Reflexões europeístas (7)


Pedro Correia,

 

“Nós, europeus” – expressão que leio num dos principais cartazes de propaganda eleitoral na pré-campanha já em curso – significa exactamente o quê?

Que a condição europeia é uma espécie de estádio superior de cidadania? Ou que, pelo contrário, somos um sujeito sem predicado? Somos uma realidade geográfica, confinada às fronteiras históricas do Velho Continente? Nesta hipótese, significa isso que excluimos a Turquia – país maioritariamente asiático – do espaço europeu?

“Nós, europeus” significa que somos europeus antes de ser portugueses? Isso exclui-me a mim, que me sinto português antes de ser europeu? Excluimos os africanos, asiáticos e americanos que vivem em Portugal e até podem já votar nas eleições autárquicas? E não há portugueses africanos? E não há portugueses asiáticos? E não há portugueses americanos? Portugal, país de emigrantes, pode ser considerado apenas pela sua componente europeia, excluindo os portugueses que não se encaixam nesta dimensão? Portugal, país de imigrantes, pode ser considerado apenas pela sua componente europeia, excluindo os aqui radicados que não se encaixam nesta dimensão?

 

O facto de estas eleições se destinarem a eleger o novo elenco do Parlamento Europeu significa algo mais que isso? Que leitura política devemos fazer se a abstenção for gigantesca?

 

“Nós, europeus”, temos uma língua comum? “Nós, europeus”, temos um exército comum? “Nós, europeus”, temos um sistema político comum que nos torna simultaneamente concidadãos do senhor Nicolas Sarkozy, súbditos da senhora Elizabeth de Windsor e vassalos da burocracia de Bruxelas?

São “europeus” os valões que querem separar-se dos flamengos e os flamengos que querem separar-se dos valões na minúscula Bélgica?

São “europeus” os bascos nacionalistas que matam bascos que se sentem espanhóis?

Gibraltar é “europeia”? Olivença é “europeia”? As Ilhas Caimão são “Europa”? Guadalupe e Reunião são “Europa”? A Union Jack deixou de ser hasteada em Guernsey, terra do exílio de Victor Hugo, com a costa francesa ali defronte?

A União Europeia pode ser construída sem europeus?

“Nós, europeus” significa exactamente o quê?

 

A quantidade de perguntas que um simples cartaz pode suscitar.

 

Texto aqui publicado durante a campanha eleitoral de 2009 e que decidi reeditar

6 comentários em “Reflexões europeístas (7)”

  1. A memória é tramada.
    Hoje em dia já temos contradições no espaços de meses, semanas, dias.
    Quando o Pedro vai buscar estes tesourinhos ao baú, então pior…
    Podemos ver que todas essas questões continuam pertinentes, acrescendo todas as mais que decorreram da gestão desastrosa neste últimos 4 anos.

    O que vai interessando não é o conteúdo, é só a forma.
    A forma exige a eleição de pessoas, o conteúdo programático é um fait-divers.
    O saco está roto, mas deve parecer grande, para lá caber muita gente.

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