Pela primeira vez desde que esta série existe, há mais de cinco anos, decidi destacar não um mas quatro comentários. Os que se seguem.
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«Os alunos do Zimbabué estudam Shakespeare na edição escolar habitual em inglês, que segue a ortografia de 1670.
E jo, que presumo português e que terá tido o português como língua mãe (ao contrário dos estudantes do Zimbabué) diz que “ainda” consegue ler Eça, que escreveu em 1900?
Se o inglês de hoje tem a mesma ortografia que tinha quando Dickens escreveu e se o francês tem a mesmíssima ortografia que tinha quando Victor Hugo escreveu e se a ortografia do português mudou tanto desde que Eça escreveu; se a Inglaterra e a França são países sem analfabetismo, sendo nós o país com mais analfabetos da Europa, não será altura de começar a reflectir sobre o assunto das reformas, “evoluções” ortográficas, etc? Então o inglês e o francês não “evoluem”? E “evolui” o português porquê? A reforma de 1911 parece não ter contribuído para nenhuma melhoria da nossa literacia e nos últimos 40 anos de democracia a nossa distância medida em taxa de alfabetização em relação à vizinha Espanha não diminuiu: entre os nossos vizinhos e nós há 20 países mais alfabetizados de permeio – todos eles sem reformas nem acordos ortográficos.
Que pensa? O problema não deve ser a ortografia.»
Do nosso leitor Tomé. A propósito deste texto do Sérgio de Almeida Correia.
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«Aparentemente, nos tempos de Dickens as pessoas eram mais sensíveis às misérias que as crianças sofriam, por isso havia quem escrevesse sobre o assunto, porque havia público. Se alguém o fizer hoje, ninguém liga, excepto se se conseguir arranjar um enredo tipo telenovela mexicana, como no caso da Maddie, incluir figuras públicas, como no caso da Casa Pia, ou assumir contornos tenebrosos, com muita pobreza à mistura, como no caso do Daniel e da mãe.
A verdade é que as pessoas, a sociedade, o modelo triunfante deste capitalismo / individualismo / egoísmo / consumismo / materialismo e outros ismos em que estamos submergidos nos levam a pensar pouco. Especialmente nos outros. Mesmo em nós evitamos pensar. É mais no que podemos ou não comprar…
Vamos gerindo o dia-a-dia, na esperança de não sermos atingidos pelo desemprego, tentando conciliar os cortes dos nossos salários e os aumentos brutais de impostos com o cumprimento das nossas obrigações e a ver se sobra algum para finalmente trocarmos o carro e conseguirmos ir de férias.
Durante o dia, lufa-lufa e muito ruído. À noite, comprimidos ou televisão para conseguirmos adormecer.
Temos lá tempo para pensar nas crianças…»
Do nosso leitor Simões Pereira. A propósito deste texto do Rui Herbon.
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«Tudo tem um botão com a inscrição OFF, ou coisa equivalente. É sempre possível desligar tudo. Deixar ficar talvez o leitor de CDs (máquina, parece, já anacrónica; e com ela eu) que sempre nos pode oferecer qualquer coisa calma (anacronismo) e compatível com umas páginas de papel e tinta (outro anacronismo: papel e tinta; isso e o hábito de ler). Sendo certo que o silêncio (mais um anacronismo) é para a leitura talvez o melhor companheiro.
Isso e bastar-se uma pessoa com uma conta ou duas de e-mail, consultadas regularmente. E um vulgaríssimo chat – Skype ou Messenger -, usado com parcimónia, por exemplo se alguém querido está longe.
“Redes sociais”, não uso. Prezo a minha intimidade e a noção de vida privada (mais anacronismos), e não tenho amigos aos centos. Mas conheço os que tenho e porque são amigos. De resto acredito que tudo pode ser usado para nossa conveniência.
A noção de conveniência é que andará muito pervertida. E não só neste âmbito. Já a noção de incontactável, coisa aliás apenas relativa, o direito a assim estar e o respeito por assim querer estar serão verdadeiras bizarrias. E se o são, eu também o sou.»
Do nosso leitor Costa. A propósito deste meu texto.
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«Obrigado aos detentores do blog pela imensa pluralidade de opiniões que cada autor, individualmente, defende e pela cordialidade com que conseguem defendê-las. A mim interessam-me opiniões que abordem questões de uma forma que eu não tinha imaginado. A coisa que mais me irrita numa opinião é eu ainda não a ter lido e já adivinhar o conteúdo, concordando ou não com este. Sinto que estou a desperdiçar tempo.
Por esta diversidade de opiniões e pelo tom civilizado com que estas são defendidas o DELITO DE OPINIÃO é de momento o meu blogue preferido.»
Do nosso leitor Francisco Gomes. A propósito deste texto do Rui Rocha.

Excelentes , qualquer um dos quatro.
A minha “aposta” ia para o Tomé, mas este tetra ex- aequo foi justíssimo. 🙂
Alguma vez havia de ser a primeira, Dulce. Merecem todos.
Pedro, este seu comentário ao texto de Sérgio Almeida Correia…
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/fal ta-de-respeito-6465673?thread=53501321#t 53501321
… bem que merecia um «post» só para ele.
Coincidência, Octávio: tinha acabado de pensar nisso mesmo quando li este seu comentário. Assim será.
Honrado por merecer o destaque, merecendo-o ao lado destes três outros comentários. O Delito de Opinião é precisamente o lugar que F. Gomes descreve e isso não é mérito menor. Tomé e S. Pereira retratam com certeira e penosíssima clareza (as coisas são o que são) o processo de arrogante e orgulhoso embrutecimento em que militantemente decidimos por cá enveredar.
Costa
Destaque merecido, meu caro. Também pela qualidade global dos seus comentários aqui no DELITO.
«Nos tempos de Dickens as pessoas eram mais sensíveis às misérias que as crianças sofriam»? Não me parece. Estamos a falar de uma época em que as crianças nem eram consideradas seres humanos completos, as tareias eram o método educativo mais apropriado e o trabalho infantil aceite para as camadas pobres (que eram uns 90% da população total). Além disso, o público leitor de livros nem se pode comparar, em números, ao de hoje. A comparação não me parece, por isso, bem conseguida.
Ao contrário do que Simões Pereira afirma, penso que se pensa muito mais nas crianças hoje do que no tempo de Dickens.
Terá razão, em termos absolutos. Como em termos absolutos o tempo presente será melhor, fatalmente melhor, diria, do que o tempo da Inglaterra e do Portugal oitocentistas. Fatalmente melhor, insisto, porque essa melhoria decorrerá – chegados ao tempo presente – do elementar devir, mais do que da concreta acção dos homens.
Essa concreta acção dos homens a que nos levou, por cá? E não faço aqui juízos de valor, constato factos: levou-nos, por exemplo, a crianças que têm na escola a refeição quente que lhes falta em casa (sim, graças a Deus – ou, seja, aos homens do tempo presente – têm-na na escola; mas isso não elimina o facto de a não terem em casa). Levou-nos a crianças inevitavelmente afectadas pelo encerramento massivo de escolas (sim, o estado parece que lhes proporcionará transporte; mas as escolas não deixarão de encerrar e de acontecer a quarenta quilómetros o que acontecia a quatro). Levou-nos a crianças criadas por pais desesperados por um desemprego sem fim e a breve trecho sem apoio (como se esse apoio chegasse); pais embrutecidos, reduzidos à sobrevivência, necessariamente tolhidos na sua capacidade de o serem. Levou-nos, haja ou não dinheiro, haja ou não emprego, a crianças largadas à sorte – havendo dinheiro – dos jogos de computador e dos smartphones, para, estando entretidas, “não chatearem”; afogadas na televisão em doses cavalares e que lhes rouba a infância, rodeadas de monstros e de desnecessariamente violentos conflitos entre o mal e um alegado bem que ainda não entendem; ou de histórias adultas antes de tempo e que lhes roubam a infância; sem se maravilharem perante o pintaínho, a borboleta ou a flor, nem ser responsabilizadas perante o pequeno erro próprio da sua pequena idade. Sem verdadeira ternura nem um módico de disciplina.
Estarão melhor, pois claro, pela prosaica razão de que há, por exemplo, vacinas por estes tempos (enquanto a elas se conseguir aceder). Mas também me parece que as há que já tiveram água corrente e aquecimento e vão deixando de ter. Que já se alimentaram melhor do que nos tempos de Dickens, mas vão comendo pior do que já comeram. Que como nos tempos de Dickens têm mães e pais ausentes pelo desespero (será outro desespero, mas é desespero; e o facto é que também já vai sendo o desespero de não ter que comer e dar de comer…).
E também as há que por entre uma invejável panóplia de tecnologia e abundância material, não têm a voz amiga, o abraço terno, o beijo tranquilizador, o gesto de doce e atempada autoridade. Estão largadas a si e ao sucesso “empreendedor” – ou coisa parecida – dos pais que o não sabem ou podem ser. Sucesso que pode bem, afinal, apenas ser o esforço aflito (dos pais) de lutar contra o fim de um tempo. De conter, enquanto se puder, um dano imparável.
Consta que é inevitável. Que é o preço a pagar para sair do buraco em que caíu este país. Um dia saberemos quantas gerações foram queimadas neste sacrifício.
Costa
Não contesto os problemas atuais, que são muitos, especialmente os do Portugal da crise. Acontecem coisa indamissíveis, sim. E concordo plenamente com o aspeto altamente prejudicial do afastamento da Natureza e a consequente viciação em ecrãs.
Mas rejeito comparações com tempos passados, no sentido de que antigamente é que era bom.
“Infância roubada”? Quer infância mais roubada do que a da minha avó que começou, com cinco anos, a trabalhar nas pedreiras de mármore da região de Porto de Mós? A minha avó nunca foi mandada para a escola e só aprendeu a ler qualquer coisa em adulta, uma capacidade de leitura que ficou sempre deficiente. Ainda me lembro de ela me pedir para lhe ler as legendas dos filmes.
“a voz amiga, o abraço terno, o beijo tranquilizador, o gesto de doce e atempada autoridade”? Quando? Ao tempo em que o meu pai apanhava tareias de caixão à cova? Ao tempo em que um pai só olhava para um filho a partir dos três anos de idade e apenas para lhe exigir comportamento de adulto (assim me conta o meu pai, sobre a sua infância transmontana)?
O meu pai nunca soube o que era um beijo de pai ou de mãe! Para já não falar de abraços ternos!
Desculpe usar linguagem mais prosaica, mas não me venham com tretas!
Minha senhora,
O passado da sua família parece ser um longo e penosíssimo sacrifício, e até bem recentemente, ao pior das relações familiares. Creia, peço-lhe, que nem toda a gente passou por isso. Mas não desconheço esses universos, basta ler um pouco, e nem temos que sair da literatura portuguesa, para tanto. Infância transmontana? Tem-na asperamente (tanto…) retratada em Ernestina , por Rentes de Carvalho. E tem-na, bem mais docemente recordada, em A Criação do Mundo, de Torga. Bons e maus (verdadeiras bestas, mesmo), enquadrados no seu tempo, sempre os houve.
Como não passei por isso, talvez também por isso, tenho o egoísmo de não repudiar por princípio o passado, nem louvar por dogma o tempo presente e o futuro (por isso e ao contrário de si, respeito a grafia da minha língua materna; e não é coisa menor). Não ignoro que aos olhos de uma pessoa minimamente equilibrada, hoje, certas práticas educacionais e de trato familiar, comuns há não tanto tempo quanto isso, são necessariamente inaceitáveis. Isso, contudo, não branqueia, não santifica, as barbaridades que nesse campo se vão por estes dias praticando. Nem todo o nosso passado é de vergonha; nem podemos decentemente aplaudir muito do que hoje se faz.
Costa
Caro Costa,
se não fosse o senhor, eu não sabia que nem toda a gente teve um passado atribulado.
Também não sabia que, para saber como era a infância dos nossos antepassados, tinha de ler livros (que também os leio; como prova, pode ler sobre as minhas leituras, no meu blogue), não contam os exemplos que conheço, ou a histórias que ouço à minha volta.
Também não sabia que quem não respeita a grafia anterior ao AO/90 tem graves problemas psicológicos e é logo carimbado com um nível bem abaixo da sua celeste pessoa.
Também não sabia que bons e maus sempre os houve. Mas, se isto é verdade, não acha que a comparação velhos tempos/tempos atuais não faz grande sentido? (Desculpe a pergunta, espero não o inquietar).
Também não sabia que era defeito (e suscetível de ser insultado) ter uma família de passado atribulado. Mas pergunto-me se haverá histórias de famílias portuguesas sem tareias, analfabetismo, ou trabalho infantil…
Para sua informação (e para que, no futuro, não veja nas minhas afirmações aquilo que eu não disse):
– eu não louvo por dogma o tempo presente e futuro!
– não branqueio nem santifico as barbaridades que se vão por estes dias praticando!
– não considero todo o nosso passado de vergonha!
– não aplaudo muito do que hoje se faz! (Mas, como o próprio Costa diz, sempre houve maus e bons, pelo que há muitas crianças, hoje em dia, – e sempre haverá – que têm uma voz amiga, abraços ternos, beijos tranquilizadores e gestos de doce e atempada autoridade, graças a Deus).
Como vê, a segunda parte do seu comentário/lição de moral era desnecessária.
Passe muito bem!
(Talvez a única diferença entre nós seja que eu admito certas coisas, sem complexos e sem idealizar o passado).
Minha senhora,
Tanta coisa que a senhora afirma que não sabia… Não acredito, evidentemente. A senhora procura, na verdade, responder com ironia, mas falha estrondosamente o objectivo e parece sim cair numa agressiva amargura (pelo menos), sem conseguir esconder a sua grande dificuldade em tolerar, como igual desde logo, na liberdade de se manifestar, quem tem opinião diversa da sua e ousa replicar.
Aliás, o final do seu anterior comentário, aqui, nesta nossa troca de pontos de vista, (e cito: “não me venham com tretas!”), já revelava bastante quanto à sua alegada ausência de complexos, quanto a quem se acha aqui “celeste”, quanto a quem se considera digno de dar lições de moral. Quanto, enfim, à consideração que lhe merecerá a opinião diversa e – concorde-se, ou não – de boa fé fundamentada.
São apenas comentários a breves textos publicados num blogue isto que por aqui fazemos – com todo o respeito pelos responsáveis pelo mesmo, são coisas tão potencialmente efémeras… -; algo que nos deveria ser agradável e gratificante, mesmo quando discordamos. Não nos excitemos demasiado. Não nos insultemos.
Queira aceitar os meus cumprimentos,
Costa
Bem, reconheço que essa parte das “tretas” foi exagerada. Mas não sei se se pode considerar insulto, pois não usei apelidos ofensivos em relação a ninguém. Foi um exagero de linguagem, aliás, com um pedido de desculpas antes, se reparar melhor.
Não gosto é que me imputem coisas que não correspondem à verdade, o que considero que o Costa fez. Em vez de rebater os meus argumentos, divaga sobre a minha hipotética maneira de ser (não acertando, claro). Isso sim, raia o insulto.
As minhas opiniões também são de “boa fé fundamentada”, baseio-me em histórias da vida que conheço. Nada mais e nada menos!
Quem me vê comentar por aqui sabe que eu adoro criticar o AO, mas o licenciado em Estudos Ingleses que existe dentro de mim não pode deixar passar o crasso erro. Tenho sérias dificuldades em acreditar que as crianças do Zimbabué estudem Shakespeare no original (que edições?) quando os próprios ingleses não o fazem. As edições padrão (Oxford World Classics, Penguin Classics) usadas, por exemplo na Universidade Clássica de Lisboa, usam a ortografia moderna, isto é, a ortografia que se normalizou por volta de 1820 sob a influência do dicionário de Johnson. Conheço apenas uma edição que mantém o Shakespeare original intacto, nomeadamente “First Folio of Shakespeare: The Norton Facsimile,” uma edição para especialistas que custa algo como 160 euros e que está, por isso, fora da alçada de qualquer estudante universitário, para não dizer de estudantes do Zimbabué. Basta comparar a edição de The Tempest da Penguin:
http://www.amazon.co.uk/Tempest-Penguin-S hakespeare-William/dp/0141016647/ref=sr_ 1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1404993792&sr=1-1&keywords=the+tempest+penguin+classics#re ader_0141016647
Com a da Norton:
http://www.amazon.co.uk/First-Folio-Shak espeare-Norton-Facsimile/dp/0393039854/r ef=sr_1_2?s=books&ie=UTF8&qid=1404994162&sr=1-2&keywords=william+shakespeare+facsimile#r eader_0393039854
O que se pode dizer a favor do inglês é que, depois da padronização da ortografia, nunca mais voltaram a mexer nela; e tem permanecido quase imutável (fora algumas perdas de acentos e tremas) nos últimos 200 anos. Tão diferente do português que, desde 1911 a 1900 passou por quatro reformas diferentes, ou seja, em média uma reforma de 20 em 20 anos. É de uma pessoa ficar parva!