frase é arrepiante.
      :))

      1. Mais do que arrepiante é irritante, Maria. Porque a frase mostra bem, uma vez mais, como estamos sempre à espera de que alguém nos salve de tudo, em vez de nos dispormos a arregaçar as mangas e a tomar conta de nós próprios. O messianismo é bonito – poeticamente falando – mas é um fardo pesado para os portugueses.

        1. Nem sei se o messianismo não é sempre uma desgraça. Concordo que a frase é é irritante e, sem querer fazer ligações forçadas, acho que posso relacionar o que diz ” como estamos sempre à espera de que alguém nos salve de tudo, em vez de nos dispormos a arregaçar as mangas e a tomar conta de nós próprios” com a falta de rigor e empenhamento para que as coisas funcionem para além do umbigo, que eu referi no meu primeiro comentário ao post.
          :))

          1. A ligação não é nada forçada, pelo contrário. A passividade é a mesma, e pelas mesmas razões. Só no estrangeiro nos transfiguramos (enquanto emigrantes), vá lá saber-se porquê. A verdade é que somos vistos nos outros países como excelentes trabalhadores, desenrascados e competentes. Mas mal passamos a fronteira de regresso a casa e tudo volta ao marasmo do costume. É estranho, não é?

          2. Estranho é. E as causas têm de ser muitas e complexas. Um dia com mais tempo, mais cedinho e, sobretudo, sem ser depois de um lauto jantar de S. João, com um vinho excelente (rsrsr) podemos ‘trocar umas ideias sobre o assunto’. Fiz umas congeminações, como sempre à minha maneira. Fica combinado. Para quando der.

            :))

          3. Combinado, Maria do Sol. E agora também vou dormir.

            (nem me lembrei do S. João, imagino o delírio aí no norte…)

            Boa noite. 🙂

  7. “Ainda bem que houve alguém que a decidiu fazer”.
    Erro. Ele (o alguém) não *a* decidiu; não se decide uma ponte; faz-se uma ponte. Ele (o alguém) decidiu *fazê-la*; decidiu que se fizesse.
    Fui explícita? Frase corrigida.
    E ficava-me por aqui se o meu nariz não fosse tão curioso. A ponte veio em 1962, com mais de 80 anos de atraso. A construção foi adjudicada à United States Steel Export Company. O aço europeu era de baixa qualidade (excepto talvez o de Leste) e uns restos do Plano Marshall combinaram-se com a Guerra Fria e com a tranquilidade económica do império. Ponte e acessos rodoviários custaram 2.145 milhões de contos. Foi a maior ponte da Europa. E já havia uma guerra colonial. Datas e números estão no site da EP-Estradas de Portugal.
    Ah, os grandes empreendimentos! O que são 7.000 milhões de euros (mais as derrapagens previstas e as imprevistas) perante a glória nacional?
    E agora mando-me calar, que este post já tem dono.

  8. Sim, Pedro, uma magnífica ilustração salazarenta do nosso país actual!
    Quanto ao “combate da sua vida”, é mais do que evidente: que vida pode ter S. fora do poder? É o poder que justifica e suporta a sua existência.
    Tal como justificou e suportou a existência de S., o autor da ponte (outra magnífica ilustraçãom desta vez de um paradoxo…)
    Arno Gruen explica isto tão bem!

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