Escrevo “a situação não é tão má como a pintam” e logo surgem comentários que me atribuem a frase “a situação está a melhorar”. Os comentadores reagem de forma ofendida e enumeram exemplos de calamidade, como se eu negasse que a crise esteja na origem de muitos dramas na sociedade portuguesa. Nunca defendi essa ideia, nem poderia defender.
O meu País vive dentro de um fado triste, preso ao seu destino trágico. Não havia alternativa à mudança, mas tentar desfazer o mito da desgraça colectiva é um gesto condenado a esbarrar num muro de convicções. Durante três anos, foi criado um ambiente negativo que visava, de forma objectiva, limitar a extensão das reformas estruturais. No caso BES, as autoridades actuaram de forma aparentemente eficaz (foi evitado o colapso geral), mas a culpa foi de imediato atribuída ao governador do Banco de Portugal e ao Governo, os mesmos que estão a resolver o problema.
Quem tenta mudar o sistema costuma enfrentar dificuldades inesperadas, pois actuar contra os interesses que dominam a nossa sociedade tem elevados custos de reputação. Apesar de saber isso, estou surpreendido com a violência dos ataques ao governador do Banco de Portugal.
Os acontecimentos dos últimos dias mostram que existe desta vez uma diferença: depois de conduzirem o ajustamento, os parceiros europeus estão a alterar também o nosso capitalismo da treta. Ao longo da sua História, Portugal viveu crises regulares seguidas de longos períodos de cristalização dos regimes políticos, que apodreciam na árvore. Esta estranha forma de vida acabou. Na actual crise, está a ser tentada a via reformista e pretende-se que, no final da transição, o País seja mais europeu. Os interesses instalados tentam contrariar as reformas e convencer a população a resistir à mudança. Eles sabem que a manipulação da percepção da realidade é a mais eficaz continuação da política.


Sejamos rigorosos.
Houve apenas um comentário, meu, que invocou o facto de o Luís vir afirmando que “a situação está a melhorar”, e não alterar o discurso, apesar da realidade do BES.
A 9 de Junho, ainda antes da tormenta do BES, escrevia o Luís:
A tempestade começa a dissipar-se, mas os que anunciaram o naufrágio iminente não aceitam ser desmentidos pela realidade.
Ora o que acontece, como escreveu o outro Luís, é que o BES trouxe quase uma tempestade perfeita, e o caricato, ou talvez mesmo ridículo, é o Luís insistir no mesmo discurso, escrevendo agora “a situação não é tão má como a pintam”, o que é uma forma de manter o discurso, querendo agora esconder na dupla negativa uma positiva.
Não tenho nada contra que faça o papel positivo, laudatório de uma governação em que foi assessor de Miguel Relvas. Acho bom para o debate que haja vozes discordantes, e que cumpra a sua parte.
Agora, também me parece claro que não era pior, até para si e para o governo, melhorar os seus argumentos. É que nalguns casos, enfim…
Percebo perfeitamente que se queixe de uma opinião pública que é desfavorável ao governo, e que tente ver como causa algum jornalismo menos alinhado… indo ao ponto de usar Liberty Valence como modelo de lenda.
Porém, o que parece ser-lhe difícil compreender é que é a opinião pública desfavorável que alimenta o próprio jornalismo desfavorável, e não o contrário.
Aliás, têm-se visto sistemáticas tentativas de colocar um tom positivo no jornalismo, com o foco estival de Portugal estar no top turístico, etc.
Isso não altera minimamente a percepção de que as coisas estão mal, e se ainda houvesse maior dissociação entre a realidade e o jornalismo, ocultando os problemas, ou tentando sistematicamente ver as coisas pelo “lado menos mau”.
Esse lado distópico de Orwell, de forçar uma informação oposta à realidade da população, foi há muito substituído pelo lado distópico de Huxley, que não se importa com o aspecto negativo, desde que se entenda que somos uns sortudos por termos escapado de algo pior.
E assim, tem toda a razão, não estamos metidos numa guerra civil, como na Ucrânia, temos índices de alfabetização superiores ao Burkina Faso, e apesar de estar no fim da lista da zona Euro, os idiotas esquecem que é já uma sorte pertencer à zona Euro.
Só que a satisfação com o que temos não gera melhorias, pelo contrário. Pior ainda é quando tentamos mascarar as mais recentes desgraças, confiando na solução de um regulador que “não regula bem”, e que passa de certezas de sonhos de “almofadas financeiras” para pesadelos de “fio da navalha”, num súbito acordar de olhos fechados para a realidade.
Portanto, o triste fado não é a desgraça que sentimos, é a desgraça que vemos.
Se vemos mal, pois faz muito bem em mostrar, o que é inútil ou malicioso é tentar pintar como boa uma realidade má. A confiança não se gera dizendo que um aumento de 90 mil empregos é bom… pelo contrário, o que governo deveria dizer é que isso não satisfaz, e o que vai fazer imediatamente para criar os próximos 90 mil. Isso é que poderia gerar alguma confiança adicional.
Porque é óbvio que a situação pode piorar, e não estamos muito mal, estamos apenas muito pior do que em 2010. E não reconhecer isso é que é uma tentativa inútil, e não valerá a pena varrer para debaixo do tapete essa realidade que entra pelos impostos, pelos salários, pelas pensões, pelas falências, etc…
Achar que este é o país na melhor solução possível, e não apresentar outra coisa que não sejam interpretações convenientes de números, deixando o barco ao rumo dos mercados e da Europa, é que é um fado, um fado daqueles que não honra a história portuguesa.
Oh Luís mas porque é que voce acha que precisa de gastar o seu tempo e energia a justificar-se tanto. Entao mas afinal nao leu aquele texto que linka ali em baixo?
“Sólo aspiro a seguir trabajando tranquilo. Por lo demás, siempre ha habido lectores que te aprueban y otros que te suspenden”
Justificar-se? As opiniões agora são auto-justificações? Estou a levantar um problema, mas a discussão parece ser impossível. As pessoas têm a liberdade de ler, de concordar, discordar, deixar de ler, o que quiserem, mas poupem-me aos comentários paternalistas ou a comentários que tentam desvalorizar a minha opinião fazendo pequenos CVs a martelo…