Fantasias


Luís Naves,

Em posts anteriores, procurei demonstrar que existe na sociedade portuguesa uma substancial incapacidade para enfrentar os verdadeiros problemas. A troika, o governo e a austeridade transformaram-se nos simpáticos bodes expiatórios de limitações nacionais muito mais vastas e a imprensa tem acentuado a dissociação entre factos e realidades, ao promover nas suas interpretações jornalísticas a lenda conveniente de que há saídas fáceis.

Hoje de manhã, ao ler este texto, a minha tese tornou-se um pouco mais evidente.

O autor do artigo do DN, André Macedo, defende uma alternativa e fala de empresas que podem fazer o inverso daquilo que a troika fez. O texto parece sustentar uma crítica à estratégia económica do país e da troika, que passa pela contenção de salários, redução da dívida e aumento das exportações. Basta ler os comentários. E, no entanto, o artigo torna-se incompreensível tendo em consideração esta outra notícia. Ou seja, no próprio dia em que o texto é publicado, a empresa de Macedo despede 160 trabalhadores. 

A indústria do calçado fez uma reestruturação dolorosa no início da década de 2000. Fecharam centenas de fábricas e houve milhares de despedimentos. Neste momento, é porventura o sector mais competitivo da nossa economia, pelo que algumas empresas se podem dar ao luxo de criar dívida, aumentar salários e comprar máquinas avançadas, ao mesmo tempo que gastam dinheiro em design e inovação.

Infelizmente, o País não é todo igual à indústria do calçado e o bom exemplo de Felgueiras não serve para o sector da comunicação, onde há sobretudo serviços que dependem da venda de publicidade e da credibilidade perdida. São empresas que dão prejuízo, não exportam e tiveram grandes quebras nas vendas, com acumulação de gigantescas dívidas. Estes títulos perderam milhares de leitores e concorrem com plataformas gratuitas.

No dia em são despedidos 160 camaradas seus, André Macedo fala de um exemplo de Felgueiras que, na realidade onde vive o autor, não passa de uma pequena fantasia.

 

Nota: trabalhei durante 21 anos no Diário de Notícias e o meu coração sangra. Deixo aqui um abraço de amizade e de solidariedade a todos os meus amigos que serão vítimas deste despedimento colectivo.  

Um comentário em “Fantasias”

  1. Se o Marcelino, o Saraiva e o Macedo, não estiverem incluidos nos 160 que vão ser “dispensados”, qualquer dia estão a “dispensar” mais 160. Até ao dia, que não vem muito longe, que fechar mais um jornal centenário que já foi uma referência.

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