Portugal e o PS: que futuro?


André Couto,

No meio das glorificações que li aos 32% do costume do PSD e à diabolização e morte anunciada "de uma era", li um texto do Rui Paulo Figueiredo, que faz um diagnóstico pragmático e real do que se passou nas últimas eleições e de qual deve ser o caminho a trilhar pelo PS.

 

"Os portugueses passam rapidamente do 8 para o 80 e vice-versa. É sabido! Na política não é diferente. Muita gente no PS considerava as eleições apenas o cumprir de calendário. Agora, estão derrotistas. No PSD, aguardava-se pela disputa eleitoral que se seguiria às eleições autárquicas e legislativas: vide Pedro Passos Coelho. Agora, unem-se em torno de quem só tinha defeitos e já se escolhem pastas, gabinetes e assessores. Ambas as percepções são, para mim, um exagero.

(…)

O terreno é ideal para o populismo e isso nota-se à esquerda do PS e no CDS. Um discurso entre os corruptos, capitalistas, exploradores, mentirosos, e os combatentes pela verdade, pela moralização, pelos direitos de todos a tudo. É uma linguagem moral e populista que é utilizada. Embora, por vezes, se oiçam algumas propostas interessantes. Como não notar, por exemplo, a diferença entre o discurso de Rui Tavares e outros dirigentes do Bloco?

Mas, se descontarmos os riscos de populismo e do providencialismo, que captam, por vezes, o descontentamento conjuntural, é natural que quem vá votar possa ter uma atitude madura e responsável no momento de decidir o seu voto para o governo do país e das autarquias. Ainda que deprimidos e pouco esperançados pela crise mundial, não acreditando nos políticos ou não esperando muito das propostas apresentadas (pelo que dizem nas sondagens e a abstenção demonstra) muitos dos portugueses esperam, penso eu, solidez, seriedade, confiança, segurança e credibilidade no governo do país. Factores que lhes permitam atravessarem a crise e, passada a tempestade, melhorar alguma coisa.

É um programa para tempos difíceis, mínimo mas racional, para os eleitores do "centro", que é onde a maioria dos eleitores está, mas que pode também captar a esquerda que quer continuar a transformar socialmente o país. Não acredito que o eleitor vá votar em grandes questões programáticas que possam traduzir grandes rupturas nem em listas de medidas por muito atractivas que elas sejam. Também não acredito em grandes e repentinas mudanças sem que pareça que o PS se esteja a negar a si próprio.

Acredito, sim, num reforço dessa solidez, seriedade, confiança, segurança e credibilidade face ao PSD e ao regresso ao passado de Manuela Ferreira Leite, Portas, Santana, entre outros. Acredito, também, na necessidade de um reforço da participação dos militantes do PS na vida interna do partido e nas suas decisões a par de um reforço da unidade e da inclusão de todos nas batalhas eleitorais que se aproximam. Não podemos fechar as estruturas em circuito fechado ou fazer listas com base em meras opções internas.

Acredito, igualmente, no corrigir de algumas propostas e/ou atitudes que têm sido contestadas reforçando a componente social e de procura do desenvolvimento económico, da qualificação dos portugueses e de abertura e transparência da vida democrática. O PS deve ouvir, compreender os reparos, ponderar as propostas alternativas e corrigir aquilo que o possa ser. Sem trair o rumo que tem seguido a bem do país, pois não se deve comprometer o futuro com vista ao curtíssimo prazo, mas sem ter a veleidade de deixar tudo na mesma.

Se o fizer e o souber explicar penso que o PS poderá ganhar as próximas eleições. Com muito trabalho, qualidade e unidade. E a certeza que a disputa será dura. Assim seja politicamente engrandecedora para a democracia portuguesa."

 

É este o diagnóstico e o futuro que tem de fazer o PS. Sem medo de olhar para trás e ver que o País não reagiu bem, perceber o que esteve mal, ler isso e traçar o caminho do futuro. Esta humildade é característica do PS e essencial ao construir firme de um País melhor.

Uma coisa está à vista de todos: será a decisão entre voltar a Manuela Ferreira Leite, Pedro Santana Lopes e Paulo Portas, ou seguir o caminho traçado por quem apagou os fogos quando tudo ardia, José Sócrates e António Costa, os mesmos que voltaram a dar dignidade ao País, que o souberam colocar à frente de tudo e lhe deram um rumo, um rumo digno mas mais que isso, um rumo ambicioso.

7 comentários em “Portugal e o PS: que futuro?”

  1. Em 2005 o tal de défice era 6,8% (atenção, para este valor não foram tidas em conta as medidas para o reduzir) e a nossa dívida externa devia ser à volta de 60% do PIB. Agora temos, respectivamente, 6,9% no mínimo e 85%. Se dantes estava tudo a arder o que lhe chamar agora, um inferno?

  2. Penso que essa ideia de lembrar a coligação Santana/Portas não trará muitos votos ao PS. Em primeiro lugar, porque o Santana está noutras corridas, logo não conta para as legislativas. É também muito abusivo dar a ideia do “ou nós ou morte”, isto revela um pouco de falta de saber estar em democracia. Esta ideia que se tenta passar, argumentando que MFL a primeira-ministra seria apostar na aventura, no desconhecido e recuar é pouco significativa. As circunstâncias mudaram e este já não é o PSD de 2002/2004, é outro PSD, algo fracturado internamente, é certo, mas é o único partido que pode actualmente ser alternativa para governar e face ao descontentamento generalizado com a governação falhada do PS, penso que é claro que o PSD assume-se como possível vencedor das legislativas. Existe um novo fôlego laranja…e como é obvio, se for necessário, o CDS vem a reboque, para isso terá de sair deste circo em que está metido e evitar voltar a ser o partido do táxi.

  3. Concordo em geral com o post. Não creio que se possa fazer muita coisa agora excepto manter o rumo. A crise económica internacional ditou o aumento do desemprego criando imensas dificuldades, mas a resposta dada foi a correcta. Mais tarde ou mais cedo irá aparecer a comparação com os anteriores governos psd/cds e a diferença é abissal; estamos claramente noutro nível como é reconhecido pelo psd Van Zeller da cip. Não queremos certamente voltar aos tempos do nada fazer, do deixar andar, da barraca dos concursos de professores em Setembro, dos imbróglios da Galp e EDP, das cunhas, dos outros países a crescerem 4% e nós a recuarmos 1%, da cosmética das contas públicas, da segurança social falida, da ……
    Creio que apesar da oposição militante da comunicação social os portuguese saberão reconduzir sócrates nas próximas eleições.

    1. “Creio que apesar da oposição militante da comunicação social os portuguese saberão reconduzir sócrates nas próximas eleições”.

      Isso é que é fé.
      Eu, quando era criança, também acreditava no Pai Natal, mas depois passou-me…

  4. André, não posso concordar: se a humildade é uma característica do PS, então Sócrates bem podia ter aprendido alguma coisa com o seu partido. Se há característica que lhe falte é exactamente essa, e por essa ausência total de humildade foi penalizado nestas eleições. Além disso, os fogos estão muito longe de estar apagados.

  5. Confesso que já tinha saudades dos posts do André. A ideia de falar em Santana Lopes, no Pato Donald, no Rato Mickey parece boa ideia. Esquece-se é que o mal da coisa está nos Sócrates, Pinhos, Linos, Lurdes, etc.

    E convém não esquecer que o PSD era o partido dos tristes, da “velha”, o tal que não servia de alternativa.
    O caminho triunfante do PS e de Sócrates era saber se a maioria absoluta era maior ou mais pequena que a actual.

    O medo dos portugueses não é ter a Manuela: o medo dos portugueses, como se viu, é continuar com Sócrates. O tal que na fantástica e fantasiosa expressão do André, apagou fogos. Ficou por dizer que os tentou apagar com gasolina. Gasolina, arrogância e teimosia. E muita, mas muita, areia para os olhos.

    Não resultou. Têm que mandar mais postais

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