Meu Capitão


Pedro Correia,

 Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói. Cumpre o seu dever não por ser um dever mas por urgente imperativo de consciência. Dá o nome, a cara, o peito às balas e se for preciso a vida pela causa que crê ser mais justa entre todas as causas.

Um verdadeiro herói pensa em si próprio só depois de pensar nos outros. Avança sem temor com a noção exacta de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo — conforto, carreira, promoções, anonimato. Ficando a partir daí exposto ao escárnio imbecil de todos os cobardes — aqueles que nunca dão um passo fora do perímetro de segurança mas quando a poeira assenta logo surgem muito expeditos a julgar os outros. A julgar aqueles como tu: os que arriscam, os que experimentam, os que se atrevem a romper as malhas de um quotidiano medíocre. Os que trocam a palavra eu pela palavra nós. Os que nunca se conformam.

Um verdadeiro herói é aquele que deixa a sua impressão digital nas insondáveis rotas do destino humano. Tu ousaste mudar um país. Não pelo sangue, não pelo ódio, não pela intriga — mas pelo gesto, pelo rasgo, pelo exemplo. Sabendo como é ténue a fronteira entre glória e drama quando alguém irrompe de madrugada pronto a desafiar os guiões da História.

Foste um herói ao comandar a patrulha da alvorada, Fernando Salgueiro Maia. Voltaste a ser um herói quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes. Recusaste ficar exposto na vitrina. Recusaste servir de bandeira. Recusaste ser “vanguarda revolucionária”. Recusaste ser antigo combatente. Recusaste dar pretextos para dividir. Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

Saíste do palco: aquela peça já não te dizia respeito.

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente como no momento em que abandonaste a ribalta, regressando à condição de homem comum. Indiferente a ladainhas e louvores. Longe da multidão que fugazmente te acenou na mais límpida de todas as manhãs. Sem outra medalha além desta: eternamente graduado no posto de capitão da liberdade.

34 comentários em “Meu Capitão”

  1. Está lá tudo, Pedro.
    Imagino o que ele pensaria dos pavões e das pavoas que discutem quarenta anos depois quem discursa e aonde.

  2. Trocar a palavra “eu” pela palavra “nós” já não se usa. É por isso que se olha à volta e não se vê ninguém capaz de fazer a diferença. Já não falo de heróis, mas de estadistas.
    (bonita homenagem, Pedro)

  3. Assino por baixo.
    Outros têm tal efabulação das suas vidas que até se poderia supor que nem a mocidade portuguesa nem a legião, dela fizeram parte.

  4. Muito bem.
    E como um herói deixa a sua impressão digital nas insondáveis rotas do destino, tenho a honra de comunicar que acabei de enterrar o cravo no vazito.
    Espero que os historiadores acrescentem aos livros este feito de um zé povinho no auge das delícias do 25.

  5. Como te invejo meu caro Pedro por este texto, e quanto gostaria de ter sido eu escrevê-lo, tanto nele me revejo. Por isso não resisti, exactamente neste dia, a reproduzi-lo na minha humilde “Retórica”.

  6. Bela e merecida homenagem ao Homem que ainda pude, fugazmente,conhecer, nos idos de 1972/73, lá por Santarém.
    E que, temido à direita e à esquerda, soube suportar as desconsiderações e agravos e manter-se, digno, ” far from the madding crowd ” . Deus o guarde.

    Obrigado, Pedro Correia.

  7. Li o texto de manhã e, aqui e ali, quase me emocionei. Contive-me.
    Queria comenta-lo e ao final do dia continuo sem saber bem o que dizer.
    Homenagem merecida num texto fantástico.
    Obrigado Pedro

  8. De tudo o que foi dito e escrito sobre estes 40 anos, isto é o mais bonito, verdadeiro e marcante.

  9. Caro Pedro,
    bonito texto, poetico até, contudo ao contrário do primeiro comentário aqui proferido, este seu texto não diz tudo, pois falta dizer que lhe foi recusada pelo governo «uma pensão por “Serviços excecionais e relevantes prestados ao país”, isto depois do conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República ter aprovado o parecer por unanimidade”». Adivinhe quem era o primeiro-ministro?

    1. Um dos actos mais lamentáveis do actual Presidente da República quando era primeiro-ministro. Se alguém prestou “serviços excepcionais e relevantes” ao País foi Fernando Salgueiro Maia.

  10. Tal como os outros Salgueiro Maia fraquejou. E foi um ato facilitador até chegar à promoção de Tenente-coronel.
    Portanto iludam-se-Também ele aceitou a progressão na carreira. Capitão é um subalterno, Tenente-coronel é um oficial superior, embora a doença o ceifasse cedo de mais.

    1. Foi alvo de promoções normais, no âmbito da progressão da carreira militar. Nunca foi graduado em general – nem tal alguma vez pediu. Nunca recebeu progressões por mérito – nem as solicitou.
      No imaginário popular será sempre capitão. Essa é a melhor homenagem que alguma vez recebeu.

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