A ilha de Vera de Vilhena


Patrícia Reis,

Existem muitas ilhas dentro de nós.
Há mais de vinte anos que navego em águas calmas ou atormentadas com a Vera de Vilhena.

Nenhuma de nós será “o homem do leme” e o que nos separa também é o que os une, sendo ambas muito diferentes.

É na diferença que se construiu uma amizade que é um pouco mais do que isso, já que lhe roubei, salvo seja, uma parte do filho, o Hugo, de quem digo sempre que é tão meu quanto dos pais. Um abuso da minha parte? Sem dúvida.

Os livros sempre nos uniram. Trocamos ideias, lemos as mesmas coisas, ela mais crítica em relação a umas, eu face a outras.
Vivemos em ilhas diferentes, frente a frente.

Quando a maré vaza, podemos chegar uma à outra. No encontro, temos então os livros que nos salvam, essa ideia de que a escrita é terapêutica, uma dimensão de sonho que pertence exclusivamente à Vera e um pragmatismo do meu lado que muitos consideram arrogância e que, para o caso, me é indiferente.

Ela é uma mulher doce, eu sou frontal.

Ela gosta de descrever, eu gosto de escrever no osso.

Eu li ficção científica na adolescência, ela rebolou nos encantos de uma qualquer paisagem bucólica ou numa palpitação.
Podíamos – postas as coisas desta forma – não ser tampa do mesmo tacho, tacho da mesma panela. Mas somos. Curiosamente.
Por sabermos que o não reconhecimento do que uma gosta, não afecta o que nos liga, a tal amarra que é feita de tanta coisa que a vida vem trazendo para a costa: pedaços de festas, lágrimas, fotografias, momentos estranhos, risos e, claro, os filhos, o dela e os meus.

Uma vida inteira a compartilhar com a Vera as coisas da escrita, serviu para eu entender algo que, para muitos, pode ser básico: somos leitores distintos, escritores distintos, porém podemos partilhar e celebrar os mesmos conceitos básicos de humanismo.
Além disso, sem punhos de renda, concordamos que discordamos com imensa facilidade, o que, nos dias que correm, é muito raro.

Cereja no topo do bolo: celebramos o melhor que nos acontece sem a mesquinhez e inveja que por aí cresce e dá cabo de tanto. Não somos felizes uma com a outra, nem deixamos de ser, somos.

E só isso – ser – é suficiente.

Assim, há dez anos, ou pouco mais, que este livro me persegue como tantas outras coisas da vida da Vera e não há mal nenhum em dizer que, ao fim desta temporada larga, ver o livro pronto para ser partilhado é um alívio. Para mim seria sempre mais um livro, para a Vera é um passo em frente que lhe pode permitir, se ela assim o desejar, escrever outras coisas.

Enquanto esta ilha estivesse num qualquer limbo, dificilmente a Vera escreveria outra coisa. Pode parecer estranho para quem não escreve, para quem não é atormentado com personagens que, de forma algo absurda, parecem ter vida própria.

Estive doze anos para publicar o meu primeiro livro, uma novela mínima, de 124 páginas. Ganho então no campeonato da espera por dois anos. Pouco importa, a escrita não é uma competição, ao contrário do que muitos possam pensar.

Levei o tempo que tinha de levar, sabendo que não escreveria mais nada enquanto aquela coisa, aquele conjunto de personagens, não estivesse entregue. O mesmo se passa com este livro da Vera que, sendo uma fantasia, pode ser lido em registos vários, como uma metáfora dos dias que vivemos, como a tentativa de nos iludirmos, como fazer perguntas é sempre mais redentor do que aceitar o que nos colocam à frente. É um bom livro, portanto.

Como facilmente compreenderão, não posso, nem devo, contar a história. Ficariam a perder e não seria justo. Os livros merecem ser lidos com atenção e são um bilhete de viagem extraordinário.
A Vera leva-nos pela história com os seus cuidados, sem pressa, colocando pequenas “cenouras” aqui e ali, sendo impossível não querer ler mais. Queremos sempre mais quando uma história é boa, não é?

Pouco importa dizer que a Vera escreve bem, não é relevante neste contexto, é o que se espera de alguém que apresente um livro: ai que bem que a autora escreve.

E escreve.

No entanto, o crucial é o entendimento da narrativa, a forma como esta se desenrola, aquilo que distingue a Vera de outros autores. E ele há tantos! Devemos ser o país com mais autores por metro quadrado. Uns bons, outros maus.

O que importa? Não é apenas saber articular as palavras ou ter uma boa história, é fazer com que a verdade da mesma seja perceptível, que o leitor se possa sentir incomodado, como diria Agustina Bessa-Luís, ou possa apenas identificar-se com um sentimento.

Ler um livro é combater a solidão e, nesse sentido, o escritor é um gladiador, afasta as coisas más e dá-nos outras para pensarmos. Na fantasia, dirão alguns, a felicidade está garantida. Pode ser. O que importa é esta viagem que o escritor nos oferece e a generosidade com que o faz.

Quando se escreve, e se é mulher, correm-se mais riscos que a maioria. Não é uma reflexão, infelizmente sei bem do que falo.
O risco é colocarmos o nosso nome na capa, existir uma exposição que significa que alguém pode arruinar o nosso trabalho em três linhas ou, pior ainda, num sistema altamente injusto de estrelas num jornal de esquina. Claro que isto acontece se o livro for parar às mãos dos críticos – basta um – que o leia com atenção. Ou nem por isso.

Será que importa?

Todos gostamos de elogios, porém é de salientar que o mercado está saturado e que poucos são os livros que são festejados como o deveriam ser. Esta é uma das razões que leva as pessoas a reunirem-se em lançamentos e tertúlias, não só para estar mais próximo do autor, conhecer melhor, mas também para dar carinho. Escrever, embora um acto solitário, também é um dever de reciprocidade.

Por isso, nesta ilha que agora irão visitar, entre talismãs e tarefas antigas, ideias e magias, façam o favor de ver o trabalho de quem dedicou tanto tempo a pensar que é possível, apesar das amigas que se tem, que o final seja feliz ou, no limite, que o final está aberto a todas as boas possibilidades.

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