Durante oito meses, circularam nas televisões e nos jornais as teses mais desencontradas e mirabolantes sobre o chamado “caso do Meco”, que custou a vida a seis jovens universitários numa trágica madrugada de Dezembro. A opinião pública foi bombardeada com teorias e supostas verdades propagadas por quem se pôs a adivinhar e viu nesses palpites uma excelente forma de ganhar audiências e vender papel.
Faltava escutar a única voz autorizada para falar sobre o que se passou. João Gouveia, o solitário sobrevivente, fala enfim. Numa extensa entrevista à revista Sábado que constitui um inestimável documento humano e um notável trabalho jornalístico iniciado meses antes para ultrapassar a compreensível relutância do jovem. Só agora João acedeu em prestar declarações públicas, já sem condicionalismos de ordem processual porque a investigação foi arquivada pelo Ministério Público. E ainda bem que o fez. Para ele próprio e para o esclarecimento dos factos.
Do ponto de vista jornalístico, esta foi a vitória da persistência. Após muitas recusas, muitos prazos adiados, muitos telefonemas que ficaram por devolver. Mas valeu a pena para obter esta manchete em discurso directo: «Se não tivesse encontrado o gorro também estaria morto.”

Está de parabéns o director da revista, Rui Hortelão, também autor desta entrevista de dez páginas em que tudo se pergunta e a tudo João Gouveia responde. Como se estivesse no consultório de um psicanalista a fazer uma catarse através da confissão. Com declarações impressionantes, como a que descreve o momento em que ele e os colegas foram engolidos pela onda assassina na praia do Meco: «Foi um tempo muito curto, uns minutos. Eu fui o último a sentar-me, e estivemos a conversar um pouco. Só que eu comecei a sentir muito frio, a humidade parecia que estava a entrar-me no corpo. Então levantei-me, e o Tiago também, segundos depois fomos levados pela onda. Foi tudo muito rápido…»
Perdeu seis amigos, esteve às portas da morte, foi vilipendiado em centenas de textos escritos por quem não o conhecia de parte alguma. Regressa agora, do mundo do silêncio onde se refugiara, para contar a verdade dele. Que será também – para sempre – a verdade dos companheiros que já cá não estão para falar. «Aquilo que mais me custou foi ver os meus colegas a serem expostos da maneira que foram pela comunicação social e as insinuações que fizeram sobre eles, não estando cá para se defenderem”, revela à Sábado.
Por capricho do destino, ninguém poderá contradizê-lo. Isto confere uma força acrescida ao testemunho de João Gouveia, o sobrevivente do Meco. É um duvidoso privilégio: ele não deixará de arrastar este pesadelo até ao fim dos seus dias. Resta-lhe aprender a conviver com a memória dolorosa daquela noite fatídica.
Ninguém fica indiferente ao ler esta entrevista. Eu não fiquei. E estas linhas são a prova disso.

Houve um acidente em que há a lamentar a perda de vidas humanas, não nos termos de afastamento sentimental, portanto exige-se um
mínimo de respeito pelos familiares enlutados e por toda a comunidade instituída de capacidades para a investigação criminal e não criminal,
o que não corresponde ao aceitar sem reprimendas o arquivamento do processo. A Justiça tem de ser tão célere como os tempos exigidos
pelos procedimentos legais, logo não temos de tolerar que haja uma verdade única e incólume à prova recolhida, mesmo que os
depoimentos dos vizinhos tenham sido utilizados, no que era mais fácil e habitual. Perante uma estupidez e desejos associados
de respeito e medo, 6 vidas foram enroladas e resvaladas para próximo da plataforma continental, por quem mais força teve e fez
prevalecer o ocaso, que não era o caso previamente delineado, mas eis que então o movimento do mar fez das suas e surpreendeu.
Um trágico acidente que comoveu o País e fez perder seis vidas – quase sete. Era imperioso registar declarações do sobrevivente. Elas aí estão. Ao juízo de cada um.
Não li esta entrevista.
Ouvi dizer( ou seja li por aí) cobras e lagartos sobre ela.
A credito que o jornalista seja isento, assim como acredito que o que quer que tenha acontecido no Meco, foi uma tragédia ( falo como progenitora e mãe-de-praxadas), um drama sem paralelo que levou os que partiram e destruiu os que ficaram.
Acredito que tenha havido uma grande dose de inconsciência, mas o mar já mata há séculos, todos os anos, todos os meses. É tão belo quanto letal.
Uma perda é um vazio. Também eu teria um buraco negro no lugar do coração. Lapidar um culpado alivia a dor, mas não traz ninguém de volta.
A verdade, essa está enrolada em cada gota de espuma, na rebentação explosiva que tudo arrastou consigo.
É como diz, Dulce: «Lapidar um culpado alivia a dor, mas não traz ninguém de volta.»