Passos Coelho tinha dito que o Estado não seria obrigado a salvar o BES. Que não haveria dinheiro dos contribuintes lá metido, que seriam os privados a arcar com os prejuízos. Concluí, ingenuamente, que seriam os “capitalistas” a resolver o problema. Mas o que se vê, ao contrário do que foi afirmado e da mensagem que o governador Carlos Costa quis passar, é que estamos perante uma nacionalização encapotada do BES. Ainda que temporária será paga com o dinheiro que não saiu do bolso dos seus accionistas, que não saiu do bolso dos privados e cujos custos serão pagos, uma vez mais, pouco ou muito, com juros ou sem juros, por todos.
Já sei que muitos dirão que o dinheiro do Fundo de Resolução não é dos contribuintes – a CGD já foi privatizada? -, que o que não vem de lá veio da troika, e outras falácias de igual quilate que servirão para enganar o povinho enquanto o primeiro-ministro vai a banhos no Algarve, o Presidente da República – que sabe sempre tudo e avisa sobre tudo e mais alguma coisa a tempo e horas e nunca fala quando deve falar -, está mudo e calado, e a ministra das Finanças desapareceu em combate.
Os incómodos ficarão para o Banco de Portugal – este também ainda é público, penso eu – e o seu actual governador. Afinal o mesmo que desde Setembro de 2013, apesar de já ter ideia do que se passava, acreditou durante quase um ano que aquela corja que permitiu que se andasse a gozar com o dinheiro que os depositantes lhe confiaram se podia manter em funções, situação que só terminou in extremis há bem pouco tempo. E foi preciso para tal ver os esqueletos começarem a fugir dos armários onde se iam desconjuntando, ao mesmo tempo que se estatelavam desamparados à nossa frente assim que a porta se entreabria. De repente, eram tarsos e metatarsos para um lado, fémures caindo por outro, rótulas e tíbias deslizando soalho fora. Só então o Banco de Portugal se apercebeu que aquele ia ser mais um buraco sem fundo.
O BES, que respirava saúde, a tal instituição financeira sólida de que o primeiro-ministro e o Presidente da República falavam, liderado por e ligado a gente que abominava o Estado e a intervenção deste na economia, enquanto engordavam engravatados porquinhos cor-de-rosa que aproveitavam todas as oportunidades para se queixarem da falta de liberalização da economia e viam qualquer intervenção do poder político na sua coutada como uma ofensa de lesa-pátria, acabam a ter de ser salvos, ao soar do gongo, por esse mesmo Estado.
Todos esses quadros muitíssimo competentes que passaram por algumas das, agora sinistras, organizações desse universo de que o BES fazia parte e que estão a contas com a justiça (sujeitando-se à intervenção pública dentro e fora de portas, como é normal entre arautos do neoliberalismo de pacotilha), entretanto alcandorados ao exercício desses lugares de serviço público onde se “perde dinheiro”, de repente desapareceram todos. Evaporaram-se. Não há agora um desses merceeiros ricos, dos que convivia com os senhores do BES e da Goldman Sachs e se passeavam por Nova Iorque, que apareça para dar cara pelos amigos ou, pelo menos, para vociferar na televisão pública contra esta intervenção. Não há um que se chegue à frente e diga ao Banco de Portugal para ficar quieto porque já reuniram, entre eles evidentemente, os fundos necessários para acudirem à situação e safarem os seus depositantes. A matilha desapareceu. E quando um ou outro é apanhado numa esquina e lhe põem um microfone junto às beiças já não vociferam. Deixaram de falar mal do Estado e limitam-se a lamentar a sorte dos compinchas. Dos tesos ricos.
Esta é a incontornável verdade que a muitos dói, em especial a todos aqueles que sempre acharam excessivo o que o Estado gastava com a saúde e com a escola dos portugueses. Os que queriam tudo privatizado, até um bem tão essencial como a água, ao mesmo tempo que escondiam milhões na Suíça e em paraísos fiscais de além-mar aproveitando para promoverem a construção de hospitais privados e apoiarem as iniciativas das escolas privadas que os ajudariam a progredir ainda mais nos negócios, contando que o Estado lhes financiasse o negócio para atenderem os seus próprios contribuintes.
Sim, porque em causa nunca esteve qualquer reforma do Estado, qualquer melhoria das qualidade dos serviços que este prestasse, a procura de uma relação equilibrada entre o custo e o benefício para uma maior eficiência. Em causa esteve sempre, esse foi o objectivo desde a primeira hora, o desmantelamento do Estado para benefício de meia dúzia de figurões que sempre dependeram da teta do Estado, das PPP’s e de mais umas quantas aberrações que inventaram para prosperarem com dinheiros públicos nos seus negócios privados, se necessário fosse abusando da confiança de terceiros, colocando a máquina do Estado ao serviço dos seus interesses particulares. É para isso que na sua perspectiva serve o Estado.
E eu, que não sou, nem nunca fui, apologista da presença do Estado em áreas onde não deva estar e que admito a sua presença nalguns sectores em sã concorrência e sem favores com os privados, vejo o El Pais escrever que “aunque el Banco de Portugal no pronuncie la palabra, es una nacionalización en toda regla“.
De igual modo, o USA Today diz-me que é Portugal, leia-se o Estado, quem saiu em auxílio do BES e que “the Bank of Portugal was spurred to action after it realized that using public funds seemed to be the most viable solution“. O New York Times, que deve ser uma espécie de Acção Socialista do camarada Obama, esclarece que “the Portuguese government will provide most of the money for the rescue in the form of a loan“, e o Estado de Minas, via France Press, esclarece os seus leitores que “4,4 bilhões serão retirados do envelope de 12 bilhões destinado à recapitalização dos bancos no âmbito do plano de resgate de Portugal“. E a insuspeita Bloomberg escreve que “Banco Espirito Santo has been forced to take public money after regulators uncovered potential losses on loans to other companies tied to Portugal’s Espirito Santo family and ordered the lender to raise capital“. Até o Figaro escreve que “Le gouvernement a, semble-t-il, hésité à puiser dans l’enveloppe de 12 milliards d’euros réservée aux banques dans le cadre du plan de sauvetage du Portugal. Mais aujourd’hui, avec les 6,4 milliards d’euros qui lui restent à disposition, il était le seul à pouvoir renflouer l’établissement dans les plus brefs délais“.
Perante isto, com a imagem externa que esta operação tem, bem podem dizer aos portugueses que a solução encontrada não é uma nacionalização. Por mim até lhe podem chamar Euromilhões. Ou Ajuda de Berço. Ou Banco Alimentar. Ninguém acreditará. Nem mesmo a chanceler Merkel, a tal que disse acreditar no PEC IV. Lá fora ninguém acreditará numa só palavra do que digam sem ver as contas finais.
E quanto aos portugueses, estão tão fartos de aldrabões que até quando aparece alguém sério desconfiam. Eu também.

Não sei se esta solução no fim não acabará por fazer com que todos os portugueses contribuam com os seus impostos para cobrir uma maior ou menor parte dos vícios dos abutres da finança, mas pelo menos há um esforço para não se cometer o erro do BPN e simplesmente passar para todos nós as custas da corrupção.
Contudo, é interessante o incómodo que este esforço gera naqueles que desejam simplesmente culpar o atual Governo e as voltas que dão para dar a entender que Passos está a fazer de modo encapotado o que fez Sócrates e a resguardar-se.
Arrastar o Banco de Portugal para a responsabilidade de falência do “Banco Mau”, é passar um cheque dos contribuintes a todos os que vão mover inúmeros processos judiciais. Arrastam a credibilidade e a responsabilidade do Banco de Portugal ao ponto de não ser claro se haverá dinheiro no Banco de Portugal para pagar o duplo disparate.
Duplo, porque o primeiro disparate é inventar um Novo Banco, que basicamente é um presente para Vitor Bento ser banqueiro do governo com dinheiro do Estado.
O segundo disparate é achar que os credores do Banco Mau vão aceitar as suas perdas e não vão accionar todos os mecanismos contra o Estado, responsabilizando-o pelas suas perdas.
Não é pior que o BPN? Pois não, é muito mais vezes pior…
Não… não é… e até que a justiça pretendida pelos abutres vença, levará muitos anos a arrastarem-se em tribunais… claro que há também a hipótese da justiça se vender aos abutres e fazer com eles diferente do que faz com os cidadão comuns.
Tipo swaps, pagos á cabeça sem pestanejar …………………
Tem toda a razão, temos assistido a grandes piruetas, principalmente por parte daqueles que gostariam que se repetisse a novela BPN: os contribuintes arcarem com os prejuízos, e os accionistas ficarem com os activos à boa maneira socialista. A realidade futura poderá até vir a dar-lhes razão, mas o facto é que o banco hoje abriu às 8:30 da manhã, quem ficou com os calotes foram os accionistas, e até agora não saíu um centimo do OGE. Ora esta realidade está a incomodar muita gente que pede a todos os santinhos que os media não se ponham a fazer comparações entre as actuações do governo socialista no BPN e deste governo “neoliberal” no BES.
Só a duas razões o levaram a escrever este poste: – Ignorância ou má fé…
Vou pela primeira: – Não há dinheiro dos contribuintes envolvido na operação..
Não há. O empréstimo do Estado será reembolsado com ganhos para o erário público, uma vez que o banco irá pagá-lo com juros mais altos do que o do empréstimo da troika*… Foi assim no BCP, BPI e Banif.
O resto é pura mentira… demagogia !
Há muita gente a precisar de ir a banhos… para o Meco!
* Concedido para o efeito em alinhamento com UE /BE
Diga isso aos analistas estrangeiros.
Vamos passar só a confiar nos analistas estrangeiros…
Para a melgas os comentadores económicos e técnicos tugas!
Porra, duma vez por todas: O pilim ( pode ser que assim entenda melhor) posto pelo Estado no banco pertence ao Fundo de Recapitalização da Banca”… carcalhois que a troika deixou especificamente para o efeito… com aval da EU e o BE ! Cheta que será reembolsada com juros mais elevados do que é paga à troika… Não foi assim no BCP, BPI e no Banif?
Isto chegou ao cumulo e desfaçatez do PS querer uma reunião urgente da AR!
Ps que nos levou à ruina.. PS do BPN! PQP esta gente!
Facto:
Os portugueses vão fazer um empréstimo de quase 5 mil milhões a este Novo Banco (via dinheiro da troika, via tesouro português, via fundo dos bancos).
Questões:
1- O empréstimo é que prazo?
2 – O empréstimo é a que juros?
3 – Conseguirá o Novo Banco ser vendido a mercado no final deste ano a novos investidores? E por quanto?
4 – E se a venda foi a valor inferior a estes 5 mil milhões? E se for a 2 ou 3 mil milhões?
5 – Os restantes bancos que compôem o fundo bancário têm capacidade para restituir 2 ou 3 mil milhões ao Estado até final do ano? Como se pediram há pouco tempo emprestimos ao mesmo Estado para se recapitalizarem?
6 – E se, tal como foi no BPN, quanto mais auditarem as contas maior será o buraco descoberto? E se os 5 mil milhões não chegarem, se for preciso ainda mais?
7 – E os processos que irão começar a entrar na justiça contra os reguladores e o Estado por quem já tudo perdeu? Quem pagará as indeminizações?
Conclusão:
Se as coisas por acaso correrem mal, o que nem é de todo assim tão improvável, os contribuintes vão ficar a arder e bem.
Pode ser que corra bem, mas o risco está lá… e é todo do lado dos contribuintes portugueses.
Sinceramente a esta altura do campeonato e com uma solução nova, ninguém sabe bem o pode vir por aí. Substancialmente existem três riscos: O NOVO BANCO precisar de mais capital; (2) o FUNDO não pagar o empréstimo; (3) os riscos legais da solução adoptada, «banco mau» vs «banco bom, credores, accionistas…
Neste momento qual era a melhor solução para a economia nacional? Enquanto os legisladores continuaram «adormecidos»…
O autor ficou desiludido por nao se ter nacionalizado e seguido o modelo do bpn
Não, não fiquei. E até admito que esta possa ser a melhor solução para os portugueses. Mas não gosto que me vendam gato por lebre. Pergunto se o dinheiro da CGD no Fundo é privado, e se a situação dos depositantes podia ser salvaguardada sem a intervenção pública. Sem o dinheiro da troika que veio resgatar da pré-falência o Estado, em 2011, e sem a acção do Governo.
O resto, é conversa fiada:
http://www.jornaldenegocios.pt/mercados/d etalhe/resgate_ao_bes_impulsiona_bancos_ portugueses_acalma_bolsas_europeias_e_fa z_descer_juros_da_divida_publica.html
Cá está a prova de que isto não foi uma nacionalização e os contribuintes nada têm a temer… ou então não 😉
http://observador.pt/2014/08/04/defice-e stado-sobe-com-emprestimo-para-o-novo-ba nco/
O empréstimo que o Governo aprovou ontem para o Fundo de Resolução, que vai buscar 4,5 mil milhões de euros ao dinheiro da troika que veio para a banca, vai ter de ser contabilizado no défice público, confirmou o Observador. Tendo em conta o montante, e partindo do pressuposto de que a execução orçamental corre bem, isto pode significar que Portugal chega ao fim do ano com um défice de 6,6% em contabilidade pública
Só leu metade da história: pode contar para o défice, mas não implica um défice excessivo. Se quer saber porquê vá ler o resto…
Se conta para o défice é porque é dinheiro dos contribuintes, os tais que não têm nada a temer… se quer saber porquê tem que parar de fazer spin, ainda fica tonto.
http://economico.sapo.pt/noticias/soluca o-vai-ter-custos-para-os-contribuintes_1 99106.html
Solução vai ter custos para os contribuintes
Operação vai ao défice. E vai retirar liquidez ao Tesouro.
Afinal, ao contrário da mensagem que o Governo e o Banco de Portugal passaram no domingo, a solução encontrada para o BES vai ter custos para os contribuintes. A ministra das Finanças confirmou ontem à noite que a operação tem impacto no défice.
Chamo atenção para esta notícia: udou-lei-domingo-para-dar-poderes-ao-ban co-de-portugal-pr-aprovou-na-hora/
http://observador.pt/2014/08/04/governo-m
Passos Coelho é um comissário dos grandes capitalistas e por isso nunca beliscará os seus interesses e nunca defenderá os interesses gerais e comuns dos cidadãos. O sr Carlos Costa, a sra ministra, o dr da cmvm, os políticos do dito asco do poder idem, idem, aspas, aspas. Alguém de bom senso e atento pode dizer que “ainda confiava que P Coelho estava a dizer a verdade” ? O caso BES é uma burla, como toda a gestão financeira das entidades bancárias e quejandas o é quando entra na especulação, nos negócios ligados à política burguesa, na corrupção de governantes e figurões partidários. O caso do BES desenvolveu-se para a opinião pública por sucessivas mentiras e encobrimentos vindo dos reguladores, quais sejam o PR, o BP, a CMVM, o PM, o Portas, o Frasquinho, o Seguro (enfim todos os que se calaram depois das denúncias
feitas em sede de comissão parlamentar). Agora anjinho, anjinho só o é quer quer !!!