A tradução (sei por experiência própria) é uma actividade incompreendida e mal remunerada. Há felizmente boas e notórias excepções, mas muitas vezes as traduções ficam a cargo de quem não tem preparação para o efeito. Não falo em termos estritamente técnicos, mas estéticos, literários. Traduzir uma obra literária exige mais do que sólidos rudimentos linguísticos: exige também uma adequada preparação literária. Que transcenda a simples tradução literal. Para não vermos a expressão idiomática “it’s raining cats and dogs” traduzida por “chovem gatos e cães”.
Não por acaso, durante décadas algumas das mais celebradas traduções em Portugal estiveram a cargo de conceituados escritores. E nem preciso referir o exemplo já histórico de Eça de Queirós, tradutor d’ As Minas de Salomão. Basta mencionar – entre tantos outros, no século XX – Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões, Cabral do Nascimento, Adolfo Casais Monteiro, José Blanc de Portugal, Jorge de Sena, José Saramago, Mário-Henrique Leiria, Alexandre Pinheiro Torres, Urbano Tavares Rodrigues e José Cardoso Pires.
Hoje isso sucede cada vez menos. Com reflexos óbvios na perda de subtileza da linguagem e na degradação da qualidade literária de muitas traduções.

A disciplina de Teoria da Tradução é das melhores recordações que guardo da universidade.
Ora aí está uma disciplina que eu gostaria de estudar.
Quantas vezes o prestígio de uma obra além fronteiras, não depende da capacidade do tradutor para entender adaptar os preciosismos da língua original, Pedro.
É bem verdade, Dulce. Diz-se por exemplo que ‘A Selva’, de Ferreira de Castro, na tradução francesa de Blaise Cendrars, é uma obra-prima do romance europeu do século XX.
Quem é que diz isso?
Pode ler-se aqui, por exemplo, com opinião de Jorge Amado: 4/01/05/retratos-com-historias-ferreira-d e-castro-por-eduardo-gageiro/
http://aviagemdosargonautas.net/201
Pergunto-me se hoje os escritores traduzem menos porque já não precisam de o fazer? Nos anos do fascismo, os empregos eram poucos para os escritores, que estavam na lista negra como oposicionistas e por isso a vida laboral era-lhes dificultada. Traduzir, dirigir jornais e revistas, editar antologias, esses eram os biscates que amigos lhes arranjavam, porque sabiam que estavam necessitados.
Hoje, creio, a situação mudou; o escritor tem um qualquer emprego fixo, das 9 às 18, e escreve à noite. Já não precisa desse biscate, talvez?
Entretanto surgiu uma nova classe de tradutores profissionais, formados em universidades; não vou julgar o mérito ou demérito deles em relação a escritores, mas como hoje em dia tudo se mede por canudos e não talento ou vocação, se calhar a maioria dos escritores nem consegue arranjar emprego de tradutor porque lhe falta “habilitações.” A não ser que tenham um grande nome que seja uma mais-valia em vender a tradução; como as do Saramago, ninguém dava nada por elas quando era desconhecido, andavam esgotadas, mas agora reeditam-se porque são dele, e faz-se questão de colocar o nome dele na capa.
Sim, os escritores eram tradicionalmente professores, jornalistas ou tradutores. Alguns acumulavam a tradução com aquelas (ou outras) actividades. Houve depois um tempo de tradutores profissionais, alguns muito respeitados. Hoje há de tudo um pouco, do excelente ao péssimo. Mas perdeu-se o salutar hábito de escritores de outras épocas que faziam questão de traduzir obras que os tinham apaixonado. Foi o que fez Miguéis com o ‘Gatsby’, de Fitzgerald. Ou Sena com ‘O Velho e o Mar’. Ou Alçada Baptista, com uma obra de Borges, ‘O Relatório de Brodie’. Ou Palma-Ferreira, com ‘Ulisses’, de Joyce. Ou Vergílio Ferreira, que traduziu Sartre.
Hoje isso apenas sucede a título excepcional.
Tomo a liberdade de acrescentar à sua lista,o Poeta José Bento!…
Que se abalançou a traduzir o D. Quixote. Não me referi a ele por estar vivo e (tanto quanto sei) no activo. Mas podia ter mencionado outro hispanófilo, Fernando Assis Pacheco, que traduziu Pablo Neruda e García Márquez para português.